quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

           POR NO GRÁFICO EM DÓ MAIOR COM OUTROS DESAFOROS E ENTROPIAS.

 

Desde sempre, em que gente me fui por sendo, não prospero acompanhar os pensamentos próprios que me infernizam, saltitam. Aferem e pontuam, em vez do explicito, paradoxos pensantes em colcheias dodecafônicas, pererês-sacis como, tresandados e minúcias artimanhas preparadas em alquímicas mentais que se fazem desacopladas, desfeitas ou prematuras, sem que eu entenda o porquê de se darem a se dar. Tudo embola enrolando os ajuntados no voo furtivo mesclado de demências, minhas e em que quando vejo já o era, adeus. Sei que não é fácil entender, pois para mim é impossível, mas no cangote, como de touro xucro, me excita, apavora, fecunda, implode. Quando devaneio neste vento pela popa em brios e solidões, como agora, acordo sim, e já me fui ao orgasmo do indelével sem sentidos e estou pensando o que não queria pensar e não penso o que desejava. Ontem estava eu hoje fantasiando pedir desculpas pelo que não havia cometido e hoje estou matutando e corrigindo a estupidez que ontem cometi de verdade.   

O galopar das minhas imaginações são donas absolutas das estrofes redomonas das prerrogativas do cavaleiro que me pretendo. Sou o que não penso e penso o que não sou. Não ria, ajude-me. Ele, pensar, me dirige, estupra, abusa. E transitam as ideias do meu cosmos emocional caleidoscópico, garimpando detalhes de pepitas fúteis entre sermões ininteligíveis, íntimos, do meu inconsciente fóbico até a esperança de andar nu em Paris ou transcender ao infinito como Monge Cartuxo nos Alpes. É como me descambo em ser um raciocino bruto, sem lapidar, para tentar conseguir esclarecer, sem explicar. Ainda assim sempre perdurou certa dose de petulância por eu pensar que medito o incompreensível do explicável. Impávido idiota, promulgo, prospero, falho sempre. Resta-me, assim, o amém, ermo.

Mentiroso, cínico, um tanto estroina, finjo entender-me e comandar, mas qual o que. Mas isto é detalhe de conversa só com a alma adoidada do fígado meu que nunca escuta as doze badaladas para se desencantar ao ludibriar o caos. Para concluir, não param estes refluxos endiabrados, a título de se dizer pensar, sem começos, mas principiam pelo fim do meu delírio previsto sem sentidos, de preferência por fingir segurança, até sem mais marcas na memória a se fazerem acarinhar, encerrando pelo absurdo predileto que é sonhar acordado, bolinar o inatingível ou mesclar as cores amarelas, azuis e vermelhas que se confundem para sumirem ou brincarem de arco-íris quando agitadas. Desmioladas estas tessituras intimas, dentro destas entropias, põem-me a arrastar para a delícia imponderável ou para o inferno sofrer, onde me perco para sempre nas ideias soltas.

Não atracam, os conceitos, depois de partidos como naus-sem-rumo, sem portos tidos ou tais vezes, para as fantasias que crio, pois transcendem pelas hipérboles imprevisíveis e nem se dão a acostar sequer em algum impenetrável. Tudo então que fique muito claro, para que eu não entenda nada ou continue a chorar. Macon, meu vizinho e parceiro de cachaça, nem ameia há muito o pretérito destas esquizoides inconveniências, acho eu, mas tanto também que nunca desbraguei perguntar. Ele amorfa calado, sem apaziguar mesmo se houvesse uma sutil metamorfose gravida sendo infiltrada em seus desejos carnais e seria capaz de enxamear comigo pelos desnecessários. Calo-me como tanto não escuto, pois não perguntei e assim o advérbio de modo tornou-se peça de antiquário e outras demências afrodisíacas que procrio.

Relembro que estou só falando da reflexão, minha. Mastigo de boca aberta, babando, um pedaço de esperança com dúvida para ver se alguém me acompanha, segue e ou entende como igual. Quem dera. Mas considero que sou normal e outros até me tratam meio assim, ou quase, pois não ouvem meus ruminantes símbolos da cabeça assemelhados a uns pares de roupas velhas que bailam, sem procederes ou rotinas, ficando penduradas em um aleatório inexplicável para eu escutar o som de suas cores sem certeza de que me entenderei comigo antes da alma se despedir. Minto? Para quem? Lógico, só a mim. Azul ou trinca de azes vem à cabeça? Por que? Todos me desconsideram, me engano ao verberar que me faço entender. O além se aproxima covarde e traiçoeiro, sequer percebo ou creio, tanto que a sinfonia se tornou inacabada. Escuto o silêncio, ninguém me concede e nem faz sinal para o desvario parar na primeira volta depois da esquina das paralelas pedindo infinitesimais inacabamentos, sofreguidões, antes do nada e eu saltarmos de mãos dadas no vácuo. Pergunto, místico ou alegre, mas como os verbos são mais indecorosos na voz passiva fica melhor abordar o tema com certa relatividade imponderável quântica. Deus me acuda.

A vida, a que eu não pedi para me enloucar em suas entranhas, é mais voltada ao incompreensível, anotei, e um dia morrerei, mas no momento não dá para descer e andar por outras sarjetas tão tropeçadas ou desconhecidas, pois o inexplicável, ainda mais robusto, virá pela retaguarda para me atropelar sorrindo em delírios e solfejos guturais. Peço socorro ao ser, ao consciente, infinito, ao psiquiatra, à mulher grávida, ao faminto que se desarticula com seu desatino, profecia e obrigação de viver, ao dentista, bem como ao engraxate, plataforma do metrô atopetada, mutirão de angústias, aos desatinos. Estendo ainda o interrogar ao coitado que carrega a compra do que sobrou do salário, à criança que morreu de desinteria no cortiço da rua sem esgoto, para uma vela vermelha de Ogum, acesa para enfeitar a superstição ou a mentira, à boa ou má fé, à dúvida da encruzilhada, pão nosso de cada dia que não sei se ganharei jamais. Chega.

 Estes simbólicos desencantados somem pelas entranhas do meu pensamento com a mesma porosidade com que eu os crio. Não crês? Sofro ou deliro? Escuto, por hábito ou descuido, a fêmea entrar no cio e eu a desejar, mas ela me enxota. Mereço, logo penso, assim insisto ou desisto? Existo ou penso? Puta merda. Pois só sei que o beija-flor e o Pandêncio, casado com a filha do monsenhor, não se preocupam com estas estrofes minimalistas. Um por ser de sina amorosa pescadora ao ver o rio se estreitar para o além, carregar suas fantasias e aquecer as preguiças e o colibri por delicadeza de mascar o imponderável do invisível entre os perfumes abstratos da sutileza. Pois veja, é assim que a mente escapa para o lado mais incisivo do azul e fica encantada com o choro infantil ensinando a mãe a amá-lo para aliviar os seios e não o descartar do Complexo de Édipo e adjacências. Freud deveria ter criado o complexo com adjacências. Nunca entendi, por que não o fez? Isto tudo me veio surdinado, de forma muito inútil para eu tirar o melhor proveito, quando acompanhei um dia em Carepá das Agruras os eventos miúdos escalando as paredes preguiçosas dos casarios centenários vendo os melindres furtivos olhando por trás das janelas que se recusavam a mentir. Conto, reconto, mesmo a tal não chego satisfeito ao definitivo ou ao recado, mas lanço:

Bem assim se foi como deu-se, por não serem santas nem mundanas, embora o azul estivesse em sintonia com o imprevisível dos astros, eram sete as moças casadoiras, lembranças ficaram. A missa fazia-se começar e uma solidão, sem más intenções ou preconceitos religiosos, atravessou a rua subindo no sentido da esperança para encontrar uma senhora pedindo esmola no sopé da escada da Matriz. Não conseguiu ajudá-la, não obstante o sacristão tenha mandado todos se sentarem para compartilharem a solidariedade. As sete moças casadoiras comungaram uma só vez para repor pequenos desejos com os quais iriam infringir a meia virgindade na semana do carnaval. Olhei pela janela e uma mosca mal informada batia-se ao vidro à cata de seu destino entre umas mangas podres caídas ao acaso na calçada fronteira ou morrer no bico de um sabiá, sem metodologia ou preconceito darwinista, tentando seduzi-la.   

Encantei- me com a mosca ansiosa e hesitada em seus dilemas existenciais. Sabia manter as asas delicadamente sincopadas entre uma angústia ainda em formação, bipolar, atazanando o vidro que impedia seus desejos. Ocorreu-me, inclusive, se o vidro teria também tanto o desejo de atazana-la, sadicamente, para tentar uma ejaculação vitral. Metaforicamente esta dialética ocorreu-me no momento, pois trazia como ponto central esta única opção que ofereci e que poderia, fatalmente, sem dúvida, descambar em fatalidade. Como poderia eu dialogar com a exuberância e prepotência do vidro que, indiferente, ironizava a mosca perplexa clamando pelo seu existir em outro abstrato preferido de seu imponderável e futuro.

Mas volto à cabeça idiota para perguntar-me, sem ter resposta, se estes manejos envidraçados do proceder mosqueado entretecido de volteios belos, mas inexplicáveis, estas altivezes melodramáticas da mosca atormentada e atormentando, este vidro prepotente e submisso, são obras reais da criação e da criatura ou desta mente tresloucada que carrego e acredita que existe por que penso, sem me informar se sou a coisa ou o imaginário é que me é? Drama existencial implantado.

Fiz uma análise regressiva de desejos, sublimei dois preconceitos entrosados de linhas lacanianas e kardecistas de um inexplicável passado da complexidade da transferência psicológica e cuja alma, simultaneamente, teve a ousadia de reencarnar como mosca, com a devida perda da memória e das motivações sexuais mais sofisticadas humanoides. Talvez fosse a solução cartesiana mais factível, pois a alma não morre, transmuda de matéria e corpos pelos aléns dos infinitos.

Nisto, o sermão da igreja, voltando ao sopé da escadaria da pedinte, constatou que o demônio fora instruído para ocupar os corpos dos porcos e liberar os loucos para serem aproveitados só mais tarde pela escravidão, pelas cruzes, catecismo, depois pela inquisição e por último pela imprensa livre, a novela e o celular. Voltei a minha existência sadomasoquista, onde a esperança da espiritualização reencarnada da mosca liberta sobre o futuro inexplicável do vidro sádico teria a potência de desestabilizar o infinito, pois eu não teria com que me entreter mais e ficaria deprimido. Como cheguei a este ponto contornando meus delírios, duvidando de meus raciocínios, tomando este café requentado, horroroso, da estação do trem e perguntando; “penso, logo existo, para que existo? Basta, atinei, pensei ou desisti?”

O trem deu sinal de partida e o adeus não conseguiu chegar nas pontas dos pés de uma moça chorando por ......... (a palavra fugiu).  Os moços se enfeitaram de absurdos, o vento pediu aos telhados e aos silêncios um minuto de loucura para o nada se instalar na minha mente à cata de suas entropias. Corri atrás do meu raciocínio que os lixeiros, enganados, jogaram na caçamba do caminhão. Pedi mais uma pinga, que alegria, estou livre, nunca fizeram falta mesmo as ideias atrapalhadas que sempre foram lixos.

Sábado é dia de ........esqueci! Ainda bem. Livre dos compromissos, dos sisos e dos omissos, suicidei-me.

Ceflorence       São Paulo     26/01/21    e-mail   carlos.florence@amabrasil.agr.br   

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

 Por sintonia ao amanhecer que chegando em sustenidos. 


Veio, grito, feio.

Horror.

O ano afastou o  abraço, o laço , o ser, o se ter. 

Asco.


Prudência criou angústia.

A tese ânsia. 

Amorteceu em nós o nós.


Lúcifer cuspiou, colhemos solidão.


Mas o homem cria, crê, cresce.


Mais um dia ou  do amém surge, por alguém ou sim, do talvez, enfim, do além,  por sina ou sorte, a vacina, a rima, o sorriso, o por fim. 


E deste, assim, enfim, revoa e volta  o achego, o afeto,  o traço, o abraço.


De véspera e espera, segue de antemão este então de que nos vejamos muito no ano que se dará de saúde e remissão.


Tudo de melhor a todos os seus.

Até um breve. 

Desejo e sonho.


Carlos Florence

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

 

EMTEMPODEMIA DE CORRUPTELA

 

Doces migalhas e silêncio, ensurdeciam.

Mastigava valsa, falsete, mania.

Vida seguia sonsa, sina, em roda, encima.

Cobriam, os telhados, as casas, as mágoas, águas.

A vila amedrontava-se de em se o tempo não chegasse ou que viesse.

Amarrava-se o paradoxo no abacateiro para alimentar a desconfiança.

Por estar primavera chorava uma garoa triste, modorrenta.

Ao se fazer, fazia, assobiei tico-tico como bolero, mão no bolso.

Subi pela solidão, pelos indefinidos, pelos pensamentos, por mim.

Os caibros velhos dos forros escutaram meu avô, a mim, meu pai, a mais.  

Por se darem tempos amortecidos de sinas, melodias ali morriam.

Sendo sino marcava que o depois iria chegar atrasado pontualmente.

Não tinha o que fazer agora e depois repetiria a tarefa.

Um de cada e eu tiramos a preguiça do jacá da nostalgia.

Era-se mesmo assim espontâneo e serviçal para acalantar o nada.

O pássaro preto subiu pelo pretérito para enxergar o futuro.

Trazia o porvir um igual sendo, um certo receio com sabor de jatevi.

Se colocou a esperança à janela para imitar que chegaria.

As arvores sumiam pelas ruas, vielas, vias, para quem as via.

Lembrei do colo da mãe, chorei, sonhei, sorri.

Ajustei minhas rotinas, pedi o cigarro barato.

Os vinténs se puseram enfumaçados, ordinários.

Urinou o poste apagado no cachorro e a menina surgiu.

Viu, se pôs a rir, mais sete passos, mundo seu, seguiu.

Não devia nada a ninguém ou pediu, pisou no seu desaparecer.

Nada mudava antes d’eu ordenar à tristeza ou ao azul. 

Sábado, cada brisa trazia melancolia e se debruçava no ausente.

As janelas escutavam a imaginação, o sol, as mentiras para serem tomados com café.

Lavei os trapos, apaguei a vela, chorei no leite derramado, dormi um infinito miúdo.

 

Ceflorence   São Paulo 29/10/20     e-mail   carlos.florence@amabrasil.agr.br

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

 RECEITA DE NOSTALGIA COM ALIENAÇÃO CARAMELADA E DELÍRIO.


Que amanheça em bemol, se escute o então, silêncio, o desistir de viver, o entretanto.

Sequer lave a alma com esperança, presente do subjuntivo, resignação ou premunição.

Salpique medo ou sonho. Adjetivos, crianças brincando de amarelinha, agregue logo.

Ponha as ansiedades, sem precaução, e o sol entardecido para desidratarem brandos.

Adicione pitada de fantasia, mais manteiga de garrafa, enquanto atina alterne a nota.

Pela janela entreaberta escute dois cavalos pastando na solidão, sua, com as manias.

O tempo chegou, esparrame entropias pela soleira, descortine o impossível, descreia.

Capte tais inexplicáveis pelo afetivo, esparja com moderação até começarem a sorrir.

Observe o tempo entornar capcioso, triste, como as dúvidas, intrigas e as apreensões.

Do lado do coração há um borralho, da alma, o colibri assiste, da saudade paira névoa.

Mexa os sustenidos, cuidado com o rastro do finito a pedir explicações às suas cismas.

Angustiado amadureça uma penca graúda de imprevisto enquanto nega a melancolia.

Não anote os infinitivos que não rimarem na receita com o tom maior do verbo amar.

São os fortuitos para se começar a desestruturar a sintaxe, o portanto e o tino de será.

Sinta o odor azul das sete andorinhas adentrando pelo amém trazendo a volúpia.

A janela se fecha, os cavalos findam entre os tendo sidos, a noite estrupa o entardecer.

Provoque movimentos pendulares de forma a hipnotizar o nada entre o sim e o ciúme.

É sinal que o desejo intenta parir euforia e a solidão aborta antes da sina magoá-lo.

Não esqueça que a receita de nostalgia embala o ser enquanto o sofrer aguarda o vir.

Procriando, as lamúrias pedem dois caprichos, aplique-as com instigações sensuais.

Confira se as emoções estão exaltadas e deixe fermentar as ilusões de suas fantasias.

Sua metamorfose e transe endoidarão, o subjetivo meandrará às evidências e rimas.

Brotando calmo chega ao ponto, desespero. Grite. Deixe aflorar para que a ânsia seja.

Ponha em fervura até dourar o orgasmo, despreze a censura, avive o imaginário.

Envase no inconsciente, acomode no agora, estraçalhe o passado, acalante no porvir.

Receita de nostalgia com alienação caramelada e delírio, paradoxo de desejo e pecado.


Ceflorence São Paulo - 17/10/20 e-mail carlos.florence@amabrasil.agr.br

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

 

JAMBEIRO AO MORRER DA TARDE

 

Ao lado do jambeiro nunca menti acordado. Por medo, adjunto de verbo ou rima?  

Muro ao lado irresponsável, cabisbaixo, quebrado. Usava eu calça curta, bodoque.

Aprendi a mudar de lugar, desconversar, palpite, ideias, ideias, calar. A par, opor, ater.

Conversava comigo, Deus, a professora, minha mãe, respondia por eles e disfarçava.

Mudava de canto, encanto, a mentira me seguia, pensei que era rei e ela sabia.  

O sol cismava, depois me ouvia silencioso, irrequieto, carinhoso ou medroso, subia.

O carretel rodava na corredeira, dedo no nariz, sujeira, delícia, desfaça, disfarça.

Água, riacho empossava no remorso de não olhar Belinha no azul, desejo, seja.

Pé no chão, cheiro de não sei que, manga madura, brota uma dúvida, duas fogem.

Pro Zeca ela sorriu, sofri, ciumei, senti, puta que o pariu.

Entalava a cisma, brincava de rodamoinho o vento ao vento e levava lembranças.

Cismei não mais ser criança, aprendera a dizer não, fingir tristeza, mentir, soltar pipa.

Assim eram os dias, os tais, os pais, os mais, jamais, centavos, poucos, avós, a voz, eu.

O bem-te-vi gostava de azucrinar enquanto não garoava. Me pus, ele pôs, nós após.

Era, ali ou lá, chorão, na beira do córrego, surdo, não entendia de preguiça ou malícia.

Também não floria, idiota, pendurado no nada, para que servia? Não dizia, escutava?  

Aprendi a mentir, Padre Moca mostrou, quando estava às pressas para porra alguma.

Depois das seis, punheta virava Ave Maria.

Às sete mandava voltar depois, não sei porque, pois era a mesma.

Antes das oito perguntava quantas, tomava dois cálices, breviário a mão e rezava.

Benção, hóstia, limpava o cálice, secava o vinho, mandava embora. Chegara a hora. 

Sem nem perguntar cor, o diapasão se fez em breves, casmurro, colcheias e pasmos.

A professora de música tinha uma bunda enorme, sonora, com solfejo idiota.

Não entendi ao que servia a colcheia, a bunda cheia, o diapasão, não. Só sentia tesão.

O jambeiro nunca esclareceu causas de me afastar enganado e medroso, ao mentir só.

Não tinha má personalidade, nem conhecia a realidade. O jambeiro. Mês, fevereiro.

Não seria eu se não fosse o mundo inteiro ali, ser minha cabeça, ser pomar, ali só, ser.

Me afastava do abacate, lacrimava ele no tronco antes da florada e possuía tristuras.

Anjos não frequentavam o quintal, pois a porta da igreja fechava. Não sobrava medo.

Senti saudades dos olhos de Belinha, barra manteiga, amarelinha, recreio, cria, creio.

Por ser mutante e cantos, a cigarra não concordou, mas gostaria de voltar a casulo.

Aprovei sua cisma, mas Deus a pariu assim e não refez como dantes.

O saiote de Belinha não escondia minha vergonha, nosso desejo, sua calcinha.

 Flagrei-a entre meu sonho, canto, o banheiro, o encanto, ela me sabia candura.

Engracei, vivi ela-eu, canivete, ilusão, risquei coração e lá-ela-eu em sim, traço, tronco.

O jambeiro não desfez e nem desmentiu, deixou o gesto, a mania, fantasia. Gritei.

Canarinho por ser, era, sumiu manso pelo voo que Deus lhe deu. Eu vi.

Meu sonho o seguiu até encontrar a manga madura e eu fiquei no intervalo do nada.

O quintal de manhã escondia a melancolia, meio-dia o colibri voltava.

Antes da escola sentia o perfume do tempo, a preguiça e o gato se escondiam no azul.

Fim de aula, alegria, outras artes, as tardes, longas, o canto do pássaro preto. Belinha.

Medo, boca da noite, baixo da cama olho, nada. Dedo na boca, durmo homem, sumo.

Serei quem no até amanhã. Até Belinha, até então, até minha, terei?

Penso, por que penso? Logo desisto.

 

Ceflorence   01/10/20     e-mail  carlos.florence@amabrasil.agr.br

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

 EM CILÍBRIUM ED TAMUS PARADOXOS.

Cilíbrium, realmente confirmada por estimativas não confiáveis, mas contraditos com dados corretos indiscutíveis, embora não seja sintoma antropofágico ou substância inexata, mas se afigura detectável claramente sem garantia alguma de sua realidade, tanto que se discute a confirmação, se existe, existiu ou existirá. Opera com ou sem desequilíbrio racionalista mitológico para achar o ponto de equilíbrio perfeito do desajuste, determinado sem referência, inseguro quando sob a égide de estabilidade instável eternamente fixa. Memórias ancestrais, consideram alguns, Cilíbrium é sintaxe do cérebro em movimento parado a passos moderados de fuga desesperada, antagônico a si e totalmente seguro no imponderável. Indefinido ou não, conflitivo talvez, mas emocionalmente imutável, com dúvida absoluta nas suas certezas, embora com forte probabilidade de não ter se feito existir como se auto pretendia e sem saber se intentara-se ser ou não ser. Com absoluta exatidão e incerteza corretas reciprocas tudo que temos está claro sem definir para podermos continuar a seguir sem nos movermos. A esquerda de Cilíbrium decodifica mensagens para se tornarem incompreensíveis e a direita as entende antes de não as devolver afim de não serem aproveitadas como o são com completo sucesso sem realização. Sem esta ação, a lógica racional não se metamorfoseia em absurdo e o incompreensível não se transmuda ao encobrir a clareza para dar sentido ao cogito.

Mesmo deixando marcas indeléveis entre o enorme diminuto espaço inexistente, inerente à concretude da existência do nada e a indiscutível inconsistência do real, Cilíbrium enlouquece de forma sã. Ali em Cilíbrium, onde se insubordinam as metáforas e as alamedas gorjeiam fora de época, os pensamentos se despregam da imaginação para brincarem de libélulas e as desilusões são de aquários, pois se desentenderam com a quinta de Beethoven. Neste recanto o ser se faz esconder em ser, por ser e em ser comprovadamente por não ser quando é e sendo ser quando não é. Cilíbrium habita o humano, tanto que descuida cautelosamente em se realizar como amor sem afeto, chantagem com honestidade, navega com tranquilidade da orgulho humilde e usa lixo descartável para irritar o vizinho. Não é por sermos cilibriuminos que teremos condições de saber se somos, vivemos, usamos, estamos ou sofremos Cilibrium.

A escola dos arruados e nas corruptelas, mundo das simplórias e desassossegadas tranquilidades exibidas, denomina este emocional-país-estado-sapiens, dos cilibriuminos, como comezinha cabeça, arrisca nomeá-la de ideia ou extrapola para pensamento, põe uma virgula e vira cachola, concorda de ser mente, quando sofistica e por aí descarece parando de sondagens por necessitar. Sem nenhuma discrepância, salvo opiniões sobre sabores das cores ou aroma dos tatos, a passividade é intoleravelmente agressiva e oscila parada neste segmento. Na borda oposta do mesmo lado, acadêmica, as teorias ontológicas, científicas, filosóficas, poéticas, religiosas, tantas demais e outras, discordam alegremente iradas com as desordens mais regulares possíveis, humilhando Cilíbrium de forma gentil e gloriosa de cogito, consciente, cérebro, alma, inconsciente, talento, razão, espírito, emoção, consciência e chega, pois não para de não parar. As teorias todas concordam dialeticamente que Cilíbrium encanta pelo desapontamento ao se afinar na desarmonia. É como o cérebro se deprime euforicamente para conseguir ser em não sendo na pavorosa beleza da mudança imóvel que acelera de forma celebrumicamente incorreta com perfeição obscura.

Existência histórica grafada em aramaico, colhida entre estoicos, filhas de Ogunxãpé, engraxates e dos sefarditas registra que Cilibrium não acompanhou, mas perseguiu o ser

homem, infernizando a alegria de agredir pacificamente a sua ordem desorganizada sociológica, política e econômica, agredindo as pazes do conflito, seus raciocínios emocionais, desde que o sapiens homo foi se auto inventando, criado pelo sobrenatural, aparentemente no desconhecido do imaginário da natureza mãe que se transforma estacionada, talvez parido em fogo muito forte apagado por Comampari Grande ou brotou espontâneo no recanto paradoxal do azul, já ai nos arrabaldes românticos dos latifúndios poéticos do inexplicável, porém elucidado.

Intuitiva, mas empiricamente não comprovada cientificamente, não há a menor possibilidade de comprovar sua materialidade, pois não paira dúvida da efetividade espiritual, embora seja concreta e sólida sua existência duvidosa, que é fartamente confirmada sem comprovação. Cilíbrium se localiza exatamente onde não está e se situa sempre fora de onde se encontra. Captá-lo é tão fácil como impossível, basta procurar onde não está para acha-lo, pois ele estará aonde não se encontra. É assim que a nossa mente cilibriumínica não enxerga o objeto que estamos vendo permitindo assim revelá-lo em todo o seu momento que desaparece. A gangorra de cima sobe e a de baixo está na hora de fazer xixi. Não é efeito de semântica, mas em Cilíbrium o desconhecido é aparente e a escala dodecafônica só é escutada por quem é surdo.

O comportamento constante da região se fixa no transitório. É lindo este horror do conhecimento dessabido que enevoa as planícies montanhosas dos ventos parados que cavalgam a intranquilidade das pazes sanguinárias tranquilas de Cilibrium. No entanto, tridimensionalmente, sem clareza, mas indiscutível, queiramos ou não, nestas distantes proximidades se desacomodam sossegadamente a subjetividade objetiva, ódio afetivo, açafrão esquizofrênico, édipo natalino, inundação da seca, escargot freudiano, a última ceia inacabada, as demais racionalidades irracionais, incluindo todas as racionalizações do corpo da inexistência existencial.

Filosoficamente se filia Cibrílium à síntese perfeita das escolas materialista cigana com a cabala marxista. Resta confirmar a indispensabilidade deste estado emocional racionalista, pois sabe-se de antemão que é completamente inútil tanto como indispensável em meados do outono quando as jabuticabas brincam de joãozinho-e-maria e as mulheres gordas têm de pensar em como descer para o mais alto das árvores para engordarem até emagrecerem para viverem mortas. Esperamos ter chegado a uma inconclusão final do início, claramente enigmática, sem objetivo específico, e sobre o qual sequer possam pairar dúvidas inacabadas.

Cilíbrium tem o dom de vir a cirandar as mentes nas noites de afago entre Zodíaco e o eufemismo pelos quinhões dos ventos dos imaginários das Lagoas de Cainhanã para quem nunca conversou com Cunhabateê na Roda de Capoeira de Alpequinha e não sabe o que é ser objeto da alegria de escárnio, malícia ingênua, bulling saboroso ou perjuro sincero. Cilíbrium adentra pela parte inacessível, facilmente penetrável com resistência via o a rota sem caminho mais frágil intransponível da moleza intransponível da mente atenciosamente distraída e tem o dom de reverter desde o dessabor da paz da tormenta alegre até o vazio preenchido do raciocínio ilógico brilhante. Os Camafeus de Alcodon se comprazem em subir ao mais alto ponto de onde não descem para então atingirem as maiores alturas mínimas de Cibrílium.

Não se sabe se habitamos Cilíbrium ou Cilíbrium nos habita. A única certeza absoluta que transcorre parada em Cilíbrium é a garantia total de que a incerteza é a convicção mais certa, mas com todas as dúvidas. Acordamos em alfa, a frieira da orelha esquerda que tropicara sobre o nada irregular e ondulado plano sentiu vontade de ir à missa ou a luta de classe. O

cachorro miou para esclarecer detalhes sobre psicanálise ou o se o amendoim poderia ser prejudicial ao bem estar para se gratificar em sentir mal. Não houve mais nenhuma confusão ou tranquilidade, pois Cilíbrium expos com sua calma atabalhoada usual que a dentadura do estomago da defunta fora doada a instituição de aprendizagem para as crianças desprotegidas prestes a serem recuperadas para o tráfego de drogas do Padre Armaco.

Seria muito bem um treze de setembro honestamente larápio se a nuvem que passou mais cedo pedindo para todos gritarem calados - Silêncio ou Caramba – não tivesse descido ao subir pelo conhecido sem clareza de Cilíbrium, destroçando deliciosamente o meu cérebro apavorado na tranquilidade. Não deveria ter acordado para escutar o barulho da mudez ensurdecedora do pensar neste amanhecer que ocorrerá amanhã na noite de ontem.

Ceflorence São Paulo 13/09/20 e-mail carlos.florence@amabrasil.agr.br

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

 

SETE SEMÂNTICAS E SEUS CONTRASTES.               

Por onde começar? Era, recordo, véspera de malhação sabatina de Judas e estava precavido, pois no ano anterior fui surpreendido com a vizinha pendurando suas calcinhas na janela do cortiço para me provocar e as crianças quiseram me envolver no contexto. Descrevo sem subterfúgios os acontecidos, pois prefiro não reconsiderar a minha coerência lógica, mas explicá-la a quem tem dificuldade na assimilação. Talvez expondo com métrica e pronunciando acentuadamente as proparoxítonas as hipóteses das metáforas fiquem mais objetivas para vosmecê. Confesso, sem pejo, que a memória poderá falhar em alguns pontos por aceitar, sem precaução, como testemunhas duas falcatruas lésbicas e um artefato hipócrita desconhecido. Mas não alteram os pontos nevrálgicos e vamos objetivamente aos fatos que me obrigaram a rever se existiria sentido pragmático entre as ambivalências de concordar, isoladamente, com o projeto de incentivo à pesquisa para a aceleração da menopausa precoce ou optar pelo imperativo lúdico de desfrutar, com prudência, dos milagres minimalistas das orações gregorianas.

A academia não se pronunciou, em tese, pois houve um ponto especifico de inflexão sem que o jasmim, com tendência homofóbica, se declarasse comprometido com o porvir. Pelo ritmo da apoteose poderia surgir um fato novo ou seria a confirmação dos resultados práticos do que me empenhara há muito que se esclareceriam só com o tempo? Explico melhor, isto é, sequenciaria o contraditório da teoria da insuficiência da fé para conter o efeito das marés montantes no aleitamento do capricórnio ou garantiria, no sentido realmente tautológico, a probabilidade da certeza de ganhos permanentes em jogos de azar? Esclarecido ponhamo-nos a caminho.

 Embora de formas não heterodoxas eram estes os pensamentos que me acossavam durante o período que deixei a porta da Igreja do Barroquinho de Ancalás, andando pela Alameda da Vergália, até atravessar o Viaduto Urcão do Redentor. A alma de Zeferão da Zinca, que desencarnara com uma navalhada do capoeira Quebaldo Ruca no último outono, fez questão de me acompanhar até a porta do Grupo escolar Professor Tamberte. Ali constatei, sem dúvida, que a solução fora inconclusiva, como salientei, razão das crianças do jardim da infância se desajustarem alegremente, incorporarem Netuno e passarem a brincar de Santa Ceia e Pilatos. Lembrei que Rauâ, meu guru, não pontificara sobre estas hipérboles. Determinou ele não ser parte das gêneses de suas preocupações sobre o futuro, tanto como a megalomania e muito menos pontos aderentes ao Protocolo dos Sábios do Sião, que não o haviam comovido de forma alguma.

Neste sentido meu profeta reconfirmou estar em alfa, sem perspectivas de definir valores morais sobre métodos contra conceptivos para os gambás, frise-se, indiferentes, e pensando em retornar aos estudos de sânscrito como inspiração espiritual para a profilaxia da pesca não predatória. Sendo terreno espiritual conflitivo, entre a esquizofrenia e a previsibilidade dos tarôs para estimar a colheita de fantasias das ninfas de Albadén, optou ele por transferir o protocolo para uma Igreja Pentecostal Maronita e usar escalas jônicas nas suas partituras.

Mereceríamos repouso depois deste estafante trabalho de análise transacional. Meditei com toda prudência, embora constatando certo sentimento paranoico que a lagartixa do teto esquerdo da latrina imunda do Cortiço do Mandega, onde morava então, estivera, irritantemente, a me espionar, de forma agressiva, com ares de quem exigia certezas e valores absolutos sobre as interrogações canônicas dos milagres do Beato Alcadim e a garantia de que a imprevisibilidade crônica das tonalidades furta-cores do fim do veranico fossem poupadas do aborto obrigatório estatal. Precisaria frieza, sem entrar no mérito da questão, para resolver a equação imposta pela circunstância.

No hiato dei-me ao direito de decidir, convicto, que entre uma samambaia, ainda que imatura nos seus valores emocionais e um colibri a cirandar pela janela das minhas fantasias, por mim escancaradas para ele sugar as ansiedades e poupar os deleites, a melhor opção seria tangenciar a inclinação emocional da lua, àquela hora se desfazendo elegante entre duas nuvens caladas e a minha desilusão. Conclui que as propostas não se contradiriam, tanto que uma delicada fase rosada dos reflexos dos meus pensamentos sobre o espelho quebrado da parede sem reboque transcorreu suave, aguardando a brisa mansa regar meus sonhos.

Poderia vestir o pijama e dar-me ao direito do repouso depois destas exaustivas apreciações criteriosas sobre o imprevisível. No entanto escutei nítida, indiscutível, a insinuação irônica da luz forte de uma teoria materialista sobre a evolução das espécies. Esta, de forma pragmática, reluziu ainda mesmo sem ter tido oportunidade de menstruar pela tenra idade, sentar-se dialeticamente sob o cavaco de primeira linha do vizinho músico e expressar-se com um poema educado, suave, impúbere, procurando não uma solução do problema dodecafônico, mas, nas circunstâncias, optou pela paixão da sílfide da escala de fá. Desta forma o tempo propiciaria a procria de colcheias em bemóis e sustenidos em semicolcheias, além das pausas. O sonho seria, de ambos, somente ordenharem as libélulas e os arco-íris para amamentarem as adoradas criações.     

Não sucumbira eu até então, malgrado as incertezas. Descobri, incontinente, a partir daquele momento, que comandava o universo somente com meu equilíbrio emocional e o raciocínio lógico. Transmudava as suposições obedientes entrecortadas a meu bel prazer em formas longitudinais, provérbios instigantes, melodias irrefutáveis. Obrigava, altivo e senhorial, os movimentos calados a se transformarem em objetos e estes eu os estilhaçava em simples efeitos sonoros, desconsiderando, por último, interpretá-los, eu mesmo travestido em saltimbanco, em seus papeis de despedaçados remorsos humilhados de nada. Sentia a gloria beijar meus testículos como o fazem os colibris em suas fainas singelas.

Por fim, eu esculpia meticulosamente, a partir do fundo subjetivo das minhas elucubrações, eloquente eu, sempre auto centrado e só, como comandava a minha superioridade, e endeusava os restantes dos nadas, obedientes e inúteis, com os quais embalava as sensuais gotículas de orvalho descendo pela janela para refletir os afagos doces com que as minhas fantasias acarinhavam o próprio ego em seus seios maternais. Neste exato ponto do enredo, que eu compusera em minha euforia, senti a presença de Édipo passeando altivo e vingativo em meus meandros como se fosse mestre sala do inconsciente ou menestrel vegetariano.   

Se compensavam as suposições entre o instinto de maternidade e o arraigado espírito ontológico de prevaricação da classe abastada. Com estas colocações esclarecidas restaria encerrar a pauta evitando a prolixidade. Não havia realmente mais nenhuma dúvida oscilando entre as metáforas e as figuras de sintaxe, esperando-me depois daquela vírgula inútil antes do final do parágrafo. Era claramente visível, a intenção desta pontuação atrevida, como se tivesse a intenção de sujeitar-me à mesquinhez de alguma parábola ou propensa a convencer-me de que a aceitação do resultado do exame psiquiátrico me traria mais sentido pragmático.

Meu raciocínio, além de brilhante, era perfeito, assim conclui modestamente. Rememorei todos os detalhes. Volto aos fatos, para aclarar os acontecidos. Confirmo com saudades, como assistia enternecido, que há anos descia uma simbiose, em formação ainda, de melancolia com pé-de-moleque do outeiro de Rantaso, sempre que esta situação se plasmava. Era um alerta a figura da simbiose. Com isto posto, automaticamente, uma pétala fugidia do arco-íris se acomodava na parede da varanda onde o sol vinha descansar ao meu lado. Ali cantava o astro chamando a brisa para embalá-lo antes de se retirar para o poente. Eu o ouvia cerimonioso, sem interferir, nas suas cantilenas gostosas, longas, para não o perturbar.

Lembrei-me, isto é fundamental no contexto, que possuía ainda a mesma caneta Parker que fora de Jongoinho, meu avô. Por temperamento ou tradição estava a Parker relutante em anotar o que eu ordenava, mas os fonemas se comportavam dóceis e convencidos da necessidade de ocuparem os espaços vazios, ortogonais, disponíveis entre a indecisão das orientações metódicas que eu lhes impunha e um preconceito de gênero que atravessava o zodíaco sem solucionar suas incertezas psíquicas. O vão entre a demanda de carinho e a indefinição sobre a síntese metódica do pecado original foi suficientemente intransigente a ponto de propor-me conceitos conflituosos. Na dúvida não rejeitei nem considerei que o azul seria a cor preferida para ir a quermesse de Santa Ruíta. Sabia e, modestamente, aproveitei todos os conflitos, impondo-me penitências sucessivas para suportar metodicamente vários pleonasmos arrogantes e intransigentes durante a quaresma que se seguiu. A Parker foi extremamente compreensível neste período exaustivo. Não sei se me fiz claro, embora ela tenha desaparecido.

Não desisti, mesmo tendo seguido com olhar cativo o beija-flor à janela ao desviar-se da primeira camélia que se ofereceu, até ver nitidamente o vitral da sala ser cortado por uma cigarra ofegante pedindo para ser aproveitada como soneto alexandrino. Caso não ocorresse esta metamorfose monocromática, pediria eu ao Cônego Vicatinho escusas por não participar da comunhão dos abstêmios da sétima ceia na catedral em louvor ao imponderável. Mudei de espaço psicossomático e retornei ao Bar do Rigado onde o garçom limpou o silêncio, esclareceu que o tempo era uma questão de ponto de vista, metamorfoseou um subterfúgio em dó sustenido, fantasiou usar seu melhor pigarro para ser convincente ou trocaria as incertezas de que dispusera até então para confundir o futuro. Não me permitiu escolher entre um salmão sem tempero e uma moça vistosa que se sentou à mesa em frente ao caixa, com um decote delicado e atraente.

A partir deste instante não consegui atinar com alguns dos detalhes que me impuseram as circunstâncias. Não entendi porque o policial armado entrou pelas portas do fundo enquanto sua companheira, saindo de uma ambulância, moça até educada, ofereceu-me a camisa branca com tiras sobrando e que adoravam se entrelaçar dos meus quadris às costas, apalparem meus mamilos, beijarem-me até o pescoço. Gritei independência ou morte em homenagem a Tiradentes, pois me senti um ícone de mãos atadas, lindo como peça descomposta em pedra sabão pelo Aleijadinho nos outeiros das Gerais.

Me pus calmamente em tormentas e adjacências desmerecidas. Imagine eu, com o meu acervo intelectual e artístico de saltimbanco consagrado, poeta, instrutor de marimba e filho de Ogun Lele.  naquela postura de irreverência junto ao público que continuava sendo devorado pelos seus apetites incontidos, pratos circulando, garçons gritando, apogeu do destempero. Mas enfim dos males o menor, fez-se e faz-se o tempo. Daqui escrevo, este santuário de solidão, pois ouço agora, muito compreensível, só a angústia desta pobre jabuticabeira ao meu lado, que reservou em particulares sussurros a mim, a pouco, que não tem ideia do que fizeram com o mamoeiro geneticamente modificado, que a acompanhava apaixonado e de mãos dadas nos passeios das manhãs.

Acredita ela, agoniada, que uma ONG ambientalista o sequestrou. Escutei-a chorar, por último, enquanto a moça de branco e mandante, ciumenta da jabuticabeira que me acarinhava e apetecia, puxava-me pelas mãos e sugerindo a tomar pílula de sonhos ou dos delírios.

 

Ceflorence     01/09/20 -   E-mail:  carlos.florence@amabrasil.agr.br