quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

TAPAJOARA DOS BOQUEIRÕES

            Da taipa do fogão de lenha pitando palheiro de corda do fumo brando e preguiçoso, tão pronto o silêncio ordenou, Vô Aiutinha chamou tempo das enchentes, sabendo ela dos muitos idos, pois memorava ainda menina com pouco mais passados dos colos e de desleitar e para desfazer tristuras de penitência das águas que não vinham nos cerrados há mais de dois verões atiçou de emprenhar saudades. E ladainhou ela na meiguice o que lembrava e por dito falou manso:
-Sabia e sabia de tal qual, o tempo destemperado, mercês das pragas desaforadas dos desacordos entre deus e o adágio, segundo o evangelho de satanás, que o mundo se derretia em voçorocas graúdas, a lama se perdia nas enxurradas grossas, carreadas para o Tapajoára, cortador rio dos cerrados, dos encantos, dos poemas e das saudades. E se fazia sertão chorando só de aguadas para além dos absurdos e das vistas. O vento intendia, ouriçado, de desmanchar o intuito dos passarinhos cantarem para des-brincarem de silêncio. Do jeito dos andados, até o mar, na foz da boca do Tabajoára, viraria brejão dos infinitos, para atolar veleiro, saracura, inveja e carroça, segundo Jatobinho Pescador, quando lançava a rede certeira e ela engastalhava nas quiçaças.
E na fartura d¹água tanta não remediava pedir provimentos aos aléns, acender vela, medir encarrilhada dúzia e tostões de rezas preventivas, das repetidas por Bisavó Geninha Romão Lonvardo, benéficas preces serviçais e cumpridoras nas tarefas de estancar corisco eriçado. Menos progredia proveitoso atiçar sal grosso na taipa do braseiro, enrolado em melão seco de são-joão, bento na certeza da fé cumprida, desde Ramos, pendurado para resguardo das intempéries no fumeiro e amarrado por embira de taboa da Lagoinha do Pererê para esfumaçar exu gonzo, nas ajudas de des-chuvar, como definia carinhosa e beata Babá Miombá do Apucaré.
Insolúvel de ajustar, o chão apodrecia sem sustento de parar em pé quem destemia andarilhar calçado nas bibocas encharcadas. Só dedão graúdo encravado, curto, no sovaco do barro, aprumava postura. Assim mesmo no palmilhado de jaboti curioso e cuidado de cobra no cio. No tormento, se punham os povos, única querência de atiçar fora das casas, por compra de muita carência faltada, comida, pinga, fumo, farmácia do Tio Zefato, reza na capela, se promessa vencida, ou pagar pensão da manteúda na zona, antes que a moça viesse buscar, de sobejo e nos inconvenientes, em lugares indevidos. Maritaca, contavam os que ouviam, gralhava grave, baixo, roco, de constipado.  E sabia tanta água, que Clotário Romão desaturdia entre amaldiçoar o tempo ou pedir ajuda aos santos já desacorçoados de tantos préstimos.
Acabrunhava perdão, tudo, e corria enxurrada no ponto justo de esconder atrás do silêncio o canto da seriema campeando o parceiro na capoeira; triste encanto, seriema e canto, se sumiam no infinito; “oh-deus acuda”, mas nem isto se dava do amparar tempestades. Mas como tudo na vida o tempo debruçou, catingou nos frontais dos pés das serras e a seca desceu do infinito montada no sovaco da jumenta morta na falta d’água e o povo que reclamava dos mofos das umidades das enchentes, virou a amaldiçoar a poeira brava, que enroscava até nas preguiças e nem deus assoprava mandamento de livrar.
Vó Aiutinha apagou o empalhado, para fumar o restado na madrugada, cuspiu o pigarro cremoso e deu sobreaviso da benção para ajustar no silêncio.   

Ceflorence 08/02/17          email cfloence.amabrasi.@uol.com.brl

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

RIO ABAIXO E OUTRAS TRISTURAS
Encorajado, só agora, arrisco escarafunchar medroso passados e tristezas. Ao me dar perdido pisoteio devaneios, como os dos potros embolados que me entusiasmam espelhando fantasias, brincando de solidões e demências ao achegarem às beiras das aguadas fartas do Puntiarã. Por agora repiso minhas ânsias carentes de ousadias. Ousadias jamais emprenhadas, mas fantasiadas, de escrever-te ilusões minhas, o que sentia e, por bem pôr-me, do que ainda sinto. Isto tudo para o vagueio de campear nos telhados velhos e nas paredes escorridas de mofos e decadências do sobrado de onde nunca fugi. Deles, emparedados telhados, abrir-me só agora a ti. Estes desacertos se dão, ao perseguir os desenhos dos bolores grafando, fundo, as saudades e melancolias, do sobrado nosso, nosso da infância juvenil.
Nunca compartilhei, inibição e acanho, digo agora, meus desejos e sonhos por ti, mas, por assim sendo alertado, soube por Leta, minha irmã, também tua prima, que voltarás a Assunhãe e ao sobrado, após sumires por tantos. Naquilo e naquele, aonde e quando o Puntiarã dobra e encobre, te carreando em desfeita a mim, quedado ali eu calei, arrastando junto tua ternura e minha paixão, e o trem sumiu. Abro só agora os desejos para conheceres que na plataforma fria ficamos, abanando mãos e sonhos vazios, a angústia soberba, acossando meus pedaços e o cipoal de desespero. Intuo que tu sabias, sem quereres saber, que tal se dava assim tanto, pois nem olhastes para o adeus e para as duas lágrimas, mas disfarçou fugindo, ou fingindo, tuas vistas à garça pescando melancolias sobre o Puntiarã; e o trem se indo foi. Camondinho, tropeiro, resmungava: “o carnegão difícil de romper é a mentira que contamos só a nós”.
O passado, o presente e o futuro são meras ilusões embaralhando devaneios. Tanto sim, que ainda tropico hoje nas mesmas tábuas velhas, rachadas, perseguindo tuas sombras e ouvindo teus sorrisos, sobre as salas e os corredores do sobrado. Não estarei aqui na tua chegada: o trem carregou meu limite de angústia e tristeza em tua partida. No entanto, o passado estará inteiro no presente quando o futuro próximo te trouxer. Os três momentos te envolverão de melancolia ao te saudar. Verás Leta debulhar pela casa, desde o alpendre até o seu quarto, as pétalas das camélias colhidas do vaso grande, pois acreditou sempre que o Dominho, seu noivo assassinado na zona, há muito, voltará pisando macio as flores para estilhaçar a tristeza que a tomou desde então. No sobrado, o tédio se apascenta galhardo. Escondemos do Vato a garrafa de pinga atrás da bilha d’água e fingimos que ele não sabe e ele disfarça não beber. Coisas do sobrado, dos espíritos mentirosos e que nos sabem bem. A alma de Vó Tiúca estará à janela esperando o Vô voltar do além; não te assustes. A maritaca chocou, como todos os anos, no forro e a brisa beijará, de novo, o infinito e o azul.     
 A ousadia, depois que irrompeu de manhã pelo sobrado, pela minha angústia e pelos meus arrojos, se acovardou de sobejo, subiu pelas paredes encardidas e me espiona do forro carunchado. Eu, dissabores, como sempre soube fazer, caminharei agora, choroso, às margens do rio. Ali continuarei mentindo-me acovardado, depois rasgarei estes rabiscos lamuriosos, lançá-los-ei sobre as águas mansas do Puntiarã e fantasiarei que te chegarão pelos remansos das ilusões e acasos dos sonhos. Beijos.
Ceflorence         email   cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

ALEGORIAS EM TRISTURAS E MADRUGADAS.
Apesar das pragas e das maledicências, os conflitos se impuseram invertidos dos previstos, mas exatamente por estes desconformes e nas premências corretas, carecidos de serem grafados sobre as desavenças ou as premonições suspeitas, nem os sustentos das crendices se ativeram esclarecidos, portanto se pariram adjuntos e outras prerrogativas nos embalos. Nas desventuras, por assim, sem solução acordadas, as rusgas sempre rebrotavam daquelas iguais altercações impossíveis de se entenderem, nunca findas, antes de primeiro se explicarem muito claramente as parábolas ou os danos. Amanhecendo, seguiram os acontecidos mais bem ajustados e explicados para que não pairassem dúvidas ou deméritos aonde os encapetados cínicos arrastando suas marcas desde os aléns não deixariam, por atávicas desvirtuações, de engastalharem até os cafundós das demências suas mãos encardidas e propósitos sórdidos. Na forra dos palpites não se atinava mais se haveria razão de recontar, mesmo até porque os preceitos e os provérbios não foram vistos com os mesmo olhos por todos nos sufocos das discórdias entre os garridos enfeitiçados, que lambiam os sovacos do demônio e os outros demais desprovidos de alento, que de deus assuavam cínicos as remelas fingindo arrependimento.
Achegada a hora e a noite morrendo por recato aos eternos, caberia começar a madrugada depois das sete derradeiras estrelas chorarem, acabrunhadas, encantoadas em seus silêncios e por conta das rotinas partirem sem arrependimentos ou rastros mantidos antes do sol ameaçar espioná-las por trás das torres indiferentes da matriz beijadas pelos ventos e pelas desventuras. Corriqueiras e desventuradas ventanias bordadeiras das vidas, das discórdias e das intrigas tramavam as insídias a se assanharem para o que viesse na trilha do sol. E nem se atinava nos preceitos, até por carência sabida de falta de generosidades, arriscar as bateias no garimpo nas biscas das loucuras ou dos inexplicáveis, começando tudo sempre igual e sem intimativas postas como todos os dias eram. Os carrilhões atenderam recados engraçando embalos coloridos para compartilharem aos fiéis seus achegos aos serviços em tempo justo dos portais da catedral abertos, pois nos pêndulos das artimanhas entre o fim da noite e parir do dia, as providências estimulariam os aninhos das putas e dos proxenetas des-abnegarem escaldados das agruras.
Antes das luzes serem recolhidas, a garoa choramingou nos ombros das mágoas, os pecados convertidos se persignaram frente aos vitrais abençoados da matriz e os desatinos procuraram suas solidões para se protegerem. Tudo isto se pôs em brios para a madrugada se fazer ativa apesar dos contraditórios. E por justo dos caminhos as torpezas foram se escondendo entre os dentes da boca da noite fechando e o ranço do trafego agitando a tristeza de cada desgraçado portando suas desavenças com os destinos, destinos que só os deuses e os demônios saberiam como os traçar.
Por solidão, o sol se apegou à rotina e todo mundo obedeceu aos desmandos.
Ceflorence    23/01/17       email   cflorence.amabrasil@uol.com.br

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ALOPRANDO SOLIDÃO
E de muito silêncio guardado no sovaco carinhoso da perobinha de cima, a corruíra desafogou preguiça, no canto chorado, para desengatilhar o sol. Manhoso sol de mal humorado, bocejando querência de não nascer de vez, e por tudo, meio assim no desabrido e na des-serventia dos inusitados. Pois de muito antigo como se dizia, sol carecia de sempre nascer, atoleimado e vadioso, do mesmo lado que corria o brio imponente do vento castigado da Várzea dos Lobisomens. E vinha ele, sol, exibido de petulante, antes de se tornar poesia, sabendo carecer subir, encostadinho, pelo pé da trilha da Serra dos Leprosos, por onde deus tapava os ouvidos para não ouvir os lamentos, quando por ali cortava caminho, descalço, sozinho, acabrunhado e no campeio do nada. E por ser ele, às vezes empacava de não sorrir de pronto no verde, que a mata enfeitava e nem negava, mas na retranca escondia, conversando o sol, desviado de destinos, com os pedregulhos orvalhados escondidos na neblina E se atrasava papeando com as macegas carinhosas, com as juritis risonhas e com os infinitos abobados que sabiam só campear os deuses safados, as musas difíceis e as tropelias das solidões que as almas não explicavam; sol e deus eram de assim mesmo ali, não careciam de portantos e nem davam conta de satisfação prestar a ninguém.
  Ainda sequer não era já noitão dos fechados, mas embora, talvez, quem saberia pontuar se correto poderia afirmar, pois o curiango ainda nem se desfizera da teimosia de desencantar da beirada, da beirada da prainha do riacho sabedor como ele só de saltitar as pedras que águas da Cascatinha da Inhãnhá beijava. Foi neste ali, quando Sepião dos Afonsos aportou no curral para desandar de fazer dia e cabrestear cavalo. E de lá ouviu gemido manso-triste, assofrido de vingativo, descendo escabroso, vindo chegando estupefato e enrugado de mal cheiroso de ver, quieto de ruidoso por silencioso de escutar, meio de apavorado de fazer medo, ateimosado, muito de prontidão e arribado nos desconfiados. Quem pariu o ganido dos Leprosos vindo, por diabo enxertado fora por certo. Sabia saber de longe, Sepião, que depois da Várzea dos Lobisomens, subia des-facetada de empinada a Serra dos Leprosos, amanho das almas descambadas, desarvoradas. O cachorro enroscou na perna, o potro resfolegou sentido e postura, o escuro assoprou carência, tudo acalentou desassombro.
No fazendo, esquecidos, tempos idos, Sepião deu conta, por prosa de velhos e falas veladas, que no pé da serra, na Serra dos Leprosos, acomodava, há muito, um lazareto, que as ruínas das taipas ainda restavam. Por sendo valhacouto de desproporcionais tristezas, doença ruim de sabido, fome carregada e desgraça, se deram de desespero os leprosos de fugir do leprosário, em bandos sem rumos e destinos. Os avizinhados da Várzea dos Lobisomens, muito abnegados de religiões e promessas, atearam fogo de morro acima no encalço de salvar as almas e separa-las dos corpos estraçalhados dos lazarentos fugidos, que até hoje, nas madrugadas, reclamam suas penúrias. Sepião afastou o cachorro das pernas, arribou o lombilho no potro, acomodou o infinito na solidão e destravou o ouvido, como deus, para não abusar da desgraça. O sol pariu destino, calou as almas e rumou sertão.
Ceflorence      email  cflorence.amabrasil@uol.com.br      

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

CARREANDO AGRURAS
                Cadinho Pé Solado não conseguia ajustar pensados seus atoleimados dos desaforos adiante dos tropeços a cata de pisoteá-los, rasgando fundo, querência de esquecê-los por ali logo, pois. Mas as malditas ideias apartadas um nada a mais das pegadas, gemiam debochadas da estupidez sua. As danosas, injuriando, se refaziam de intrometidas nas desventuras como gostavam de ser a fome e a miséria. Ajuntavam-se as três condenadas e vinham corroendo abeiradas, subindo no carro moroso do sucateiro enrodilhado em devaneios e desmedindo esperanças. Cabeça filha de uma puta de deprimida, prestante só de catador de desdita. Fizera-se dia cedo na manhã que fora à luta Cadinho, pois palpitava carência e urinou largado no sopé da torre da catedral sobre os seus riscados encarvoados de silêncio e júbilo. Cinzelara na noite anterior as suas preces, magias ajustadas, recados aos aléns, atendendo cismas de cumprir reverências de sucateiro. Depois de dia sofrido ajustara retorno e o carro enroscado.  
                Do vácuo, saindo nisto de um canto rasgado do sofrimento, desviando dos inexplicáveis, saltitando altivo sobre o inesperado, Cadinho atentou emparelhar consigo Simião Cigano, anarquista, na desfeita, depois republicano-abolicionista, mas no proveito, vidente considerado efervescente nos premonitórios pelo catador para desarvorar penúrias. Assassinado ali, Cigano fora há cerca de quase século, naquela mesma Praça da Sé, pelos cascos ferrados da cavalaria militar rancorosa, tentando impedir manifestação favorável à república. O revolucionário passou a cirandar pelos pedaços e implicar jocoso com o dono do pastel ordinário e da garapa azeda, Seu Laudino, desfrutar da prosa azul de Merinha Cafetina, bordeleira, ouvir o canto choroso do cego Croágio Borta, na viola afinada em riachão, aciganar com o Dr. Artépio, religioso dominical, advogado da porta da cadeia e devoto da tradição, da propriedade e da sua concubina das sextas-feiras, cortês com o veado do padre, o Necauzinho Zola, e com o padre veado, Monsenhor Rócio, provocante dialético e irônico nas tertúlias com o libanês-cearense, o jornaleiro Bercati Palo Asmzim, comunista ferrenho, torcedor do Nova Ponte da segunda divisão e devoto de Oxum para os acalantos espirituais mais confiáveis nas desditas esportivas e nas autocriticas materialistas, subjetivas e inúteis do partidão. Mastigava o abolicionista, muito a gosto e atrevido, uma réstia verde de esperança, roubada do bicheiro, enorme de gordo, sentado à porta da Bodega do Catetá. Segurava o cigano petulante um violino sobre o ombro direito, pois em sendo canhoto de manejo carecia, e deixava cair pelo esquerdo uma camélia rosa, símbolo pelo qual lutara e fora esmagado à porta da matriz.  
Cada badalada dos carrilhões envolvia uma delicada sutileza azul, distinta, de ilusão dispersa em fantasias. Simião advertido, como sempre sim, colheu muito ciente e rápido, com ternura, penca graúda das disputadas fantasias ilusórias dos sonidos debulhados, lançados suaves pelas torres ao infinito, para manejá-las no bom proveito a ser. Assim sendo o momento justo, aliciou o cigano às sonoridades antes dos pássaros ladinos roubá-las, como em surdina o faziam sempre, escondendo-as em seus ninhos para apetrechos terem dos melhores tons dos tempos vindos e usá-las melodiosas nas regências apropriadas dos solfejos cadenciados e singelos das escalas musicais para os filhotes aprendizes. O gitano habilidoso, com as tonalidades diversas recolhidas dos sinos, lambuzou os eixos das rodas e enfeitiçando-as com o esplendor dos tinidos do violino atiçou as ganas do catador de agruras para desesperado arribar carro, tristezas e sucatas ao topo do destino da matriz aguardando-os.
Pássaros, carrilhões, aléns e santos os saudaram à Sé chegados e deixaram assim repousar deus e os tormentos antes que os demônios se fizessem ser atrozes.
Ceffloence     11/01/17              email    cflorence.amabrasil@uol.com.br

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

DESENCANTOS A CATA DE DISTÚRBIOS.
Pois, mais em tendo viola afinada em riachão, assovacada viola sofrida, arrastando-a Atérpio do Bogato, atiçado e desbrioso de seus segredos sem provérbios, apesar das maledicências repetidas de que era fanho e pigarento no solfejo, cantava mesmo na porta do mercado velho, ali, cantigas que debulhava das desenrustidas por debaixo do travesseiro, como madrinha Agaté das Angolas largava e, por sido sendo, gostava, carinhosa, de vê-lo parir inspiração e verter tristeza. Amaldiçoando, Artépio, a vela de deslumbrigar sina, acabando sobre o caixote servido de criado-mudo, acordou entesado de dividir o nada em sete versos de cruzilha e duas desfeitas salobras deixadas pelo demônio na Trageúva dos Catados. É assim que se fazem as agonias e outras solidões prozadas em São Salomão dos Retidos, arruado das faltas de porventuras, mas tudo no se-apresente e nos repiques de Artépio. A morte se hospeda por lá antes de desaguar mundo e descarnar desterrados. Pois bem saiba, o senhor!
Então ganhavam sanha os estropícios que nas madrugadas se engalfinhavam, segundo prevenia Frei Simião Barbucho, capuchinho abnegado quando fungava rapé na sacristia e amaldiçoava o sereno na boca de noite, tudo para desparelhar o confronto entre o roçado aberto nas quiçaças de Artépio e as sementeiras canalhas das assombrações vadias das almas sem rumo. O demo, antes que esqueça eu e deixe para trás, atazanando descompromisso, como de seu feitio e maledicências sempre, vinha mascado de artificiosos, desovando umas saraivadas pelo descaminho e sem destreza acertava uma no casco e as outras a ferradura saia do lugar. Nem sei por que lhe repito sempre, a vosmecê, homem de muita ciência e sabedoria, estas arengas indevidas, despropositadas, que fim não tem? As modas violadas tracejadas por Artépio contavam tudo muito carcomido de justezas, pois cantitava ele, no mercado, que a procissão das lavagens das almas transviadas se perdeu pelo Boqueirão dos Queimados e sobraram umas perengas de gente sem trilhado, que os bateduros do hospício levaram para usar na servidão de tentar desloucar. Se tal deu positivo de cura dos desabnegados, depois das sovas benignas, Artépio não deu de figurar no canto.
             Quem bem falou, mas não disse por que, foi Domato Entortado, que assim se deu alcunha depois que a onça no cio o estropiou destroçado em tiras no Espigão dos Assombrados e desperdiçou pedaços graúdos seus pelas quebradas e tabocas descendo. O restinho a onça mastigou e cuspiu, levou meia bunda, faltada, mais um terço de arruinado sovaco embaixo do pescoço servindo má-lê-má para gingar a cabeça entortada e dura. Os sobrados todos, de pouca serventia, desolhavam só por descuido. A mão canhota encurtou no restolho do ombro encolhido e assim carecia um solavanco de cotó de perna para alcançar a muleta. Mas imputou nas rezas, por milagre tido, e eriçou Domato dois paus de embira enforquilhados em cruz no lugar da desventura, tudo confronte ao cemitério onde lobisomem procria na lua cheia.  
Afirmo, destino este se deu cantado por Artépio, pois carecia Domato seguir magote de bezerro alongado, sumido no nunca mais; deus não viu, nem não campeou. Imagine doutor se a viola estivesse desafinada e o capuchinho não fungasse rapé. 

Ceflorence   21/12/16    email  cflorence.amabrasil@uol.com.br 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

PROVÉRBIOS E TESTEMUNHOS.

-Pois falo, pois! Digo até! Como se fosse sete palmos de corisco e praga dos infinitos, risco arriscado fundo, vindo do poente catingoso por muito desmamado, grosso, como cascavel no cio desconjura a bicha, do lado canhoto que o lobisomem desacanhava e por donde ele dissimula as pestes, a saudade, a porventura e outros catingados seus. Foi assim ali, lá, o acontecido, Doutor. Careço do atento de sua senhoria, doutor, por verdade e respeito, para não dizer que minto, pois o contado se deu nas horas dos desvalidos, a mando de um traquina qualquer, das putas filho, com certeza se diga. Arribou o acoitado no propositado de cumprir, por despeito, mandado de quem parira promessa de querer ver Farcato do Roncador amortado, morrido sem unção e só na certeza do tocaiado ficar defunto de bala e faca, ensanguentando. Fustigava tiro escapado de cartucheira, um arribando outro em riba, apontado do matador profissional na tocaia; tocaia sabida de não ter saída para Farcato, até mesmo ele, dito correto, ser de garra atazanado jagunço crispado, pois era.  
Acantonado no pé do Morro do Sumidouro, baixão da Capoeira dos Confins, ali onde o senhor doutor conhece e caça, me ouça por atenção, sem ver rastilho de escapar do tinhoso atirando, ruminou o entocado, Forcato, no sentido de esperar o sol se entestar em preguiça. E nem acendeu o pito, deu ele conta de ser, para o gabiroba atirador não entortar na desconfiança de medo ou covardia. Ah! Atente por favor. De um lado subia pedra, de morro um tanto acima, que nem deus unhava, sim, de tal digo, urubu tinha medo de despencar de lá. Do outro lado, mata de afogar corisco, ouriço andar de costa para não se enrascar nas urtigas, jacu criado não deitava conforto de ciscar. Pra banda do grotão não adiantava atiçar de embicar no rumo, pois pelos riscados do estouro da pólvora se esfumaçando, se via o intendo do pestilento, emboscado ali no coito, esperando o tempo ranger na sina de dividir Forcato em rasgados pedaços e as mais torpezas. Deus desandava de provérbio para não dar serventia à sorte, sem saber de antemão o lado de beijar o trilho reto. Quando deus não toma partido, vosmecê, escolado, sabe bem, a coisa é carrancuda, feia, carrasca.
Nem digo doutor, por dessaber, razão de voltar estas desardiduras, agora, que o meu tempo de velho carcomeu muito, desabusado de insistir viver sem saúde. Fiquei entravado e a coruja já estirou a arapuca de cangar gambá para me desparir da vida. Mas vi correto como a coisa se deu e provo pra terminar o testemunho. Farcato, quando se viu no oco do perdido, arrepiou de coisa ruim, assumiu de lobisomem, fedeu feito jaratataca de restingão, urinou na boca da garrucha, despiu das, de todo, roupas desnecessárias na fuzarca e fuzilou no sentido das demências. No quiproquó o vento dobrou mudança de rumo, a coivara deitou no varjão, a pedreira disse amém e o tiro calou. Aquilo virou um tormento de despropósitos desfigurados; o resto se deu. 
            Pra descerrar, Farcato eriçou de peixeira atiçada, garrucha baladeira chispando. Peludo de pelado saltou na quiçaça do acoitado mascando seu destino de fim. Deus desolhou o resto e eu nem vi se sumiu ou se se quedou Farcato. Pode crer doutor; se fez o que vi, doutor. O sol dormiu cedo, pois o medo me desmediu destampado. Foi!
Ceflorence      09/12/16   email    cflorene.amabrasil@uol.com.br