quinta-feira, 1 de novembro de 2018


FOGÃO VELHO – CHAPA FRIA- CAFÉ REQUENTADO

                        Se fazia urgência, Jupitão testemunhou, atendeu recado, era prestimoso das horas, aprumou, pasmou esgrouvinhado ao levantar, estirou as pernas frias, doloridas, sem embalos desde a manhã, carcomidas nas melancolias na mesma cadeira. Desfez empertigado para as providências, Jupitão. Saldou para si, pois os mais não interessavam, salvo Seu Vazinho, repetiu, repetente – O cachorro latiu embaixo mesmo da escada do alpendre. Atendeu hora de o preá caçar água na bica da barrica cortada, como é correta sua hora de beber água na barrica cortada, como gosta o preá, onde a barrica fica. Assim, o senhor, Seu Vazinho, carece tomar café e pitar. Vou servir o senhor, Seu Vazinho. Moço, não se acanhe, tome café, coma carne de sol, beba mais uma cachaça, atente, tem fumo, tem tudo à vontade, desacanhe. Estendeu Jupitão a caneca de café meio frio ao Seu Vazinho, que condescendeu sem euforias, acendeu o cigarro de palha, pigarreou mesmices, articulou o verbo, pensou, disse, sem falar, esperando os apaziguados se darem.
                        Era a essência de Seu Vazinho desmilinguido em si mesmo à espera do nada e Jupitão calou para o resto dos palavreados até ir dormir sem outras prosas. Não estava assim para entretantos, o homem, pois cansou das ideias, não disse mais, tanto que enviesara por ser Jupitão do São Alepro do Jurucuí Açu, peão carregado de competências, amansador de cavalo, o melhor homem para acertar boca de animal, foi, não era mais, mas desmediu de querer viver, suspendeu a vontade de sorrir, assentou no silêncio, ficou. E tudo se deu, pois o cachorro latiu embaixo mesmo da escada do alpendre, quando viu a hora de o preá beber água, quieto, sem desmentir medo do latido, o urubu se acomodou no cocho, lugar do carcará, que assentou mais longe no moirão da porteira, sem saber por que o vento não carregava mais as chuvas novas como as coisas deveriam ser. O sertão que tinha estas sobrevalências se alongou nas premissas e nada mudou, pois o sol ainda iria enjambrar devagar pelos seus rumos mais um estirão sem fim antes de acabar o dia. Seu Vazinho desmudou de novo, balbuciou miúdo a si mesmo para Cadinho escutar.
                        Carecia contar nos traquejos dos finais, no apezinhar das mágoas desforradas do cavalo assumindo toada viageira de tempo seco, calor bravo e pragas, sem tropico nas passadas, mas preguiçoso nos intentos e por prosa com o além, Cadinho deu por cordato, desmediu. Por rotina o sol castigava a cacunda derrubando para o oeste. Cavaleiro e a montaria foram atentando as vistas pelas beiradas das pastagens das cabeças poucas sobradas de gado não tendo mais onde emagrecer. As cacimbas prontas para sumirem de vez, desenfeitadas nos buracos quase vazios, tristes, enxugando. O caminhado emparelhava as mesmas sinas das cataduras do então dadivoso Rio Açu secando. Tanto era que a paisagem assemelhava propositada parelha de desgraça com cada vaca, bezerro ou novilho sendo acompanhado por um urubu sustentando do lado um mau-olhado de desgraça e praga. E assim por ter-se dado Seu, Vazinho pontuou as desgraças que se deram com a seca que castigou por muitos verões intermináveis.  
           
Ceflorence       24/10/18     email     cflorence.amabrasil@uol.com.br

quarta-feira, 24 de outubro de 2018


ENSAIOS TRISTES E DESTINOS REVERSOS.
            A memória, tristonha, revive minha pequena Juriaçu dos Tropeiros onde infelizmente o tempo cismou de esconder entre meandros d’almas os afetos e os desejos. Como era de hábito, em sendo sábado, os pássaros imbuíam-se dos melhores sonhos, tanto que me animava a recontar entre os intervalos das saudades, com as pontas dos dedos todos em várias vezes, quantos seriam os repiques cadenciados dos sinos apregoando a hora da Ave-Maria. Indiferente, a praça se abastecia de silêncio deixando a melancolia sombrear carinho sobre o casario disperso. Cada um portava a sua solidão com travo nos olhos, angústia na alma, esperança no futuro. Se faziam em gentes como as gentes são a se fazerem em vontades, enquanto a brisa desobediente vertia irrequieta pelas folhagens dos jardins brincando de rodamoinhos. As pombas traziam seus arrulhos sincopados e metódicos, implorando uma réstia de pão, uma migalha de atenção, um sorriso de alento. Pombas despretensiosas, mas carentes.
Tanto assim se dava como rememoro, que a esperança brincava pelas ruas tortuosas ganhando os valos e as serras querendo visitar o infinito. Era uma alegria deixar a vista seguir os volteios a se perderem levando pelas ruelas quebradas as melancolias e ansiedades. Por ser da sina das suas métricas e contornos, as calçadas aprendiam despreocupadas, dolentes e morosas a arrastar os pedestres para lhes oferecer as cadências aconchegantes das preguiças entremeadas nos bancos, desejos, arbustos, sorrisos e paredes. A torre da matriz remarcava as horas avisando da reza finda. Cada um então se servia de quanto o destino trouxera da malemolência, sem reparar que o azul despreocupado se dispunha em silêncio a escutar a noite caindo devagar, amolengada, enquanto se lambuzava no grená do poente beijo. Me pus em tempo de espera para não perturbar as meninas jogando amarelinha sobre os seus sorrisos soltos, quadrados riscados e inocências sinceras. Cada uma sabia ser a mais graciosa e até por isto não se preocupava em se exibir. 
            A simplicidade única das fantasias, para desobedecer aos intolerantes, ordenou ao coreto despreocupado do jardim retribuir a alegria e se espalhar pelos recantos animados, deixando a banda singela enfeitar o fim do dia com marchas alegres e dobrados ritmados. Sob a batuta do maestro, circunspecto, surgiu por trás do espigão uma lua curiosa para ouvir os compassos e iluminar a esperança. Os meninos brincavam de pega-pega entre os enamorados atravessando apaixonados os seus anseios. Os postes pediam aos cachorros para serem urinados, pois as estrelas se escondiam para não assustarem a lua que se banhava nas últimas lágrimas das chuvas. 
            Aqui, agora, Juriaçu dos Tropeiros apetece minha saudade, miúda e sozinha, ainda, naquele fim de estrada de ferro, rincão dos remorsos, de onde fugi um dia embarcando só, espremendo no garrote retorcido minha angústia, tristeza e solidão.
Ceflorence     15/10/18       email   cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 18 de outubro de 2018


DEVANEIOS EM ACALANTOS
Propus-me, mas é bom declarar, antes dos flautins se oporem, por precaução, calmamente, a atravessar os ensejos, as tópicas e as metamorfoses. Se tal não se desse, como os destinos haviam previsto, os sete pássaros dos presságios que desenham o futuro sobre os infindos, não teriam se recusado a trazer seus cantos dolentes e, molemente enfeitiçados, esconderiam as tristezas entre as montantes marés antes de enfeitiçarem as tardes que os colibris preferem. Era, sem dúvida, o que de melhor sobrara depois que os sonhos foram recolhidos alegres entre as metáforas, os delírios e as censuras. Por se estar em plena safra de melancolia, a solidão pacata deixou suas marcas sobre a areia, mas muita indignada e com receio das ondas apagarem seus rastros para saborearem, discretamente, o que sobrara dos devaneios. Havia um cheiro acre de indefinição esparramado sobre as cores saltitantes. A solução foi postergada até que alguém sentisse desejo, carência e nostalgia. Mas, mesmo assim, repito que o domingo se fez sem trazer maiores anseios. Coisas antigas e atávicas, pois os que estavam sem certeza, dividiram os seus melhores desejos entre si na esperança que a penca de indefinição progredisse envolta em dúvidas e incertezas. Seria como conseguiriam aguardar a preguiça, sem se acabrunharem.
Se não estivesse prevenido teria me angustiado sobremaneira, pois duas fantasias eufóricas tentavam espreitar-me de soslaio por trás dos meus anseios. Coisas das paranoias indelicadas, que me assoberbam, em sendo domingos pares, insisto, quando os sinos timbrados não são ouvidos nem mesmo pelos mais fieis, pois as capelas preferem o silêncio e as crianças os regaços maternos. O improviso inesperado se arrastou pelas calçadas vazias sem deixar-me beijar, afetuosamente, a preguiça carinhosa a que me obrigo de habito, quando o grená do poente se adorna antes de esconder o sol e a saudade. E, ainda no mesmo tom dodecafônico que acalanta meus desejos e por não ter findo o domingo, aquele azul mais suave correu manso e moroso para os braços das nuvens mais baixas e se espalhou pelas rimas que os poetas trouxeram. Eram sete os desejos e não houve conflito, pois cada um se preparou para ficar somente com o que poderia carregar em seus sonhos.    
Conformei-me só depois que meus pensamentos vagarosos começaram a bolinar a nostalgia e as crianças preferiram saltar entre as brisas cortando o azul antes de se acomodar no infinito. Os pássaros dolentes retornaram aos seus aconchegos para acarinharem as crias, se esconderem das escuridões e conversarem com as almas. Não havia contrafeita, pois o tempo se entretinha em volteios calmos e delicados, mas entremeado por setes luas de ogum. Os provérbios estavam cismados e as angústias dispersas não conseguiam se acasalar sem alvoroços ao oferecerem alguma esperança. Por procedente, a solidão trouxe consigo o que restou com sabor de silêncio para alimentar os imaginários, os mitos e as fantasias.
Assim se deu, e não caberia nada além de esperar, entre dois cravos e uma esperança, como a vida nos ensina, suave e mansa, enquanto apreciamos a nostalgia trazer vagarosa o poente.        
Ceflorence             03/10/18       email   cflorence.amabrasil@uol.com.br  

quinta-feira, 4 de outubro de 2018


DESNOITANDO DO MADRUGAR E SAGAS OUTRAS
Sem descanso, repicando ameno, mas triste, noite se desfazendo miúda, sino da matriz no mesmo embalo, por não ter outras obrigações além de marcar horas e manias. Por ser assim se fizeram as sagas. Liau, cão afetivo, farejou alongado, radiante, a primeira lata de lixo deixada à porta da pastelaria. Entusiasmo, prontidão. Arregaçou as mesuras, permitiu-se a Cadinho, catador de sobrados, licenciou-se com cigano desencarnado, ordenou juízo às pombas e alvoroçou na captura dos desprezados. O sacristão conferiu se os santos retardatários, sonolentos, mais insolentes por descuidos e temperamentos. Conferiu se haviam retornado às suas fidalguias introspectivas nos altares, posturas eretas, sofridas, insinuantes, carismáticas, antes de abrir as portas fronteiriças e majestosas, convidando fiéis, desocupados, curiosos às penitências.
A matriz se aprestou em soberbas imputações de enlevar fantasias e demandas deixando ao vento acatar licença pelas entradas liberadas, se empertigar pelos meandros visitando os milagres e segredos dos perdões, com um achego umedecido da garoa levando seu sabor de madrugada. Acordados pelos ruídos camuflados nas entranhas da noite, os silêncios se arvoraram para serem ouvidos por quem se prestava às orações nas preferidas obtenções esperançosas com os padroeiros afinados mais achegados, pois o dia foi autorizado a ir procedendo como as tarefas pediam. Tanto que o chafariz mimoso já se permitia alegre receber seus passarinhos preferidos brincando de aurora, contrastando com o azul que o sol pretendia esconder. O tráfego afobou graúdo em bom volume ao já se pronunciar imprudente, buzinas, alguns andantes cruzando suas finalidades, pressas, destinos, portas dos bares invadidas.
Atento, o cigano, as pombas, Liau dormindo, os santos pasmados, chafariz chorando, ouviram as memórias do retirante, que depois o tempo redundará com carinho. A noite abraçou o silêncio para se esconder na solidão e escutar as prosas mansas e tristes.
Ceflorence     25/09/18 email cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 27 de setembro de 2018


EM AZUL E OUTRAS SUTILEZAS
Houve um renascer de pássaros e melindres rompendo aurora adentro. Aconteceu das miudezas sobradas se disfarçarem entre os delírios mansos, ouvindo os flautins, trompetes e ganzás, embora enlaçadas por solfejos, como preferem andejar os poetas pelas fantasias e mágoas, imiscuídas às miudezas e delicadezas das lágrimas restantes. Todos escamoteados em sete sutilezas mais envergonhadas, como as coisas imprevistas e saborosas preferem começar os encantos e os verbos antes das paixões rebrotarem. Era dia de firmamentos, pois à solitude apeteceu vir pelos recantos mais suaves e não entrar em conflitos. As árvores se fantasiaram dos melhores pássaros, tanto que os ventos mansos desenharam ao fundo os horizontes mais alegres para os verdes se acasalarem escondidos em seus aninhos e sonhos. Desassistida, assim, a melancolia esgueirou-se entre as nuances, os provérbios e os silêncios. E destas indefinições e simplezas, os mais afetuosos se aproveitavam, sem ansiedades, para apaziguarem na preguiça, enganarem o tempo e se enfeitarem com a dolência.
Mais desapegados das fantasias pretendendo invadir o imaginário, espreitando a angústia enevoada nos rodamoinhos dos compassos sustenidos, os homens chegando acobertados pelos desejos tentavam retraçar seus destinos. Tudo, como deveria ser, era apreciado pelos anseios em botões, revestidos entre os lamentos implorando ao verão escondendo as chuvas boas para ensinarem as águas mansas a voltarem antes das seriemas se calarem. Por ser fim de tarde deus sorriu. Mas mesmo assim as águas fartas só se fariam nos tempos devidos e esperados, em sintonia com as pitonisas sabendo tão bem rebuscar seus búzios e tarôs para enfeitarem as previsões que portavam. Deu-se espaço à meditação, pois ainda não se teriam maturado, a contento, as melancolias, como preferem os deuses e as imprudências.  Aquela solitude envergonhada entre os anseios para desafiar os sofrimentos mais retardados, escolheu exatamente os caminhos dos sonhos por onde a melancolia preferia alongar suas presas, antes de roubar dos astros as manias e os sossegos.
Em sendo ser sempre colibri, se fez presente para oferecer às flores acordando, sem preocupações de se exibirem ou de se oferecerem para perfumarem as brisas, a delicadeza de seus beijos delicados. O tempo tentou parar no espaço e imitar, atrevido, o beija-flor sorrindo da incompetência dos ponteiros dos relógios e dos sinos, que se cadenciavam meticulosamente sempre em frente, procurando devorar o futuro, sem conseguirem estacionar a vida angustiada rumando ao desconhecido. Ouviu-se um tropejo ruidoso da mudez trazendo consigo a incerteza ao espargir dúvidas disfarçadas de desejos. Camuflado pelos acontecidos, o silêncio deixou o barulho agitado, contrariado, tanto que os que foram refazendo as marés, intentando apossar-se das fantasias para beijar a lua e enlevarem os sonhos e os bardos, se esqueceram dos seus destinos e obrigações. Mal sobrara um restolho de tristeza para atender as aflições saltitantes, mas carentes.
Para contemporizar a alma, a madrugada foi se despedindo lenta carregando consigo as estrelas cansadas, mas ombreando seus desejos, sois e consternações.  
Ceflorence      19/09/18          email     cflorence.amabrasil@uol.com.br

segunda-feira, 24 de setembro de 2018


ARATACAS E MEANDROS.
Abriu tiro tanto de não sustentar lugar desperigoso. Acudei-me senhor, gritei nos sovados, mas desprocedeu. Des-houve de haver um desvolteio sem aprumos ou desfecho, pois arribou tristeza pelos desempertigados das solidões e restiou só os andamentos sem explicados devidos nas manobras. Anotei nas providências o que deu para atentar das partes entrevadas nos arreliados das diferenças e das brigas, bala azucrinando minhas metodologias de reportador nas falas que digo agora para salvar o que alembro. E assim mesmo se deu o que por porfiados arremedos agora nas palavras repico embasbacado no pavor dos tiros e reproduzo nos instintivos o que presumi das salvas relembradas, desfazendo por riba o que não vi direito e não escutei de longe. Me confundi nas manobras de escapar das aratacas armadas, mas com o medo que me carcomia afundado nas desimportâncias não consegui desmerecer, mas sobrevivi eu entramado com os arremates dos pontuados. E bala comia pelas estrituras das restingas e pelas sobrevalências dos arrepios. Deus me acuda, aparvado de medo estarreciei. Adismerecia até cismas de porventuras desarribadas, se os bandidos viriam das canhotas das quebradas mais escondidas entre as piçarras ruins das naturezas bravas ou pelas pedras das trilhas des-abençoadas de intrincadas, por onde a catinga ajudava as tramoias dos pestes esconderem suas malvadezas.
Os cachorros latiram assombrados nos lamentos para avisarem que as ressalvas estavam sendo retomadas por quem procedia nas desforras. Eram os ultimatos para cada um: fugidias formas ou as mortes matadas. Se dariam se os aperregos não fossem acarenciados nos imediatos e nos prontos. A polícia desapareceu nos motes dos medos e só se puseram os bandos transversos de opiniões contrárias, de quem carecia, por profissão de matador, e se fez que na verdade, ou assumiria os riscos de desalmar matado ou se desarvoraria vivente atirando até quando a sorte não melasse.
Se fez no desafogo, atestemunhe parceiro o que falo, e nem despenitenciou ninguém antes das assombrações mascando ódios e fungando despautérios se acalorassem nas manobras dos tiroteios e das saraivadas amedonhadas. Os aforados nos intentos de invadir foram cercando pelos lados mais descobertos e acharam que as vazas estavam desmerecidas de provimentos, com gentes assimesmadas, indecentemente desprovidas nas incapacidades de se defenderem e chamuscaram lamparinas acesas nas embocaduras para escorvarem de sapecados quem des-procedesse de ficar mambando quedado. Artimanha negada, pois os desconformados das atitudes desmereceram as medidas mesmando silêncios por trás das venturas e não só apagaram os querosenes como devolveram em saraivadas periódicas de balas estremadas e certeiras nos retrancados desarvorados. Sucedaneamente ocorreu certo.
            Os mais afoitados preferiram se intinerar pelos socavãos das nuances indestinadas. Eu, porfiado no indefinido, me desfiz destransmitido, pois apavorado dos sucedidos, sai regurgitando os verbos e as certezas para contar enrodilhado agorinha os procedidos. Aperreei nos medos, mas sobrevali com vida das desafeitas feias.
Ceflorence      04/09/18        email      cflorence.amabrasil@uol.com.br               

quarta-feira, 19 de setembro de 2018


BOEMIA, CAPOEIRA, SARAPATEL E OUTRAS DESAVENÇAS
                         O luminoso da Pensão Nossa Senhora das Boas Dádivas acabara de ser desmerecido. Ali, senhora respeitada de seus destinos e decisões, cafetina Merinha, pontual, desamuada, sem impertinências, ajoelhou-se respeitosa aos pés da Madalena Santa, protetora das moças carinhosas, agradeceu à vida tranquila que mais uma noite lhe dera. Cadinho, molambo em figura, amenizava as solidões nos limites dos seus tracejados aonde se enroscava aos pés da Catedral para beijar a melancolia.
                        O sino cadenciou mais uma agonia. Eram as meias horas entre várias solidões. A Praça da Matriz acolhia um resto de puta fumando, remoendo penúrias, bebendo esperanças e angústias. Dois cafetões, Cabedeu da Quinha e Ritílio Bocadura, o mais atrevido capoeirista, o outro municiado de navalha, que administravam sintonias das proteções às moças, discutiam dosagens de maconha com o traficante Giradinho Doponto. As malícias se desacomodavam entre o preço da erva e os coitos barganhados.
                        Um carro de polícia desconhecido, diferente dos normais guardas que exploravam todas as madrugadas o entorno da matriz, as meretrizes, traficantes, cafetões, capoeiristas, para colherem seus subornos, coitos ou drogas, parou para averiguar o que poderia usufruir. Ensaiaram os estranhos policiais as agressões e petulâncias de rotina, pedindo referências, documentos, motivos para o catador abandonado, conversando com seus aléns, protegido nos escuros das paredes das torres, ouvindo os embalos dos sinos.
                        Cadinho levantou os braços, silenciou, deixou de lado os desaforos menores, engoliu os maiores. Os guardas viram que não haveria dinheiro, maconha, interesses para serem extorquidos. Chutaram o cachorro, espantaram os pombos, cuspiram e pisaram em cima do Cigano Simião desencarnado há mais de século, por não aprenderem a vê-lo em alma ao lado do amigo Cadinho. Riscaram os pés com seus coturnos sórdidos sobre os silêncios, anotaram no bloco inútil as ocorrências, ligaram a sirene e foram des-apasiguar outros meandros.
                        Cadinho, desfeitou nos recalques e nas contrafeitas de analfabeto e retirante. Descobriu que não aprendera a chorar. Palmilhou um rasgo fundo, pois não sabia como des-sonhar seus pesadelos, para desviver nos desaforos.

Ceflorence       10/09/18    email         cflorence.amabrasl@uol.com.br