terça-feira, 22 de março de 2016

CHUVAS RUAS RASTROS CÃES

            Por razões dos fortuitos, embora trazendo sabores à vida pelas melhores interjeições dos sensos, e só, pois quem debruçasse desatencioso sobre as nuvens salpicadas de azuis, brincando de dúvidas antes de se definirem chuva ou se deixarem ventar, poderia se amofinar. Longas longínquas, mimosas nas diabruras ingênuas de salta-mula brincando e rindo, enevoando nubilosas nuvens fugindo, via-as sem por que Alita. Penduraram-se nos entremeios dos azuis, em danças figuradas, rabiscando desenhos imaginosos de decomposições constantes, foram, voltaram, exibiram-se como só as nuvens sabem anuviar. Jogaram indefinidas, teimosas por serventia e distração, jamais por obediência.  
Foi deste modo, pois futuro só é depois, quando não se quer mais dele senão uns restolhos dos restos desesperançados. Alita nem se interrogava ou afirmava, deixava o desatino correr ajustado no ziguezague do cachorro farejando dúvidas, mordiscando pedaços do enquanto dela no pretérito, no agora e no talvez.  Saltitava pelos cantos indefinidos, sabiá doce de canto triste, corridinha curta, ligeiro no cato dos lambiscos, sem propósito de encerrar devaneio. Fugia passarinho do caminhando de Alita amiudado nos compassos do cachorro interrogativo nos propósitos e manobras caninas de perseguir o indeciso. Ainda podendo, estima Alita vendo instinto animal, no faro, ajustar acordos, acertos, indecisões, focinhando as árvores, fungando os postes ou rosnando duvidoso, para a vida se fazer inacabada e justa.  Não sabia Anita, àquela altura, se conversava consigo ou com o animal, pachorrento de titubeio, cheirando o insolúvel, enquanto ela garimpava fantasias. Perder-se em voltas e andarilhadas cainhas, entre inusitados, era paixão e devaneio e, pelo então, Alita assunta o nada, morde a brisa, espera a probabilidade.
Passava Alita o passado do seu passado, o passado das alegrias ou os passados das interrogações. Andarilhava ligeira, Alita, do presente, canino tortuoso absorto, farejadas urinas, transmudava sem ciência ao futuro incerto. Desenrolava sonhos paridos das moegas das fantasias próprias. Pensamentos vacilam nos entremeios, sempre, de Alita carreando cachorro a esmo, pelas incoerências de ambos. Fim de tarde palmilhava nostalgia por onde o poente fugia nos propósitos de anoitecer.  Não intuía porque, pelos correres das alamedas e ruas dos assobradados, entremeando os furta-cores vários das paredes surdas, que não mentem, saltitava Alita sobre saudades e indecisões. Jamais garimpara ela porque os muros guardam tão sábios e sinceros as confidências que trazem melancolias? Escorria um branco, amoroso e terno, da casa escalavrada pelo tempo e salpicada de angústia, outrora de Delquinho.
 Nos remorsos, melhor, nos retidos da infância, na escola e nas fantasias, se deram os dois aos luxos idiotas, pueris, de se envergonharem ao lerem nas ânsias, nas intimidades e nos olhares disfarçados e fugidios o que sabiam, sem quererem saber. Criança aprende a mentir primeiro para si, depois para os necessários, memorou Alita. O branco dos reboques velhos subia escondido pela saudade, enrolada numa réstia sutil da melancolia, amarrada ao pé da primavera vermelha recuperando o passado para inebriar o presente. Delquinho sumiu. Cachorro farejou fundo as fantasias idas e sidas de Alita, enquanto segurava firme o tronco da primavera para desaguar sereno as realidades diuréticas mornas.
A chuva avisou, choveria contraste pelo solfejo da corruíra, tão logo o poente se ornasse vermelho. As paredes se vestiram de memórias. Alita derramou tristeza, lágrima única. O cachorro urinou solidão. Os telhados chamaram as nuvens. O dia acarinhou a noite. As paredes acompanharam as fantasias, o cão, a melancolia, as memórias e Alita arrastando os idos.    
Ceflorence   06/03/16          email  cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 10 de março de 2016

BUTIM DAS UTOPIAS.
A afetuosa companheira do sociável léscio, Esfrétkio, a elegante e impecável vílkia, Novekia, na natural pujança da beleza invejável, chegou em seu sofisticado argumento, um fluente contraditório, último tipo. Satisfeita estava com a réplica adquirida da Confraria dos Advogados de Defesa Religiosa de Ciências Politicas e Econômicas, escolhida cuidadosamente para interagir com os inexplicáveis terrenos e celestiais. Sob estes alucinatórios, deixaria o caçula, três anos e meio, internado na Academia Superior da Coerência do Absurdo, para concluir a tese de mestrado indicada ao seu perfil psicossocial. Apaixonado pela influência do carismático Visionário Inácio sobre a gravidade equacionada por Newton, interagindo sobre os ventos aleatórios e impondo fortes traços nas inter-relações dos radicalismos fundamentalistas existenciais. Partia ele para realizar seus objetivos de conclusão de tese.
Beijou, Novékia, carinhosamente o infante, querido léscio Junior, intuindo que doravante as nuvens dos incertos assumiriam os destinos do recém-matriculado, marcando-o, provavelmente, com o absolutismo intransigente, sabores medievais da inquisição e atuais do nazismo e do estalinismo. Como boa matriarca vílkia, afetuosa, idealizava que o filho interagisse diferente, livre e descontraído, na simbiose e dialética harmonia do sim com o não, do efêmero com o infinito, do amor com o ódio e deixasse adequar a insofismável beleza dos sonhos com a plasticidade da existência. Só o tempo responderia. O impalpável é mais cruel e o abstrato ficou suspenso pelo futuro incógnito. Junior se absteve dos anseios maternais, mergulhou no infinito do Visionário Inácio, que fizera história com a têmpera dos eleitos, alcançadas só pelos obstinados.  Junior garimpou, nos inexplicáveis, que o destino, único que sabe das injunções dos astros, entupiu o Visionário desde o nascedouro com ervinha cascuda, perigosa, brotada na solidão, para poetas e predestinados; o carisma.



Poucos devem mastigar da alucinógena planta, traiçoeira venenosa, encarnada em sina e soberba, se abusada. De início, Inácio, vacinado foi do carisma paradoxal. Pode andar então sobre as águas, não deixando pedra, trilha, luta sem palmilhar. Arremedou-se um David estremecendo Golias, vários, submetendo-os em tempos justos. Do sal amargo, pobre, mas tenaz, rastejou sobre disputas, Inácio carismático, reencarnando-se já no nordeste árido em um Antônio Conselheiro sebastianista, para salvar o infinito. Junior garimpou: o Visionário cavoucara nos intrincados alfarrábios da pureza, da liderança e da fé para soerguer e carregar as bandeiras da justiça social e distribuição de renda. Os calvários foram clamando devotos obcecados no carisma. Mas aos pés dos fanáticos uivavam, como sempre nestas andanças, os alcoviteiros do vidente, uma matilha de canalhas antecipando o pasto gordo das falcatruas. Os deuses do bem e do mal disputaram suas diversas almas nas lutas, vitórias ou frustrações, mas, acima de tudo, persistência. Das inglórias arranca, pragmático, o sucesso; vidente visa. 
E o fim? O fim, a bacanal ferveu. Remate arremata; calhordas, ladrões comparsas venceram e mancomunados com arrivistas de última hora, de todos os matizes, classes sociais e níveis econômicos, rapinam o que encontram. O butim se instaura eufórico. Os deuses da canalha bailam a céu aberto enquanto o navio vai a pique, sem remédio, sem rumo, sem timoneiro. Os ratos, antigos privilegiados, assistem engradados às tragédias de todos e das suas.  
Os fanáticos sinceros se frustram, fogem em lágrimas. Pequena chusma de dementes retardados assume o encerramento do nada, na base da gandaia e da agressão. Falsos intelectuais falseiam a farsa à farta.  Junior zera a sua decepção e registra, simplesmente: o butim das utopias surrupiou as esperanças e a safadeza devorou o carisma.    
Ceflorence     28/02/16       e-mail  cflorence.amabrasil@uol.com.br

sexta-feira, 4 de março de 2016

ORQUÍDEAS
            Não sei se veio do inconsciente, mais enfurnado, ou do deserto, árido, a mim alheio, mas chegou certa e pontual a única corrosão que esgarça a alma para rever-se, o tempo. Os fatos foram devolvidos um a um, como migalhas desleixadas esquecidas aos pássaros, que imitam as esperanças ao voarem para se perder em inexplicáveis. No entremeio, as saudades tresandavam borboletas fugidias ou, melhor, fantasias brincando de tristeza. Retornei assim ao nada, passo a passo, com a mesma tranquilidade e segurança com que a hipocrisia pare o remorso. Suponho: tais pipas vistosas, vaidosas, soerguendo o vento para exibirem-se mais do alto. Só a solidão sabe garimpar estes indefinidos, devaneios estilhaçados, com certa destreza carente, para separar, na bateia da vida, a angústia dilacerada dos sonhos, que não nasceram, daqueles que gostariam de ser sonhados. Na falta de talvez, fui-me esfarpando envolto em silêncio, antes de propor vomitar os anseios largados sobre a existência. O tempo remoeu-me sem perdão.
Distrai-me com o azul que se despedia para brincar de noite. Sobre a janela do alpendre acompanhei, obcecado, com ternura, uma réstia de formigas. Acreditei no convencional: as formigas nascem, vivem e, dizem, seguem impávidas, indiferentes até a morte, inconscientes dos seus destinos pobres e das sandices de não conseguirem sequer sofrer. Pior, é textualizado, não sentem faltas. Alienadas? Minha ternura galopa suave para a inveja seguindo a fila indiana até o ponto em que elas se recolhiam esprimidas entre um batente podre da janela e o reboque esgarçado. Socorri-me de seus destinos, pobres de formigas miúdas, alienadas, atraídas fervorosas aos batentes podres, e transmudei o paralelo da fileira para o meu imaginário visionário, talvez idiota.
Se conquistasse abnegado escarafunchar pelos meandros da minha angústia, escalavrando enfileirado o que teria nas entranhas obsessivas e confusas das alucinações, como se fosse formiga despretensiosa, os fantasmas inconscientes bailariam sob minha regência e os medos fugiriam apavorados pelos escaninhos da liberdade. A consciência é cruel e não perdoa a credulidade: uma paranoia petulante mordiscou-me os devaneios, com a impunidade do concreto. Ao tentar assegurar-me que não enlouquecera, procurava distinguir se o som que me angustiava seria o horizonte, atraindo-me para cobiçar a tranquilidade com que ele abraçava o ocaso ou se os cachorros do vizinho estariam amofinados pelo gato rajado esgueirando-se soberbo pelos telhados toscos do destino. Sem solução, optei confundir-me em uns emaranhados pessoais, ansiosos e malcriados.  Não sei por que me debruço sobre estes idos, sidos, vividos, intransigentes sempre, hipócritas às vezes? Esta a razão de não acalantar mais o azul de antigamente a que tive direito, sem ter carência. Mas quando careci, careceu. Se houvesse solução mastigaria alegria, desprezaria melancolia e não acariciaria mais a expectativa. Um beija-flor se fez sorriso e pousou sobre a fortuna. Longe das minhas esperanças.
Os dias se foram com a indiferença com que as saudades castigam os fins. Conformar-me-ia? O passado convidou-me para rever as tristezas, a sós. Abrimos meia garrafa de vinho, duas melancolias e um acerto de contas. Trouxe consigo, não esqueço e nem poderia, a última lágrima miúda, escondida, antes de não cair, tremulando entre a ansiedade e a esperança que Lédia carregaria para o jamais. Assim, penduramos um por que no incerto. Não éramos mais, desventurados sucumbimos em fomos.
Acabrunhado restei, parvo, sem definir se a orquídea, sobre a mesa, viera sozinha, se Lédia trouxera ou eu a imaginara. Mas o desespero é que a orquídea se impregnou de passado para me assombrar no presente.
Ceflorence   20/02/16        email   cfloence.amabrasil@uol.com.br 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

JARATATACA DO CAFUNDÓ.

Nas solas da mangabeira, por onde a solidão se esgueirava atrevida, deixando o vento do Sertãozinho insistir em acordar flores, agarradas dengosas nos galhos da árvore, bailando-as na ventura de se fazerem beijadas, o mundo espreguiçava antes de decidir estrada. Assim se fabricavam os sonhos, no indiferente, no tanto fazia a banda, de Canhado Justo, na tropelia de arrenegar só depois quando o carecer viesse. “Atropelar, só providência vindo”, muxoxou ele. Dava, deu vista Canhado, manhoso de aprumar, a garantia pra começar chover primeiro, certo, antes de decisão e aprontou-se pelo tanto de esperar, então, e nem arrear potro ainda, casqueando passarinheiro no curralzinho pedregoso.
Atinou sentar na taipa, pitar, fingido de tristeza, por hábito nem de outra desforra ou regalia de querer, e assistir o gangrenado grosso das nuvens bravas lá na serra. Diziam os coriscos as verdades, sem dúvidas, das águas descerem pelo afora, carregando destravadas as tropelias ou os benfazejos. Chuva é deste mote, assuntou Canhedo, nas as vezes ajuda, nas as outras falha, nas quem sabe atrapalha, mas nas sempre carece. Não renegou resistência de emplastar serviço, pitando desaforo de moleza, com a bezerrada apartada, já no mangueirão, a vacada no gordura farto, que garantia leite grosso do queijo, porco tratado, roncando curto, por hábito, mulher rindo atoa, criançada brincando. Enrolou-se na fumaça do cigarro, pigarreou pra dar um tranco no pensamento, agraciou na anca sustância-da da mulher carnuda, imaginou no-só-os-dois, só-no-depois, só-no-fim-do-dia. Era quando o carinho acalantaria o despropósito e cismou que não deveria resmungar. Olhou o céu e Deus, que mandava toró crescendo as roças, verdeando os pastos, enchendo os córregos, piscou um olho matreiro e mandão no Canhado, cativo de boas interferências divinas, na ordenança de saírem a caçar paquinha gorda, que desaforava, manhosa, há muitos, de sumir na horinha do finalmente.
A chuva ouviu o destino e preferiu ir desaguar o sobrado das carregadas na Cachoeira dos Amargos, onde as seriemas clamavam tristes, pelos cantos mais espichados, no poeirão, até de rodamoinho, da terra seca. O destino ouviu a providência e atendeu as seriemas para desfazer presteza de água na hora certa do lugar. O potro resfolegava passarinheiro, afagado por Canhado apertando a barrigueira nos conformes, como mandam os corretos de quem sabe costurar o tempo.
Canhado abre a tranqueira do serradinho, a que palmeia para o Pico da Forquilha, lado da tocaia, sem rumo definido, da paca manhosa e manda Rosinha soltar os perdigueiros. Cachorro na labuta ardilosa rastreja sisudo, late mudo, ouve o faro da destreza e deixa, por seguro, a sorte andar na frente. Se fez. Cachorros, destros três por demasia, contornaram a pedra torta, cismando de ziguezagueados em roda das dúvidas, antes de acharem o entroncamento do talvez com a porventura, no faro, onde, certeza, começava trilha correta. O sol interessou pela briga, escondido na capoeira rala e nem não atrapalhou o acaso, dali.
Deus, que havia piscado pro Canhado e não toma partido nos assuntos das caças, olhou no futuro da onisciência e viu a paquinha absorvida com uns diletantismos zoológicos, sem fundamentos dos riscos que corriam grandes. A trilha assobiou os cachorros. O Senhor chamou o destino, que campeou na beira dos-por-acasos uma jaratataca catinguda de arrepiar e a assoprou no rastro da paca. Perdigueiro no cheiro da maritafede uiva tristeza, a paca assunta, o sol recolhe, Deus dá por empatada a sanha. Canhado sorri, na horinha ele iria, no proposito, errar.
Muito melhor seria, mesmo como no foi, no retorno, no entorno, no sorriso, no afago, no abraço, no chamego, no amanhã, na Rosinha.       
Ceflorence   14/02/16            email      cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

ASSUNHÃÉ DOS PERDÕES.

Ticotinha dos Prevejos encarnou de despicar fumo, meloso, que Chirbito, Expedito Torca, marido que lhe imputaram na beirança de treze, em sendo virgem, de óbvio, ainda desmenstruada, trouxera da venda com mais despesas carecidas. Portava marido, com fumo vindo, um alçapão desservido, por sido justiça-mente cativo e matado, com requinte de desforra, pelo Quepardo da Bodega, o gambá comedor de cria. Na garupa pendurou, ademais, Chirbito, um galo índio, cegado de rinha, banda destra, embora modestamente impetuoso ainda, às vezes, de galinhagem.
O fumo, do melhor, vindo, no traquejo para, de longe, em Assunhãé por toda sentir perfume por quem das redondezas sabia que Ticotinha se empolgava em benções, rezas e advinhanças, mas só sempre que encarapitava na taipa do fogão, pitando amuada. Os proventos, nisto, das beatitudes, desciam ciosos depois que acendia o pito esfumado, na captura de cumprir ajuda das coisas sem solução dos convencionais conformes, como os dos desenganados dos médicos, dos curas ou dos Oguns. A primeira das professadas inexplicáveis, foi em um cavalo campolina, criação de querência muita de Ticotinha, que padrasto barganhara por novilhada girada e surgiu de garrotilho, no imprevisto. Vai não vai, surpresa, terceiro dia, suposição, medrosa, a morte agourando sina, no vazio, e Ticotinha, de nove, sem completos, anos, montou potro em pelo e descabrestado de mando. Hora cismada, anoitando, curiango, pois, voava mesmo curto, olhudo, pio cavo, do moirão da porteira velha.
Era. No que foi, derramaram os dois, ambos, sem nem gargarejo de quebrar silêncio mais, só o carecido, para o lado da Cachoeirinha da Embira. O animal, manso de receber atentos, precisos, dos bem mandados procedentes dos aléns e desarrazoado de sentido. Ticotinha, com a incerteza da certeza confiada, bem como só os confins ajustados prosperam. Pela noite fria, céu limpo, geada capenga de certa cair, durante mais de meia hora ficaram campolina e Ticotinha na solidão do nada, gelados, recebendo água das pedras da Embira, cachoeirinha, até a lua pedir vaza de sumiço, melindres de luas, e esconder-se atrás dos silêncios. Com permissão da minguante ida, Ticotinha tiritando, o cavalo retrocedeu à casa, são de completo, nevoa nenhuma de garrotilho e, no mais, ainda, sem explicação dos portantos que se deram. A menina deitou apreensão, fadiga muita do cumprido, suou de molhar cama, noite toda, inteira, não comeu três dias e bateu, por riba, febrona de carecer reza de terço. “Acatou a dor do animal, ela”, disse, quem disse, sapiente das almas e dos sem motivos. À noite, voltando com o campolina, cunhou o Prevejo, quando mãezinha respaldou os porquês de razão: respondeu um só, decidido, sem soberba: “Prevejo, sarará porque”...empacou no porque, demais de suficiente então... tendo sido, pois. Era ela... era assim. Foi.
Um dia, justo de doze anos passa-dico, um cisma, Ticotinha notou, sol se bocejando, Chirbito, que aprumava quase trinta, cortar a tranqueira do riacho, num mangalarga tinhoso, e, nem bom-dia ofertado, campear só padrinho na, como sempre era, ordenha das vacas. Predisse que as coisas destrocariam. E certos se deram os atentos de Ticotinha, pois a coruja piou tristeza no oco da perobinha, pingou água da talha vazia e, do telhado seco, gotejou lágrima. Dos tratados, padrinho e Chirbito jamais contaram de contar, nunca, por ser incapaz, ela, de então. Partiu e não mais deixou Assunhãé, onde emprenhou treze vezes, nunca menstruou, pois só saia do quarto grávida ou, então, depois, na menopausa. Criou dez filhos, trinta e cinco netos e os nove bisnetos, ainda ali juntados.
Pitava raro, não mais que duas por ano, e quando era assim, sabido, de longe a fumaça agitava gente, tal varejeira zunindo vaca velha, para pedir ajuda de benção, de cura, de conselho, de caminho. Parava estafada, doentia e depois de proibida, pelo marido, de fazer-se querer morrer, senão... Naquele pito derradeiro, veio sina atada. Até no galo ou no alçapão, quem saberia saber? A Chirbito nem então causou. Mas ela leu lonjura longe. O vento catingou surdo, mal humorado, do lado do açude velho, montante de Assunhãé. Ticotinha despachou marido, filhos e netos pelos infinitos, para que os demais, infinitos, se alarmassem, mutuamente, - “a represa romperia na boca da noite”. Cada diligente seguiu bem dado rumo. Quedou, sem fuga, restada em Assunhãé, esquecida, sem atento, só quem previu prever, Ticotinha dos Prevejos. Fado, a água mesma que lavou garrotilho do campolina, sumiu, pra nunca mais, com o corpo de Ticotinha. A alma não, a alma, as maritacas alegres carregaram. Só o além sabe, agora, de onde ela atina, sempre, prever os imprevistos. Só o além!
Ceflorence 02/01/16 – e-mail cflorence.amabrasil@uol.com.br

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ONOMATOPAICO REFLEXIVO.
Para concluir que teria de me contrapor à hiena assexuada que se interessava por ecologia e se deleitava com charutos cubanos, perguntei ao prolixo reitor da estação espacial se preferível seria enredar uma sequência lógica com açúcar demerara ou usar subjetividade flambada. Esta dicotomia existencial é típica das matinés de sábado em que o chocolate é oferecido pelo coroinha estroina, que ajuda o monsenhor na preparação das cerimônias, aonde ele teria o único intuito de saborear, assim, o vinho sacro escondido. Escondido o vinho sacro, assim teria o intuito único de saborear ele as cerimônias da preparação do monsenhor a ajudar o estroina coroinha a oferecer chocolate, do sábado, afim de tornar as matinés típicas de uma dicotomia existencial. Usar flambada subjetividade ou açúcar demerara, para lógica sequencial seria preferível a que a estação espacial prolixa perguntasse ao reitor se cubanos charutos o  deleitavam e a ecologia interessava à assexuada hiena exibida que teria de contrapor-se a mim para concluir.
            E o filósofo, existencialista e fleumático, insistiu que a ordem dos fatores não alteraria o produto, embora o sorvete de macadame tenha sido oferecido sem cobertura de tanto faz. A confusão instalou-se ao ser servido o diafragma da paciente sem molho branco antes da greve, dos professores, aprovar os termos propostos pela interrogada na delação premiada e não depois das orações matinais como consolação suplementar ao zangão suicida estuprar a rainha do enxame que apresentou, publicamente, com sadismo, aquele espetáculo vexaminoso de sobrevivência da espécie.
O ônibus não estacionou no ponto correto, visto que o psiquiatra não estava autorizado a divulgar que a matéria poderia trazer especulações indevidas, se a verificação da teoria quântica sobre a imprevisibilidade do movimento das partículas subatômicas fosse vasada antes do Banco Central divulgar a taxa de rejeição do teorema de Pitágoras. Mas o estimado nos princípios dos jogos comprovou-se plausível dentro do contexto, pois havia pequena diferença, mais semântica, entre o advogado de defesa e o querubim agnóstico nos argumentos finais do julgamento por prevaricação, formação de quadrilha e adulteração do vinho, no caso do comportamento da hiena estroina e da propina do chocolate desaparecido da sacristia, com a boa vontade do monsenhor, pelo visto envolvendo o coroinha assexuado. Os dados foram dialeticamente invertidos, com base no princípio marxista do benefício do povo de fé sobre o ópio. A cerimônia foi considerada ato falho do reitor face à subjetividade do trabalho vivo e o conflito com o trabalho morto.
Com isto, os internos do sanatório pediram vistas processuais e o intervalo de dezoito anos foi suficiente para comemorar-se o centenário da proclamação da irresponsabilidade, o reconhecimento da relevância da inquisição medieval aristotélica no sabor do bacalhau e a esperança de que o erotismo em público fosse liberado aos maiores de oitenta e nove anos. No entanto, os jornais vespertinos circularam com manchetes chamando a atenção de que caberia recurso ao avião que decolou em Katmandu e desapareceu em frente ao Mar das Incógnitas. Justo, portanto, que com a sentença propalada, o ideal democrático rompesse com seus valores históricos e, como esperado, assistisse ao lançamento, pelos vegetarianos, do file de alcachofra servido no encontro do sacrifício coletivo da Frente Libertária dos Homens Bombas, que pleiteava maior disponibilidade de virgens, per capita, após os atentados bem sucedidos.
            O movimento criacionista impugnou a tese da existência pré-histórica do dinossauro, do habeas corpus e do casamento gay. Nisto, as crianças pleitearam lanche de whatsApps, cobertura de caviar e silêncio, antes de degolarem o intolerante mestre sala. Houve réplica. As fantasias foram recolhidas. A realidade, algoz que não perdoa o imaginário, devorou o último beija-flor hermafrodita. A vida passou a ser arrastada ou, pior, normal. O convencional, com a calma do ódio irresistível, estuprou a loucura saborosa que amamentava o rico devaneio, a ilusão e a utopia. 
A hiena, o monsenhor, o caviar e o dinossauro foram subjugados, autuados por fantasiosos, recolhidos, inúteis, a seus deprimentes habitats naturais: zoológico, sacristia, supermercado e museu. A objetividade paranoica devorou a beleza do desatino. Assim, então, passou a ser proibido devanear, pois a alegria e o espontâneo, sem os doidos, fenecem.
Ceflorence     26/12/15      email  cflorence.amabrasil@uol.com.br

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

DOS DISTRITÚRBIOS DE ATAMBÓ

Atambó dos Encantos foi o imprevisto da maré montante que derramou carinhosa às margens brancas das areias, borrifadas do sensual, para que os acontecidos não se arrependessem dos casos e dos acasos que se sucederam naqueles esquecidos. Capilinho da Penga expedia afeto, sem pressa e a prazo, por qualquer desacato ou sorriso de enfeitiçada pelos seus dengues e madraceados, sem remorsos ou soberbas. Quem campeasse em Atambó o encontraria, no mais das vezes, perto do Atacado do Repasto da Ema ou na Rua da Miúda, estreita, torta, suja e sem vaza ou no preparo de esconder-se na boca do Morro da Fumaça. Tudo junto ao mercado velho aonde a vida se fazia e a morte visitava amiúde nas vinganças prometidas e aprazadas.
Lá, nas horas vadias de Capelinho, em que não jogava capoeira no Remanso dos Esfolados ou não se ocupava, profissional, nas maranhas do baralho na Praça do Bem-te-Vi, as manobras não davam sossego. Tinha dele sempre que sobrar qualquer para desafinar o Moenga, mau caráter do cabo da fardada, que não lhe podia escutar o nome, sem chegar, silenciado de calhorda, para morder um tanto, por conta do que ele nem fizera. Fugia Capelinho, sempre, dos mandatos do juizado para despistar algum atazano de emprenhada para o sustento do bem nascido, que empolgava de ter a sua cara, e era de direito dela demandar, por assim ser cumprido. E nem por isto o sol deixava de nascer. Dos sacramentos, se respeita pelo precavido e Capelinho tinha por bom juízo não roer desaforo, não ouvir lengalenga e ficar longe de soldado, gravidez e cura.   
             Na Congada de Reis, entestou Capelinho de galgar a Ladeira dos Afogados e cumprir carência de benção com Mãezinha do Acaré. Mãezinha, dadivosa, estava sempre de bem mandada dos aléns e carecida de Oxum-Abalô para as orações de transe no terreiro dela no Abatopungá do Alto. À noite, subindo, Capelinho assobiava ostensivo de bem servido, só em alegria, vendo a lua brincar de ladra, dissimulando as estrelas do lado do mangue, que o mar beijava manso. Os cachorros uivavam pedindo a Jaci crescente que não se escondesse, pois os deuses já desceriam prestimosos tão logo os atabaques castigados nos coros curtidos, clamando à Mãezinha rogar às almas que, em graça, encarnassem os puros para os confins purgarem. “Que Iansã, companheira de Xangô, e que destina os ventos e as tempestades, nos acaricie em tempo” – reconfortou-se Capelinho, na solidão do destino, em busca do aconchego farto de Mãezinha, morro acima, ensimesmado de fé, a-tendo. 
             O terreiro foi se forrando de humildade e crença. O pescoço da lua esticou a curiosidade para o olhar fartar. Os atabaques e os canzás invadiam pelas entranhas os anseios dos carentes enquanto as filhas e os filhos de Iansã despiam angústias para o reconforto dos passes. Os espíritos rolavam doces pelos telhados, pelas paredes e pelos incertos, no só aguardar Mãezinha ordenar as escolhas dos pares. Tudo inebriava: o batuque, a magia, o calor, o sensual, o excêntrico. Mãezinha deixou Ogum deflorá-la em transe para esplendor do divino e regozijo dos vivos clamando incubação dos mortos. O irracional pungente expurga o racional inútil. O céuterra une-se como antes da criação fosse,... e, em sendo, era.
            Capilinho rodopia nos magnetismos do inconsciente invadido, devaneando atração pela alma de Livinha encarnada na beleza sensual da desconhecida. As solidões, ambas, atiram-se às esperanças. Mãezinha acarinha, na direita, no tom grave de Abalô, Livinha do Pontal, cafetina de fina flor, que enfeita a própria casa, conhecida na Rua da Alfandega, com o capricho da escolha das rosas moças que se desmancham em êxtases aos carentes do afeto fiduciário barganhado. Do outro lado, Mãezinha aconchega, no regaço quente, Capilinho enfeitiçado do olhar de Livinha. O mundo azulou só do porvir se sendo e Mãezinha garante que as almas dos dois retornaram, ali, depois de muitos destinos e desafetos de vidas passadas, sofridas,  sem rumo, para o sempre se enfeitiçarem.
            Pelos dois, amor, três dias, mal dera para aquecer: o sol dobrou noite. No quarto dia, Livinha, agarrou Capilinho no detalhe do sofisticado e enlojou-o na soberba. Enfurnou, contínuo, em um dos salões da casa das donzelas, roleta viciada e bacará esperto para prosperarem nas maranhas mãos do capoeira. O casal, pelo fomento do social financista, passou a frequentar, enfatuado, missa de domingo, na Matriz e, pela fé e carinho, nas sextas, o terreiro de candomblé, no Acaré, de Mãezinha. Oguniê.
Ceflorence      27/12/15    email    cflorence.amabrasil@uol.com.br