segunda-feira, 25 de abril de 2016

GÊNESIS
O tempo foi criado em quatro deleites e após dois intervalos, o azul, primeiro, em seguida o sutil. Deleites: graça, absurdo, compaixão e paciência. Coube ao poeta, dois entreatos, a métrica, meia taça de vinho e o til. O azul, encabulado, sumiu. Por inacabado, houve interposição à métrica e parte foi repartida por simples regência. Para sanar, dividiu-se o absurdo entre cantigas; uma lenta, três prosaicas e duas amenas. Na dúvida, a compaixão se desfez em metonímia e ausência. Paciência, nada é perfeito, retrucou o poeta, apenas. Tomaram-no por imbecil, ficou sem o vinho, o intervalo e o til. Imbecil, repetiu o azul e, por deboche, sorriu.
Gênesis do poeta, do tempo, do absurdo e da compaixão do arrependimento, na falta de outras estrofes melhores, menores.
            O espaço, lançado entre aspas, elaborado na solidão, é fundamental à gênesis. O filósofo, alheio aos fatos, considera homem, deus, criação, lapsos dos inconscientes. Caso não houvesse aspas, neste contexto, o eterno retorno ao nada repetiria Fênix. Por isto, por tédio, as formas, as alternativas, os enfáticos, se deram cientes. Firmamento, tempo, espaço, relatividade, abstrato perdido e por ai o norte perdeu-se. Pensamento, consciência, fuga, trajeto, anseio, esperança, são atiçados ao léu. Ao poeta basta rima, ao filósofo falta sonho, o homem, na dúvida, antropofagia-se, aos demais, a sorte se deu. O espaço só é quando o homem o vê.  
            Gênesis do espaço, do firmamento, do filósofo, da criação e do trajeto, por descuido, talvez, por absurdo e horas perdidas, pedidas.
            O cavalo inventou o homem para ser domesticado, invejado e exaltado. O homem inventou o medo, o risco, o provérbio e o galope. Nas tardes de sol ou noites de solidão, o homem ordenou o galope para excitar a libido. Foram articuladas as tristezas para serem contrapostas às cores e aos pardais. Sextas feiras os sacramentos eram oferecidos aos jovens, aos banguelas e aos imorais. Vitupério e ambrosia seriam objetos de escárnio, não fossem palavras de sons elegantes, suaves, dissonantes. Poderiam ser oferecidas aos dissidentes, psicopatas e amantes.
            Gênesis: do cavalo, do vitupério, da elegância, da preguiça e, pela incompetência, ausência, de se encontrar cores mais atrativas, ativas.

            A luxúria e o lúdico foram ordenados profissões de fé, indispensáveis, nas cerimônias papais medievas antes das canonizações. Segundo Malaquias, ordenador da gênesis da terapia ocupacional, a forma correta de alterar a mediocridade do convencional e inverter o processo, é simples: bastaria enobrecer as diáfanas da luxúria e do lúdico.  O sul se nortearia, o parto faleceria, a morte renasceria e o infinito acabaria. Sustenta-se que a oferta do prazer não é privilégio dos deuses, dos eleitos e dos abonados. A cultura Impéria, dos Calamitas, alongava a puberdade dos escolhidos para se alimentarem de luxúria, ao limite, e se fartarem no lúdico, no excesso. Os Calamitas foram extintos em rituais macabros oferecidos aos deuses dos absurdos. Suas almas se encarnaram em pedaços de esperanças, fragmentos de compaixão, retalhos de independência e mínimas derrotas de fracasso. Como minorias, parciais, subsistem de ilusões e restos distorcidos de contraditórios sinais.              
            Gênesis da luxúria, do lúdico, das minorias e dos contrafeitos. Havia entre os párias sexuais os mais conformados, até o momento da exaltação aos direitos iguais. Ninguém mais aceitou a porventura como consolação, após as divulgações das utopias, metáforas pobres e frias.
            No último sermão da morte, argumento indiscutível, foi memorado que a vida é o curto espaço entre o susto inconsciente e o indesejável consciente. A cigarra brinca de crisálida sete anos, refestelada no pedaço de inocência que lhe cabe. Ali, após a solidão encapsulada, quando sonha viver e cantar, expele a alma em sete dias corridos para o além, afável.  O talvez, independente da cigarra, foi inventado para quando o assunto começa a faltar. Joga-se meia dúzia de desconexos, um perfil de azul em retrospecto, exibe-se a taça simbólica do amor, do sangue, do vinho. Divide-se o pão em partes iguais, menores, e sem precipitação, com delicados disfarces, propõe-se um ponto sutil, final, carinho.
            Gênesis do encerramento, do motivo, da incompetência. A cigarra, circunstancial, entrou em cena, após sete especulações, sete anos, sete tristezas, uma só cantata e a afinada fuga, sem mágoa.
Ceflorence    10/04/16        email    cflorence.amabrasil@uol.com.br 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

REFLUXOS
Pela pequena fresta da janela, uma réstia suave de luz invadiu o quarto em desordem, encostou-se ao ouvido de Marzilinha, avisou-a que Rútilo se fora. De imediato, o feixe claro beijou-a, afetivo, nos seios descobertos e deitou-se de bruços para ouvir a solidão. Ela inverteu sua posição na cama, abraçou o travesseiro, rememorou, dormitando preguiça, a noite gratificante com o namorado, após chegarem apaixonados e excitados da boate. Deu-se cinco minutos mais de pasmaceira antes de iniciar o dia, provavelmente a ser atribulado. Finalizado o espaço inapelável para os compromissos inadiáveis que teria, restou sentar-se na cama, vagueando os pés a cata dos chinelos.
Só levantada, no entanto, se deu conta do fato, ao sentir o pé esquerdo menor, algo assim como uns dois centímetros, do que o direito. Os ombros, todavia, continuavam, aparentemente, nas mesmas posições relativas. A primeira reação foi olhar para os chinelos e verificar as suas espessuras, mas confirmou, preocupada, permanecerem como sempre. Em seguida observou, cuidadosamente, o chão, a cata de uma falha, absurda se constatada, e certificou contrariada da normalidade das lajotas cinza, escolhidas com carinho na reforma, para combinarem com a cama e os armários embutidos, suavemente tendendo ao azulado. Ratificou-se a situação esperada, não havia no porcelanato qualquer deslize ou anormalidade. Cuidadosa, claudicando, claramente acabrunhada, entrou no banheiro enquanto apalpava todas as demais partes do corpo, pesquisando alternativas outras, eventuais, de mudanças inusitadas.
            Frente ao espelho, nua, a primeira reação natural foi olhar os pés paralelos, aproximados, e confirmar que efetivamente estavam diferentes, embora as pernas continuassem torneadas, lindas e iguais. Ansiosa, subiu meticulosamente os olhos pelo corpo refletido, contornando as linhas dos quadris atraentes e deslumbrou o ventre exato e perfeito desenhando, com sensualidade, as saliências das próprias formas. Contraiu as nádegas firmes, roliças, adequadas e proporcionais à sua altura, para testar eventual dor, capacidade de movimentos ou impedimentos. Normais todos, até então, os órgãos esculpindo sua silhueta, que vaidosamente a agradara sempre. Respirou fundo, acabrunhada, indecisa. Traçou o mapa das orientações que teria de programar para apoio futuro. Surgiu Rútilo, a primeira lembrança lógica e afetiva. No entanto, ao mesmo tempo em que considerou carecer demais sua atenção, pairou a angústia e a vaidade de exibir-se transmudada, sem saber o limite. Hipóteses sucederam-se.
Antes de definir-se, optou levantar as vistas até os seios roliços e verificou, consolada, estarem enfeitando o busto que sempre exibira com merecida e invejável petulância. O pescoço, sem qualquer marca de tempo, de sofrimento ou tensão, deslizava, sutil como sonho, para gratificar a junção com que a natureza unira seu corpo ao rosto exótico e incomum, mas acima de tudo, atraente. Encerrando o autoexame, ao se detalhar sobre a face, Marzílinha apavorou-se, pois os dois centímetros, faltantes no pé, se acrescentaram à orelha esquerda, que maior, sem alternativa, pendera com fisionomia de descompasso. Involuntariamente à Marzilinha, o ouvido movia-se, em gesto afetuoso, acenando fixo para as lágrimas que começavam a correr dos seus olhos angustiados. Tentou apalpar sobre o espelho a orelha alongada, mas notou que o braço esquerdo encurtara e sobre ele e a mão direita nascera uma membrana escura, coberta com algumas penugens escamadas, emendando os dedos como os dos marrecos do laguinho da infância.
O pavor lambeu as lágrimas, subiu sobre o descontrole de Marilzinha, atacou-a com beiços encarnados e a deixou fora de si. Alucinada, inconsciente, voltou ao espelho e vê, deslumbrada, a orelha normalizar-se à medida que as pernas se enquadravam, as penugens regrediam e as películas sumiam. O reflexo reflexivo do espelho passa a comandar. Tão logo se conscientiza, se tranquiliza, as metamorfoses, explodem arrogantes em Marilzinha. Desesperada, inconsciente, o pavor reassume, paradoxalmente as magias se retraem e o corpo enlouquecido se refaz normal.  Ágeis, as metamorfoses se recolhem ou implodem.
Pelas paredes do banheiro Marilzinha assiste, extenuada, sua orelha autônoma tentar devolver à perna seu excesso de porte. O espelho conciliador procurava anistiar o conflito do consciente com o inconsciente e estabilizar, no ódio, o corpo inconstante. Marilzinha estimula a loucura para devorar a metamorfose. No jardim, a incoerência ouve o beija-flor despedir-se da crisálida ao preferir brincar de borboleta despreocupada.
Ceflorence     04/04/16    email cflorence.amabrasil@uol.com.br

sexta-feira, 8 de abril de 2016

DESPAUTÉRIO EM SOLILÓQUIO
            A cada passo alçava dúvida.  Cada dúvida deslocava com absoluta convicção, de um infinito camuflado de tonalidades alternadas de azuis, para oferecer gotas de demência, que eu escolhia a vontade, embora elas se recusassem a atender-me, educadamente. Assim se iniciou o despautério em solilóquio, atividade gratificante para entronizar o absurdo afetivo no diálogo que mantenho comigo e, limitar e definir, claramente, à distância, a semelhança e ou fusão entre emoções, raciocínio e princípios. Não é processo de caráter teológico, sinfônico, político, racista ou sexual, nem ligado exclusivamente a traços espirituais, acadêmicos ou mágicos. Caso sincronizado até as últimas consequências, sem censuras paralelas, atravessaria com elegância a agradável linha da incoerência, sintetizaria modelos matemáticos utilizáveis em premonições, que raramente se confirmariam, mas poderiam ser muito gratificantes se servidas com vinho tinto ou espumante em reuniões sigilosas. Militantes conservadores e revolucionários consideraram a atividade processo regressivo, reacionário ou fundamentalista, razão de eu passar a evitar tomar posições nestas alternativas em jejum, após as comunhões pascais e em voos de longa distância.  
Com estes pontos claros, cabe esclarecer que o primeiro movimento, físico ou intelectual, ainda não escolhido até então, colocava em cheque se o sentimento seria de saudade ou poderia conter uma dose razoável de vingança. Se vingança, seria por inveja ou por ciúmes? Se ciúmes, deveria considerar se teria agido por frustração ou possessão? Se possessivo, a natureza do objeto amado ou de adoração ficaria circunscrito a alternativas de fuga psicológica ou esquecimento proposital.  Mas o contorno dos verbos não se matematizaram dentro das minhas incógnitas e as intersecções dos paradoxos brincaram de demência perguntando: mas, no mesmo contexto, se o ciúme possessivo nascesse cândido como o silêncio do amor, gerando a suavidade da saudade? Nestas circunstâncias as abstrações se reverteriam e seria justificável o desejo límpido da vingança? Plasmei debruçado sobre a incógnita e utilizei uma sinfonia dodecafônica sem saber absolutamente do que se tratava, para que serviria e se poderia trocar, em tempo, dois absurdos descartáveis por um desejo ainda não confirmado. A psiquiatra perguntou como me sentia, antes de beijar-lhe o auto ego frontal. Passamos a não nos entender apesar da afabilidade cínica. Exatamente neste ponto não sabia se o sentimento de cuspir sobre a alucinada psiquiatra seria racional ou se prevaleceria o sentimento da alucinada médica de cuspir em mim? Como os fatores eram equidistantes não houve parábola a ser aproveitada e prometemos nos reencontrar em datas indefinidas ou alternadas.   
Frente ao fato concreto poderia tentar ser sincero, se esta abstração emocional tem algum elemento de realidade existencial ou optar por um gesto simulado, oportuno e prático nos momentos de tensão ou, por último, ao encerrar, soerguer um supercílio com soberba convencional, quando não se atina com as respostas intimas. As externas são óbvias, basta estender uma concreta carreira de nada sobre um fundo de indefinido, que a solução se posterga enquanto se capta um disparate charmoso, decorativo e inútil. Maturei nesta linha, com a tranquilidade conformada que não chegaria a nada, mas, por indispensável, no caso, questionando se os demônios que me beijam ao dormir seriam os mesmos que, carinhosos, tocam os clarins quando definem que a preguiça deva ser interrompida? Porque demônios? São mais irreverentes, mais achegados à sinceridade, calados por natureza e difíceis de serem interpretados. Com estes valores claros, duas colônias demoníacas contraditórias, parti de forma concreta para empreender diálogo permanente com trechos, traços mentais em movimento, entre o meu sentimento e o meu raciocínio. Intui que são duas abstrações distintas, quando não opostas. Tem sido tarefa gratificante, embora, na maioria das vezes, intermináveis e vãs.
Ao encerramento elegante e circunspecto cabível, poderia formatar a tese com objetos esparsos sobre o subjetivo, a taça de vinho, o talmude ou até o espelho convexo para realçar o orgasmo. Mas optei pela tartaruga lésbica a fim de definir as partes menos claras do conflito. A noite beijou o dia, doparam-me com o sentimento de que não raciocinava. Estilhaçou-se meu consciente. Atribuíram despautério ao meu solilóquio.
Cefloence  28/03/16        email  cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 31 de março de 2016

IMPASSES E COMPÊNDIOS
            Entre significantes, voltei à realidade, àquela manhã fria ao sair para os devaneios, antes até de começar a decidir os próximos passos. Analisei a singela postura do bem-te-vi calmo e convicto de suas indispensáveis sonoridades, trinados limpos e firmes. Imaginei o pássaro envolvido, ao que acreditei pela distância, entre umas alegrias indefinidas e a um palmo e meio da esperança, se tanto. Gratifiquei-me sobremaneira pela hipótese. Em seguida, como seria lógico, jamais deixaria de considerar relevante, pelo peso nas circunstâncias, a extrema-unção oferecida à minha tia Rezélia, nos seus derradeiros minutos, por Padre Mariáco ainda claudicando nos seus movimentos, embora bem melhor, após a queda do púlpito na missa de Páscoa. Partira titia conformada, segurando obstinadamente o terço, uma rosa branca e a certidão de divórcio do canalha do marido falecido, para prevenir-se caso o encontrasse no caminho do purgatório. Por fim, básico para minhas decisões, foi a postura autoritária da insensatez que sobrevivera à viagem de trem ao subúrbio de Caxias. Fora impiedosamente roubada ela de todas as suas arraigadas incoerências psicológicas e desmarcou, assim, a consulta com o analista, que poderia ter-lhe mitigado a paranoia. Paradoxos da insensatez.
Enfim, foram estas as variáveis que permitiram mudança radical nos fatos, como pude constatar. Titubeei, por notável, no início, marcando-me profundamente o detalhe, pois a farmácia aberta despertou-me interesse antes de tomar o ônibus, mais atrasado que habitualmente. Pensei espairecer acasos. Solidão é opressiva e apavora, sempre estou fugindo de mim, por princípio, e como solução entro em algum lugar, peço um café e fumo. Sublimações, quaisquer as cato, nas circunstâncias servem e amparam. Da porta da farmácia entreabrindo-se, por onde o sol fez questão de acompanhar-me, segurando uma brisa infantil pelas mãos, não tive certeza se fora abençoado ao sentir os olhos lindos da moça chamando-me, sutil e disfarçada, para um recanto sensual do infinito. Despojada, mordiscava ela pelos lábios entremeados o bom-dia erótico do desejo. Apalpei, entre dúvida e medo, um enorme naco de indefinição abandonado entre a angústia e o balcão emoldurando fantasias e sonhos. Cabelos seus debulhavam-se sobre os ombros pretendendo camuflar os seios delicados. Acariciei-os com cuidado, cerimonioso, à distância exata, gesto sutil. Ela eufórica, deixou-se excitar perguntando o que mais desejaria. Compreendi e para estimulá-la, sem transbordar impressão de indevidas ansiedades, despi-a por três alternativas nas circunstâncias: imaginária, desejosa e platônica. Pedi antitérmico. Erotismo pediria, mas...
            Acontecia o acaso de domingo ser. Passeavam crianças, cachorros, balões pelos jardins e meus fictícios pelas formas torneadas, macias, da moça no caixa envolvida. Ainda em tempo, beijei-a no ventre, nua, em êxtase, aguardando o seu orgasmo despertar novos gemidos e carícias, enquanto corria eu entre as folhagens da alameda para a porta do ônibus, que não poderia perder. Atenciosamente, gesticulou-me ela do balcão para não largar o troco do mais barato antitérmico adquirido a pretexto de conversas fúteis. Sentamo-nos no último banco. Ela despida cruzou as pernas, ingênua e indiferente, sobre meu colo enquanto eu olhava para trás na esperança do derradeiro adeus. Restava impassível a idiota da farmácia olhando o cachorro urinar, merecidamente, em suas paredes frias. Chegamos ao ponto final aonde nos esperavam o pipoqueiro lançando aos pássaros os piruás não convertidos em pipocas e o chafariz carinhoso fotografado pelos enamorados sentados sob os empuxos. Ao fundo, os sinos da capela vestiam domingo. A moça nua contornou as águas da fonte, brincando, escondendo-se faceira, enquanto a insensatez tomava a direita apontando algo indeterminado, que não veio ao caso.
            Sendo domingo tudo se esclareceu. O bem-te-vi, delicado, tomava as roupas da insensatez, peça por peça, como fica bem nas cerimônias convencionais de encerramento e cobria a menina suavemente. Minhas fantasias puíam-se esgarçadas à medida que a alegria da nudez se vestia de solitude. O sino da capela repicou novas de titia a caminho do além, mas encontrando, apaixonada, o marido canalha, eufórica, rasgara a certidão de divórcio, permitindo-se orgasmos múltiplos, divinos. Da praça do chafariz a farmácia atraiu-me, enquanto esperava o ônibus. A nova atendente, mais bela, não resistiria meus encantos, com certeza. Desnudei-a sob a luz da lua acarinhando a brisa. Domingo fora-se.
Ceflorence  19/03/16         email     cflorence.amabrasil@uol.com.br

terça-feira, 22 de março de 2016

CHUVAS RUAS RASTROS CÃES

            Por razões dos fortuitos, embora trazendo sabores à vida pelas melhores interjeições dos sensos, e só, pois quem debruçasse desatencioso sobre as nuvens salpicadas de azuis, brincando de dúvidas antes de se definirem chuva ou se deixarem ventar, poderia se amofinar. Longas longínquas, mimosas nas diabruras ingênuas de salta-mula brincando e rindo, enevoando nubilosas nuvens fugindo, via-as sem por que Alita. Penduraram-se nos entremeios dos azuis, em danças figuradas, rabiscando desenhos imaginosos de decomposições constantes, foram, voltaram, exibiram-se como só as nuvens sabem anuviar. Jogaram indefinidas, teimosas por serventia e distração, jamais por obediência.  
Foi deste modo, pois futuro só é depois, quando não se quer mais dele senão uns restolhos dos restos desesperançados. Alita nem se interrogava ou afirmava, deixava o desatino correr ajustado no ziguezague do cachorro farejando dúvidas, mordiscando pedaços do enquanto dela no pretérito, no agora e no talvez.  Saltitava pelos cantos indefinidos, sabiá doce de canto triste, corridinha curta, ligeiro no cato dos lambiscos, sem propósito de encerrar devaneio. Fugia passarinho do caminhando de Alita amiudado nos compassos do cachorro interrogativo nos propósitos e manobras caninas de perseguir o indeciso. Ainda podendo, estima Alita vendo instinto animal, no faro, ajustar acordos, acertos, indecisões, focinhando as árvores, fungando os postes ou rosnando duvidoso, para a vida se fazer inacabada e justa.  Não sabia Anita, àquela altura, se conversava consigo ou com o animal, pachorrento de titubeio, cheirando o insolúvel, enquanto ela garimpava fantasias. Perder-se em voltas e andarilhadas cainhas, entre inusitados, era paixão e devaneio e, pelo então, Alita assunta o nada, morde a brisa, espera a probabilidade.
Passava Alita o passado do seu passado, o passado das alegrias ou os passados das interrogações. Andarilhava ligeira, Alita, do presente, canino tortuoso absorto, farejadas urinas, transmudava sem ciência ao futuro incerto. Desenrolava sonhos paridos das moegas das fantasias próprias. Pensamentos vacilam nos entremeios, sempre, de Alita carreando cachorro a esmo, pelas incoerências de ambos. Fim de tarde palmilhava nostalgia por onde o poente fugia nos propósitos de anoitecer.  Não intuía porque, pelos correres das alamedas e ruas dos assobradados, entremeando os furta-cores vários das paredes surdas, que não mentem, saltitava Alita sobre saudades e indecisões. Jamais garimpara ela porque os muros guardam tão sábios e sinceros as confidências que trazem melancolias? Escorria um branco, amoroso e terno, da casa escalavrada pelo tempo e salpicada de angústia, outrora de Delquinho.
 Nos remorsos, melhor, nos retidos da infância, na escola e nas fantasias, se deram os dois aos luxos idiotas, pueris, de se envergonharem ao lerem nas ânsias, nas intimidades e nos olhares disfarçados e fugidios o que sabiam, sem quererem saber. Criança aprende a mentir primeiro para si, depois para os necessários, memorou Alita. O branco dos reboques velhos subia escondido pela saudade, enrolada numa réstia sutil da melancolia, amarrada ao pé da primavera vermelha recuperando o passado para inebriar o presente. Delquinho sumiu. Cachorro farejou fundo as fantasias idas e sidas de Alita, enquanto segurava firme o tronco da primavera para desaguar sereno as realidades diuréticas mornas.
A chuva avisou, choveria contraste pelo solfejo da corruíra, tão logo o poente se ornasse vermelho. As paredes se vestiram de memórias. Alita derramou tristeza, lágrima única. O cachorro urinou solidão. Os telhados chamaram as nuvens. O dia acarinhou a noite. As paredes acompanharam as fantasias, o cão, a melancolia, as memórias e Alita arrastando os idos.    
Ceflorence   06/03/16          email  cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 10 de março de 2016

BUTIM DAS UTOPIAS.
A afetuosa companheira do sociável léscio, Esfrétkio, a elegante e impecável vílkia, Novekia, na natural pujança da beleza invejável, chegou em seu sofisticado argumento, um fluente contraditório, último tipo. Satisfeita estava com a réplica adquirida da Confraria dos Advogados de Defesa Religiosa de Ciências Politicas e Econômicas, escolhida cuidadosamente para interagir com os inexplicáveis terrenos e celestiais. Sob estes alucinatórios, deixaria o caçula, três anos e meio, internado na Academia Superior da Coerência do Absurdo, para concluir a tese de mestrado indicada ao seu perfil psicossocial. Apaixonado pela influência do carismático Visionário Inácio sobre a gravidade equacionada por Newton, interagindo sobre os ventos aleatórios e impondo fortes traços nas inter-relações dos radicalismos fundamentalistas existenciais. Partia ele para realizar seus objetivos de conclusão de tese.
Beijou, Novékia, carinhosamente o infante, querido léscio Junior, intuindo que doravante as nuvens dos incertos assumiriam os destinos do recém-matriculado, marcando-o, provavelmente, com o absolutismo intransigente, sabores medievais da inquisição e atuais do nazismo e do estalinismo. Como boa matriarca vílkia, afetuosa, idealizava que o filho interagisse diferente, livre e descontraído, na simbiose e dialética harmonia do sim com o não, do efêmero com o infinito, do amor com o ódio e deixasse adequar a insofismável beleza dos sonhos com a plasticidade da existência. Só o tempo responderia. O impalpável é mais cruel e o abstrato ficou suspenso pelo futuro incógnito. Junior se absteve dos anseios maternais, mergulhou no infinito do Visionário Inácio, que fizera história com a têmpera dos eleitos, alcançadas só pelos obstinados.  Junior garimpou, nos inexplicáveis, que o destino, único que sabe das injunções dos astros, entupiu o Visionário desde o nascedouro com ervinha cascuda, perigosa, brotada na solidão, para poetas e predestinados; o carisma.



Poucos devem mastigar da alucinógena planta, traiçoeira venenosa, encarnada em sina e soberba, se abusada. De início, Inácio, vacinado foi do carisma paradoxal. Pode andar então sobre as águas, não deixando pedra, trilha, luta sem palmilhar. Arremedou-se um David estremecendo Golias, vários, submetendo-os em tempos justos. Do sal amargo, pobre, mas tenaz, rastejou sobre disputas, Inácio carismático, reencarnando-se já no nordeste árido em um Antônio Conselheiro sebastianista, para salvar o infinito. Junior garimpou: o Visionário cavoucara nos intrincados alfarrábios da pureza, da liderança e da fé para soerguer e carregar as bandeiras da justiça social e distribuição de renda. Os calvários foram clamando devotos obcecados no carisma. Mas aos pés dos fanáticos uivavam, como sempre nestas andanças, os alcoviteiros do vidente, uma matilha de canalhas antecipando o pasto gordo das falcatruas. Os deuses do bem e do mal disputaram suas diversas almas nas lutas, vitórias ou frustrações, mas, acima de tudo, persistência. Das inglórias arranca, pragmático, o sucesso; vidente visa. 
E o fim? O fim, a bacanal ferveu. Remate arremata; calhordas, ladrões comparsas venceram e mancomunados com arrivistas de última hora, de todos os matizes, classes sociais e níveis econômicos, rapinam o que encontram. O butim se instaura eufórico. Os deuses da canalha bailam a céu aberto enquanto o navio vai a pique, sem remédio, sem rumo, sem timoneiro. Os ratos, antigos privilegiados, assistem engradados às tragédias de todos e das suas.  
Os fanáticos sinceros se frustram, fogem em lágrimas. Pequena chusma de dementes retardados assume o encerramento do nada, na base da gandaia e da agressão. Falsos intelectuais falseiam a farsa à farta.  Junior zera a sua decepção e registra, simplesmente: o butim das utopias surrupiou as esperanças e a safadeza devorou o carisma.    
Ceflorence     28/02/16       e-mail  cflorence.amabrasil@uol.com.br

sexta-feira, 4 de março de 2016

ORQUÍDEAS
            Não sei se veio do inconsciente, mais enfurnado, ou do deserto, árido, a mim alheio, mas chegou certa e pontual a única corrosão que esgarça a alma para rever-se, o tempo. Os fatos foram devolvidos um a um, como migalhas desleixadas esquecidas aos pássaros, que imitam as esperanças ao voarem para se perder em inexplicáveis. No entremeio, as saudades tresandavam borboletas fugidias ou, melhor, fantasias brincando de tristeza. Retornei assim ao nada, passo a passo, com a mesma tranquilidade e segurança com que a hipocrisia pare o remorso. Suponho: tais pipas vistosas, vaidosas, soerguendo o vento para exibirem-se mais do alto. Só a solidão sabe garimpar estes indefinidos, devaneios estilhaçados, com certa destreza carente, para separar, na bateia da vida, a angústia dilacerada dos sonhos, que não nasceram, daqueles que gostariam de ser sonhados. Na falta de talvez, fui-me esfarpando envolto em silêncio, antes de propor vomitar os anseios largados sobre a existência. O tempo remoeu-me sem perdão.
Distrai-me com o azul que se despedia para brincar de noite. Sobre a janela do alpendre acompanhei, obcecado, com ternura, uma réstia de formigas. Acreditei no convencional: as formigas nascem, vivem e, dizem, seguem impávidas, indiferentes até a morte, inconscientes dos seus destinos pobres e das sandices de não conseguirem sequer sofrer. Pior, é textualizado, não sentem faltas. Alienadas? Minha ternura galopa suave para a inveja seguindo a fila indiana até o ponto em que elas se recolhiam esprimidas entre um batente podre da janela e o reboque esgarçado. Socorri-me de seus destinos, pobres de formigas miúdas, alienadas, atraídas fervorosas aos batentes podres, e transmudei o paralelo da fileira para o meu imaginário visionário, talvez idiota.
Se conquistasse abnegado escarafunchar pelos meandros da minha angústia, escalavrando enfileirado o que teria nas entranhas obsessivas e confusas das alucinações, como se fosse formiga despretensiosa, os fantasmas inconscientes bailariam sob minha regência e os medos fugiriam apavorados pelos escaninhos da liberdade. A consciência é cruel e não perdoa a credulidade: uma paranoia petulante mordiscou-me os devaneios, com a impunidade do concreto. Ao tentar assegurar-me que não enlouquecera, procurava distinguir se o som que me angustiava seria o horizonte, atraindo-me para cobiçar a tranquilidade com que ele abraçava o ocaso ou se os cachorros do vizinho estariam amofinados pelo gato rajado esgueirando-se soberbo pelos telhados toscos do destino. Sem solução, optei confundir-me em uns emaranhados pessoais, ansiosos e malcriados.  Não sei por que me debruço sobre estes idos, sidos, vividos, intransigentes sempre, hipócritas às vezes? Esta a razão de não acalantar mais o azul de antigamente a que tive direito, sem ter carência. Mas quando careci, careceu. Se houvesse solução mastigaria alegria, desprezaria melancolia e não acariciaria mais a expectativa. Um beija-flor se fez sorriso e pousou sobre a fortuna. Longe das minhas esperanças.
Os dias se foram com a indiferença com que as saudades castigam os fins. Conformar-me-ia? O passado convidou-me para rever as tristezas, a sós. Abrimos meia garrafa de vinho, duas melancolias e um acerto de contas. Trouxe consigo, não esqueço e nem poderia, a última lágrima miúda, escondida, antes de não cair, tremulando entre a ansiedade e a esperança que Lédia carregaria para o jamais. Assim, penduramos um por que no incerto. Não éramos mais, desventurados sucumbimos em fomos.
Acabrunhado restei, parvo, sem definir se a orquídea, sobre a mesa, viera sozinha, se Lédia trouxera ou eu a imaginara. Mas o desespero é que a orquídea se impregnou de passado para me assombrar no presente.
Ceflorence   20/02/16        email   cfloence.amabrasil@uol.com.br