segunda-feira, 29 de julho de 2019


CONTO DE MEMÓRIAS BOAZINHAS E UM ALENTO GORDO
            E por assim como se deveriam bem tecer os desejos, sem duvida, desejo, a maior ganância pedida aos aléns, repetiram se igualados os embalos dos cantos rimados para contar as estórias da menina meiga, Acaué Cangutá, nativa índia mimosa das nascentes do Cantiaparó Açu. O vento então parou para ouvir o aroma macio e peralta dos sons adocicados em fá maior das primeiras estrelas espreguiçando vadias por trás das nuvens escorregando pelas brisas que Obolum Oró lançara ao acaso para criar melhor o mundo das coisas, dos espíritos, dos homens. E os imprevistos se deram desde então dos começos até o brotar do cair da noite depois que o pai carregou carinhoso a filha para os embalos de agarrar-se no sono em rede de cipó atada, de um lado, no silêncio e, do outro, na solidão, como tão bem se davam as coisas no canto fundo e quieto da oca grande. Ali até o tempo era vadio escorrendo entre os segredos da mata fora, escura, onde moravam os medos, bichos bravos, as dúvidas e se deu da menina a procurar suas melancolias de criança nas veias da preguiça para chamar os sonhos. Sorriu para si mesma no destino de encontrar, sempre como eram tão iguais as suas noites, noites a se fazerem a ela nos gingados dos devaneios esquisitos, saboreando seus desejos camuflados, cuidadosamente, sob o rolo aconchegante de paina, com que a avó nhãmbiquara lhe ensinará a devanear, bem devagar. E se punha a menina a colher nas confusões das suas imaginações travessas, tropicando na algazarra muito grande da escuridão apagada nos buracos fundos do céu imenso, onde os deuses cozinhavam as ideias esquisitas para mandá-las embrulhadas em pensamentos irrequietos durante as noites para as cabeças criadeiras das gentes pequenas dos fundos das florestas como Acaué.
O primeiro desejo serelepe a sair do emaranhado macio das painas da avozinha Acaué Tiroga, puxando consigo os demais pedaços compridos das fantasias a cata dos olhos alegres da menina, não era ninguém menos do que o Kauiãm, sua maritaca dourada. A maritaca entrava pelo imaginário no sumir do sol, justo com a brisa da noite, no cair do sereno e do sono. Bolinava a avezinha atrevida o silêncio, escondia o medo, subia pela ternura, mordiscava as cócegas das dobras das orelhas para deixar ouvir até muito longe o canto inteiro do barulho da solidão para os animais amansarem. Durante o dia a maritaca era verde, despia o dourado, subia pelos galhos, jamais pelas orelhas e se fazia muda e gritadeira, enquanto a mãe raspava a mandioca, o pai caçava e a avó ensinava a Acaué as tramas das ervas boas para colher, quebrar as ruins para morrerem, trilhar os caminhos das imaginações, escutar a marola do rio antes dele dobrar abaixo depois da curva onde se escondiam os perigos. E assim se punha ela a aprender a ver no fundão das lonjuras o grito triste do Boitatá, ouvir a beleza de Iemanjá, sentir o resfolegar do Caipora, respeitar os ruídos dos receios, os sinais dos coriscos trovoados e, como bem ensinava a avó querida, os rastros dos caminhos da seriedade para virar mulher lá na frente, quando, no talvez, fosse ela adulta e chata.
A passarinha dourada de Acaué, na sua noite de rede calada, desmilinguida em solfejos irrequietos e moleques, se punha sempre a brincar de sumiço e feitiço, antes de escapulir da magia que as painas e as ideias escondiam. Dava somente as vistas Kaiuãm desenrolando dos tortuosos meandros dos azuis das confusões pensadas da menina encantada nos seus mundos de sabores fantásticos maturados nos aléns.  Nisto, Acaué, nos torvelinhos da maritaca atrevida, sumida, se agitava irrequieta, choramingava baixinho para o seu coração só, na cisma, e no embalar da manha de chamar as preguiças enroscadas para agadanhar o sono e não acordar as reprimendas ranzinzas dos adultos zanzando. Sabia que em não vindo a avezinha fugidia das fantasias, não se abririam os entremeados dos desfiles gostosos balanceando as fascinações dos desejos outros aconchegando afetivos para conseguir ela tecer piscando, mole-mole, os embalos do sono teimoso, com afago nas painas fofas e a imensidão sem fim da solidão do escuro.
            Dos receios e das trevas, só depois de Kauiãn Dourada se apresentar formosa, rompendo em garbo, nos seus gingados de maritaca, pelo assovio calmo da brisa mascando as palmeiras caladas, trazendo o prazer do balanço ritmado na rede da menina ouvindo o grilo Saboinha trinando bem longe, lá no fundo do ermo vazio, de onde o infinito, cabisbaixado, se preparava para voltar e buscar a saudade, que se atrasara por teimosia. Os demais desejos iriam se aconchegando. Assim, também, o desejo amigo do sapo gordo de ancas largas, sorriso aberto, afeto amplo, gestos prudentes, voz pontuada e inteligente, contava a mesma estória de sempre. Estória dela menina, nhãmbiquara, que voava sobre as águas agitadas das corredeiras do Rio Cantiaparó Açu, desviando das árvores grandes, cortando a neblina da madrugada, escondendo-se entre as pedras altas. Ela, no correr das fantasias, cantando do alto para as flores se oferecerem abertas aos colibris ligeiros. Se davam as rimas no tempo certo do seu sono despencando vagaroso das estrelas, rompendo cuidadoso pelos trançados dos sapés dos forros, acomodando aconchegante entre os cipós e embiras das amarras. Assim era por se dar, nos abeirados das margens brancas das areias fofas do rio bonito de tão perigoso, onde as garças, paturis, os socós, jaçanãs, os guarás se espreguiçavam antes das cataduras dos peixes agitados. E ali a menina Acaué se esparramava, descida alegre dos voos libertos, se acomodava no balanço do devaneio tranquilo da piroga azul rompendo as fascinações das aguadas campeando no cicio da cigarra esperando a lua despontar para derrubar, mansa, os cachos de sonho que colhia sempre nas rodilhas de melancolia escondidas nos firmamentos.
            Como sempre se dava desobediente, atrapalhado e irrequieto, foi adentrando pelos olhos piscando para encontrar seus caminhos, o sonho faceiro como as painas macias dos enrolados da avó e suave como aconchego. Trazia atado, o devaneio preguiçoso, todos os desejos irrequietos, alvoroçados, confusos, da menina. Despontava a imaginação pelo beiral de um correr de alegrias floridas, acompanhando a mariposa agitada, azul, cirandando entre os dentes compridos da jaguatirica lambendo o filhote recém-nascido, procurando já, afoito, os mamilos entumecidos da mãe parida. Também, sobre a vontade da índia criança mastigar um sapoti maduro, o sonho do desejo deixava galopar o macho atrás da gazela sumindo entre as nuvens dos espigões e levando nas costas bonitas as cantorias e algazarras das araras alvoroçadas rumo ao destino desconhecido de Obolum Oro, criador e protetor dos insondáveis.
O murmúrio chegou calado para fechar, carinhoso, os olhos, por uma noite inteira, de Acaué, que deixou a mão direita continuar ensinando às painas os caminhos dos desejos e a esquerda levou o dedo mais gordo para se esconder medroso na boca pequena, dos dentes brancos, da menina sempre. A rede ressonou silêncio e pediu à noite carinho.

Ceflorence   29/07/19        email   cflorence.amabrasil@uol.com.br

quarta-feira, 10 de julho de 2019


OUTRORA– SOLIDÃO – DESCAMINHOS

                 Por ser todo só outono, como os deuses preferem, em rubro e afeto, até o próprio poente afinado em lá sustenido não saberia como os sonhos se quedariam suaves aguardando o orvalho se desmanchar em motivos sóbrios. Os pequenos descaminhos enfeitaram-se de melancolia, embora as parábolas e os desejos fossem justificados. No contexto caberia a pergunta impertinente, mas coerente, se a lógica da razão poderia ter sido recebida entre uma desavença inútil e assexuada ou seria oportunismo do desvario? Estas questões eternas prepararam sempre as orgias e os cantos das calindas e dos odeneus. As coisas simples não carecem de respostas ou explicações para a alegria dos despautérios saudáveis poder se perder para sempre no inexplicável ou, por osmose, desfazer-se em métricas, quando não brota alvissareira meticulosamente garimpada entre melindres imaturos, colibris mágicos e dúvidas metafísicas. Por atavismo, é questão pura de pragmatismo e método, tanto assim que a vida se deu do nada, por mero susto ou descuido e se espargiu alvissareira imbuída de milagres sem remorsos ou provérbios. Tais versículos do testamento foram distribuídos por determinações dos odeneus sobre as angústias robustas para entusiasmar a insanidade alegre das calindas esbeltas chegando ao irracional destino. Preocupadas então com o porvir galopando para alcançar o futuro desnorteado e contraditório, não restava nada às calindas, desinibidas, abrirem nos cipoais das dúvidas às pequenas trilhas entre os prováveis e os impossíveis.
                 Confirmou-se, aos odeneus, salvo engano, que mesmo de longe e apesar dos gestos delicados, a beleza não passava de uma camélia despretensiosa, sem maiores desejos do que ser inodora e beijada pela brisa. Portanto, neste devaneio, entrelaçado somente a duas ansiedades impertinentes e uma metáfora inconsequente, o azul, que nascera da esperança fecundada pelo imponderável, se vestiu calmo de destino, desapegou sem atritos dos preconceitos e rebeldias, se dispôs despreocupado a transcender, com toda euforia que possuía, o talvez e, em sinergia com dois pintassilgos, a excitar as calindas antes das bacanais. Ai, por mais paradoxal que se apresentasse, foram exatamente as reminiscências das mitologias que se puseram a comandar o cosmos, pois os valores presentes continham insinuações de que os menestréis embalariam unicamente melodias lúdicas, externando fantasias mimosas para se derramarem pelos seios das virgens calindas. Estes caprichos delicados alimentam os caminhos dos sonhos e a libido das libélulas, dos odeneus e das calindas, para enfeitiçarem os aconchegos. 
Por ser aquele momento de extrema rebeldia, mas apropriado, os versos eram alexandrinos e os desejos sexuais aflorados para atenderem as ansiedades. Portanto, sem delongas, chegaria o momento angustiante de se oferecer em fá maior as sonatas dodecafônicas ao destino ou as gaivotas não cumpririam suas tarefas de espargirem mansos os anseios remanescentes sobre as ondas mais revoltas clamando para serem espumadas. A natureza tem estas suas exigências, conflitos e místicas inabaláveis, que só o além e o inconsciente acarinham sem explicação, mas com afeto. Poderia parecer com isto alguma incongruência, mas o contraditório pairava entre o desconhecido e a aurora deixando um sabor suave de demência descer tranquilo sobre o imponderável, pois as hipóteses mais irresponsáveis teriam de ser expostas ao acaso para quem tentasse, inutilmente, conciliar as sobras de liberdade com o amor e o desejo. Por coincidência, lembrou-se que os sonhos e delírios que o infinito roubara fora na intenção de esconder a tristeza e deixar espargir os êxtases dos afagos libertos das calindas e dos odeneus. Aos deuses não coubera nada mais do que acompanhar. 
Nestes embalos, um paradoxo intransigente aninhou-se carente à nostalgia, sem abuso, entretanto, mas deixou-se enternecer pela forma dolente como os sinos brincavam metódicos para determinarem os tempos, os nascimentos e os fins. Então, os apaixonados se desfizeram das melancolias, os pássaros se acalantaram nos remotos cantos dos encantos dos seus cantos e até ai nada de novo, salvo que o rumor da saudade suave foi enfeitiçado procurando somente esquecer os anseios e as solidões.

Ceflorence     09/07/19          e-mail  cflorence.amabrasil@uol.com.br

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019


BREJEIRA.

          E por ser de sim dos arremates, Norinha se fez no só dela, prepotentosa no indiferente dos porvires, maliciosa dos muxoxos, para fazer-se muito em brejeira dengosa e sarapintar nas vertentes do arruado, em palma de mão-maria, que nuca falha. Quem de longe arreparasse nos proventos dos credos de boniteza enluada, sabia que por ali era dia de cismar chamego.
          Como de trejeito sapeca, Norinha aprumou nas andanças de desenrolar entornos. Pois, no dito arrematado do solfejo, foi assim que empertigou sabida de trocar velha solidão de semana desbotada por acalanto de carmim, que o lábio de beija-flor não descuida de ser insinuado de longe, ainda mais com beijo doce. Apanhou sombrinha de girar sorriso e trovejou macio propositura de flertar sorriso na praça alongada da vila.
          Se domingo adivinhasse os proventos o sol não amanhecia e o vento que embala do Sertãozinho não trazia chuvisco. Mas, segundo Raimundo do Donato, a codorninha pia no campo das gabirovas para acomodar companhia. Neste então a missa acabando vai soletrando gente pelas calçadas para falar mal de alguma coisa. Dedorengo apruma para a primeira cachaça que no domingo é mais antes. No tropeço empertiga o chapéu de fazer respeito e chamusca Norinha no distúrbio. O retorno é complacente das esperanças. Mais dois rabos de galo e a coragem aumenta.
          No transviado dos requebros, Norinha apruma para o lado do coreto aonde Roninho brinca na flauta de fazer seresta com os demais da banda. O sol sobe, o calor cresce, os trejeitos atiçam, a decisão espera. Norinha circula a dúvida sob a sombrinha faceira. Mastiga o nada. Insinua o destino e da flauta flanam borboletas que brincam de talvez. A pinga atreve, o cigarro enfeita, Norinha assanha na disputa perto. Roninho enfeza e Dedorengo jinga, O birimbau entoa, a capoeira marca, a rasteira dança. A negaça pede benção de chinela e a destreza à faca. O grito é “Nhorinha é minha” e o tempo fecha. A navalha aquece a mão sem destino de Deodorengo, o sangue desce manso do pescoço de Roninha, que retruca na faca o corpo alerta, amolecendo na jinga continua. E se os Oxuns mandassem a madrugada assistia o fim.
          Mas a polícia acampa, Norinha articula, enfeita o beiço, arremeda a cisma e se alonga das vistas. Deodorengo desvirtua a navalha na solidão do fingido, Roninho dissimula a faca na espreita do sabido e o domingo foi festa na falta do mais o que, Norinha estreite estrada, atende o gesto cabreiro do guarda Tonho, que se arvora em pronto para artimanhar companhia. E por ser por Deus dará, cada canto é do resto em aonde o pintassilgo assiste de fora para saber o que deve cantar para enfeitar o azul. E o demais foi perdão, pois Norinha e Tonho nunca disseram então no que deu.                      

Cflorence    Jan/19       email cflorence.amabrasil@uol.com.br

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Publiquei um livro pela Editora Labrador cujo os dados seguem abaixo.
Qualquer contato com a Editora poderá ser feito com a Rosangela pelo Tel. 11 3641 7446 - E-mail - adm@editoralabrador.com.br  






https://catavento.livreiros.com.br/produto/romance/ensaios-a-solidao/




segunda-feira, 3 de dezembro de 2018


APOTEOSE EM SUSTENIDO.
Os pássaros enaltecidos, mas derradeiros, vieram se fantasiar de saudades, entre uma réstia azul, um respaldo de crucifixo e o sofrimento sangrando. Era o penúltimo mês antes das procrastinações e das colheitas de sonhos de maio. Portando, as ansiedades ofereceram seus melhores anseios antes que o sol escolhesse as duas melhores sinfonias para o orvalho se deleitar. Eram elas robustas e preferidas para se decomporem em graciosas ansiedades lésbicas antes de se transformarem em devaneios. Delicado, pedi ao infinito, suportado pelo cair da nostalgia, para encantar-me com seus arpejos rebeldes, pois a monotonia do inconsciente iria, sem dúvida, censurar meus desejos. Não sei por que estes fatos só me invadem agora quando as memórias da realidade se embaralham com as tiras de alucinações e prazeres findos. Perguntei-me, sem resposta, se por ser o último dia do outono ou a esperança entrara na menopausa? O firmamento tem estas bipolaridades e os potros preferem se atiçarem entre os cerrados ganhando as serras abruptas às campinas enfeitando os horizontes. Assim tanto se deu, exatamente como o senhor preferiu, pois os poetas, de longe e sorumbáticos, recolheram suas melhores rimas entre as sete luas com que os deuses enfeitaram suas bacanais .
Preferimos, neste jogo insípido, restar em alfa para nossas opiniões não divergiram antes de maturarem. Apesar disto, ela, em sua beleza simples, vestia silêncio, pisava molenga sobre as ambições e prometia desfazer-se do complexo de Édipo ou comprar um vestido decotado. Portanto, solução tomada, acalmei-me às margens da solidão, demorei o quanto pude antes de oferecer um retrocesso ao motorneiro, sem preocupações, mas fumando cigarrilhas petulantes, até eu conseguir escutar as cores caladas brincando de cobra-cega com os gatos eufóricos, escaldados, mas com medo da hora da ave-maria. Mesmo assim o desdobrar suave dos sinos das preces choradas, dos retrocessos sofridos e dos inexplicáveis desvãos da sorte, nos obrigaram a retornar à insuportável realidade. Morte aos devaneios foram determinadas.  
A partir daquele momento os incestos se tornaram bem mais abertos, espontâneos, e as hipóteses mediúnicas ofereceram as únicas atrações para os astros se encontrarem em zodíaco. Entre os aconchegos de dois rés sustenidos e um sol bemol, o parteiro das contradições, esmiuçou o paradoxo, ordenou jogar-se imediatamente a criança fora com a água do banho e passou a amamentar a placenta. A sua tese prosperou dentro dos limites dodecafônicos. A impotência, afetuosa, assim gratificada, debruçou suas primeiras dúvidas solitárias sobre a ejaculação precoce e a penitência. A brisa correu atrás da solidão com o intuito de brincar de tempo e nostalgia, enquanto os sonhos preferiram as ingenuidades das virgens excitadas aos sorrisos dos camafeus impúberes.
O enfermeiro, carinhoso, trancou a porta da minha cela do hospício, perguntou-me se eu havia escovado os silêncios postiços antes de me acarinhar na demência satisfeita, pois as obrigatórias orações, em pé, prefeririam rezar-me de joelhos, antes que o galo azul fosse reconhecido como membro ecumênico da eternidade sonora.
Ceflorence 07/11/18               email    cflorence.amabrasil@uol.com.br 

terça-feira, 27 de novembro de 2018


EMBATIDOS E APANIGUADOS
Era um transversal soberano de arrependimentos, que nem São Pautiválio descarnava nas macegas. Admoestei Sarara, caboclo desprovido de arreceios e sobrossos, que envergava uma catadura des-apaziguada em sustenido, como se fosse frontão de belzebu. Não repinicou nem piou com a cara que ele mesmo possuía para descaber irreverências, antes de desajuntar dos contrafeitos a alma do cadáver. Se amoldou no gemido e se pôs a querer esmiuçar as contrafeitas, mas não deixei prosperar as circunstâncias para não abrir vasa de mau juízo e desfeita. Com estas manhas sanadas amelindrei pelas canhotas com sofregodura e impertinência, pois nem o Trofenço, com aquele pé de andar légua sobre pedra como se estivesse beiçando a sogra, não desmoreceu de empertigar o nariz para os desaforos. Beliscou a ponta da cartucheira, encarnou a destra do indicador na algaravanca do gatilho, mas apreferiu silêncio em vez dos cornos dos perigos. Se ponha se cabia ameaçamento ou desprovérbio entre os que saiam e os que pitavam fumo de rolo repinicado das desforras. Os mais afoitos, nos lampejos, não desvirtuaram, tanto que o sol foi encontrando seu silêncio para desmerecer o dia.
Umas éguas prenhas emparelharam para os lados da lagoa onde o marrequinho se desfez de sabido para amoitar nas taboas. Susteni no provisório, até que a jaratataca desmereceu os rastros que os cachorros alongavam. Surrupiei o destino por uns breves, sem respirar para não dessacramentar os fôlegos com o cheiro catingudo da bicha achando seus destinos e não amortecer ela morta nos dentes da cãozarrada desarrependida de preceitos. E me pus em supetão para um deus-me-livrasse naquela hora dos adjacentes, tanto que a brisa amenizou os trilhados e cachorrada enfeitiçou de seguir os despropósitos da jaratataca só até onde ela sumiu na capoeira fachada. Sina de caçador é esta mesma, não adianta entravar nos prognósticos, pois eles descornam nas desobediências e não estabelecem previsuras.         
Ajuntei os restados intermediários para preparar os retornos. A serra era braba, mas o povo de caçador ajagunçado era arrematado de insolente. Desmaldecemos serra abaixo, embicada nos precipitados, contornando a Pedra Grande da Periporá, por onde as aguadas da Cachoeira do Remão do Tucano desalojava tristeza, tanto que o pássaro preto se fazia em cantador. Admoestei o silêncio para o povo ouvir a magnitude. Se puseram de sobreaviso antes da brisa subir mascando os recantos mais remorsados, pois nem assim deu tempestivos de ver a paquinha miúda extravasar na rouquidão do vento querendo enganar a nostalgia. Creia, mas não porfie demasiado, que caçador não conta com o que vê, mas mais desempaca com o que inventa e verba. Apelejei o raciocínio enquanto desmembrava o provérbio, pois a noite prometia.
Foi um Serapião; danou-se o ireré inté. Ninguém entremeou de ir saindo calado enquanto os curiangos não trouxeram a escuridão puxada, enxabida, nos olhos brilhados, como só eles sabem. Me desmoleci de mandar recados e altivezes. Suspendi os provimentos até que a aurora viesse chamar o povaréu, devagarosa e morrinhenta, como tanto, nos igualados, à preguiça gosta de acomodar no cansaço, para eu continuar mentindo e inventando as sanhas de destramar os tempos e as paciências.
Ceflorence      13/11/18       email       cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 1 de novembro de 2018


FOGÃO VELHO – CHAPA FRIA- CAFÉ REQUENTADO

                        Se fazia urgência, Jupitão testemunhou, atendeu recado, era prestimoso das horas, aprumou, pasmou esgrouvinhado ao levantar, estirou as pernas frias, doloridas, sem embalos desde a manhã, carcomidas nas melancolias na mesma cadeira. Desfez empertigado para as providências, Jupitão. Saldou para si, pois os mais não interessavam, salvo Seu Vazinho, repetiu, repetente – O cachorro latiu embaixo mesmo da escada do alpendre. Atendeu hora de o preá caçar água na bica da barrica cortada, como é correta sua hora de beber água na barrica cortada, como gosta o preá, onde a barrica fica. Assim, o senhor, Seu Vazinho, carece tomar café e pitar. Vou servir o senhor, Seu Vazinho. Moço, não se acanhe, tome café, coma carne de sol, beba mais uma cachaça, atente, tem fumo, tem tudo à vontade, desacanhe. Estendeu Jupitão a caneca de café meio frio ao Seu Vazinho, que condescendeu sem euforias, acendeu o cigarro de palha, pigarreou mesmices, articulou o verbo, pensou, disse, sem falar, esperando os apaziguados se darem.
                        Era a essência de Seu Vazinho desmilinguido em si mesmo à espera do nada e Jupitão calou para o resto dos palavreados até ir dormir sem outras prosas. Não estava assim para entretantos, o homem, pois cansou das ideias, não disse mais, tanto que enviesara por ser Jupitão do São Alepro do Jurucuí Açu, peão carregado de competências, amansador de cavalo, o melhor homem para acertar boca de animal, foi, não era mais, mas desmediu de querer viver, suspendeu a vontade de sorrir, assentou no silêncio, ficou. E tudo se deu, pois o cachorro latiu embaixo mesmo da escada do alpendre, quando viu a hora de o preá beber água, quieto, sem desmentir medo do latido, o urubu se acomodou no cocho, lugar do carcará, que assentou mais longe no moirão da porteira, sem saber por que o vento não carregava mais as chuvas novas como as coisas deveriam ser. O sertão que tinha estas sobrevalências se alongou nas premissas e nada mudou, pois o sol ainda iria enjambrar devagar pelos seus rumos mais um estirão sem fim antes de acabar o dia. Seu Vazinho desmudou de novo, balbuciou miúdo a si mesmo para Cadinho escutar.
                        Carecia contar nos traquejos dos finais, no apezinhar das mágoas desforradas do cavalo assumindo toada viageira de tempo seco, calor bravo e pragas, sem tropico nas passadas, mas preguiçoso nos intentos e por prosa com o além, Cadinho deu por cordato, desmediu. Por rotina o sol castigava a cacunda derrubando para o oeste. Cavaleiro e a montaria foram atentando as vistas pelas beiradas das pastagens das cabeças poucas sobradas de gado não tendo mais onde emagrecer. As cacimbas prontas para sumirem de vez, desenfeitadas nos buracos quase vazios, tristes, enxugando. O caminhado emparelhava as mesmas sinas das cataduras do então dadivoso Rio Açu secando. Tanto era que a paisagem assemelhava propositada parelha de desgraça com cada vaca, bezerro ou novilho sendo acompanhado por um urubu sustentando do lado um mau-olhado de desgraça e praga. E assim por ter-se dado Seu, Vazinho pontuou as desgraças que se deram com a seca que castigou por muitos verões intermináveis.  
           
Ceflorence       24/10/18     email     cflorence.amabrasil@uol.com.br