quinta-feira, 19 de maio de 2016

DOS DESTEMPEROS E DESASSOMBROS
            Sabia e sabia de tal qual chover, o tempo destemperado, mercês das pragas desaforadas dos desacordos entre deus e o adágio, segundo o evangelho de satanás, que o mundo se derretia em voçorocas graúdas, a lama se perdia nas enxurradas grossas, carreadas para o Tapajoára, cortador rio dos cerrados, das rimas, dos poemas e das saudades. O vento intendia, ouriçado, de desmanchar o intuito dos passarinhos cantarem para des-brincarem de silêncio. Do jeito dos andados, até o mar, na foz da boca do Tabajoára, viraria brejão dos infinitos, para atolar veleiro, saracura, inveja e carroça, segundo Jatobinho Pescador, quando lançava a rede certeira e ela engastalhava nas quiçaças. E na fartura d¹água tanta não remediava pedir provimentos aos aléns, acender vela, medir encarrilhada dúzia e tostão  de reza preventivas, das repetidas por Vó Geninha Romão. Benéficas preces serviçais e cumpridoras nas tarefas de estancar corisco eriçado. Menos progredia proveitoso atiçar sal grosso na taipa do braseiro, enrolado em melão seco de são-joão, bento na certeza da fé cumprida, desde Ramos, pendurado para resguardo das intempéries no fumeiro e amarrado por embira de taboa da Lagoinha do Pererê para esfumaçar exu gonzo, nas ajudas de des-chuvar, como definia carinhosa e beata Babá Miombá do Apucaré.
Insolúvel de ajustar, o chão apodrecia sem sustento de parar em pé quem destemia andarilhar calçado nas bibocas encharcadas. Só dedão graúdo encravado, curto, no sovaco do barro, aprumava postura. Assim mesmo no palmilhado de jaboti curioso e cuidado de cobra no cio. No tormento, se punham os povos, única querência de atiçar fora das casas, por compra de muita carência faltada, comida, pinga, fumo, farmácia do Tio Zefato, reza na capela, se promessa vencida, ou pagar pensão da manteúda na zona, antes que a moça viesse buscar em lugares inconvenientes. E sabia tanta água, que Clotário Romão desaturdia entre amaldiçoar o tempo ou pedir ajuda aos santos já desacorçoados de tantos préstimos. Acabrunhava perdão, tudo, e corria enxurrada no ponto justo de esconder atrás do silêncio o canto da seriema campeando o parceiro na capoeira; triste encanto, seriema e canto, se sumiam no infinito; “oh-deus acuda”, mas nem isto se dava de amparar das tempestades. Verão quente, bravo, voltava nas comparações, como há muito não se dizia ter sido em Pouso do Cariampó. Pois foi e era. De tanta borraceira, agrura, calor, solidão, as brotoejas avermelhavam, alargavam inchadas, parindo medo de a pele desamarrar do corpo e o vento arrastá-la na lama. Nunca Tio Zefato, boticário, vendera tanto emplastro, Mezinha Santa Pia, em sua vida. As lamúrias eram desfeitas e mostradas, às claras, nas missas, nas bodegas resmungando angústia e mágoa. Trocavam-se assim, no varejo, por moeda de bom metal e ao par, lamentos por minuto de ouvido e atenção disponíveis. O propósito consolava e despercebia por uns esquecimentos de dias, até voltar e a vida, retomar desajustada. Coçar as perebas escalavrava, como se urtiga fosse e tivesse roçado no despropósito, desprevenido.
Se fez, fazia, foi, contadinho como se pôs. As ânsias lacrimavam os olhos, derrubando gotas grossas sobre o barro. Então a amargura gorda, desconjurada, entranhava no barro chorado, fundia bolotas que as águas não derretiam. Festa, a gurizada fartava no gude, no estilingue, nas patas dos cavalos tropicando nas pelotas jogadas nos propósitos. No indefinido, os passarinhos, pombas e gambás, sem terem nem mais onde alongar da umidade, enfurnavam pelas chaminés, aninhando mesmo por ali. Só bambu comprido, com querosene, creolina e pó-de-mico, enfiado pelos buracos para enxotá-los e assim os ninhos entupindo não enfumaçarem as casas. Nas vielas da corruptela, então, algazarras, risadas e deboches, depois dos tombos das montarias, dos que se diziam peões, tropicando nas pelotas arredondadas, de lama e lágrimas, lançadas pela criançada.
Católicos só saiam à rua com terço ou breviário, protestantes com quitação dos dízimos, devotos de Oxum com arrudas preventivas nas orelhas. Agnósticos indefinidos, palitando dúvidas eternas, purgavam, por seguro e medo preventivo, portando, disfarçados, uma figa, um amuleto e, na falta, quebranto dos despropositados, escrito no avesso da folha dobrada de sucupira, por Mãezinha do Cajimó, acatada benzedeira e vidente, conhecida rio acima e rio abaixo, pelas margens então vazando grossas do Tapajoára, roncando enchente. Acanhado, era o perfil moroso do rio, escorrendo mole e quieto para beijar o mar e carregando, pesado, as saudades dos agarrados às tristezas de Cariampó. Os aficionados dos indefinidos garantiam ser de soberba valia, na porventura, as mandingas promitentes de Mãezinha.
Clotário ouviu do canto da coruja estalar o teto e despencar ninhos das pombas com seus filhotes e piolhos sobre a taipa amargurada. Os fantasmas dos Romão amarrados pelas teias de aranhas se desprenderam dos forros do sobrado e das angústias de Clotário e se puseram ao léu vendo dois centenários de conflitos rolarem pelas enxurradas. ( Parte de algo a mais em gestação)  

Ceflorence  11/05/16    email    cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Pouso de Cariampó
 Muito repetido, sempre, a morte de Adalpígio Romão se deu durante baile e em disputa por uma cigana, dita romena de nascença e manejo, quinze anos, trazida em euforias medievas, pompas requintadas e bem instruídas, para provocar ansiedades em Pouso de Cariampó. Despertou destraves respeitosos devidos por se dispor, a moça, tímida, subir as águas mansas do Tabajoára, rio dos poemas e das rimas, desde a foz em Botiguará-Mirim, e chegar ao destino cavalgando potro marchador, arreado para andar menina, de banda só, em silhão cravejado de invejas. E tudo nos propósitos para preservar virgindade da vaza de baixo e de beijo na boca, de cima, como prometia Zulvira, respeitada cafetina. A prenda despertou disputas e invejas das águas do Tapajoára, às serras do Quebra Cangalha.
A primeira noite de anseios teria de ser memorável para atrair pretendentes e finalizar com o zangão das euforias. Na vastidão do cerrado, o mimo se deu conta e o vento esparramou boatos para ninguém deixar de vir ao baile arvorado de encantos, para o acasalamento da defloração, com dueto singelo de pianola e violino. A bebida dobrou de preço, aumentaram os lampiões, provocando, incitando, ostentando desejos, luxúrias. O bacará do pôquer, jogatina tramada no imaginário fértil de Zulvira, para a noite de núpcias, abriu esquentado com mais de setenta apregoados. Mas nada como o tempo para sanar os propósitos. A tertúlia das apostas foi descarnando raso, pelas bordas sociais e financeiras, os menos providos e prevenidos, na proporção que o arremate alçava e o sonho evaporava.
Na rinha das oferendas só profissional de paixão e abastança ficou no rolar das apostas. O baralho murmurava baixo e os repiques falavam alto. Derradeiro, no tablado para os chamegos ciganos, virgem, sobrou, além de Adalpígio, o Capitão Pelário Caveta Sobros, impecável, ostentando sua farda nova, encomendada para o momento. Linho azul marinho importado, lapelas douradas bordadas, capricho indiscutível, imponente e sisudo, apalpando o bigode e os cabelos engomados. A gala ousada se justificava para ostentar a patente de capitão da guarda nacional de pronto adquirida da recente república revolucionária proclamada em substituição à monarquia decadente deposta e a extinção do trabalho escravo. Veio o último lance, madrugada, duas horas. O Capitão, impecável, altivo e seguro, recebeu a carta para fechar seu jogo, exposta por Zulvira, firme e insinuante na boleia dos acontecimentos; requintes, suspenses, interjeições. Do outro lado, como fazia sempre nos arriscados, fosse de baralho, roleta, carreiras de cavalos ou brigas de galos, Adalpígio estirou os regaços dos anseios, pediu prudência a si mesmo, escutou os palpites e as juras das certezas e das dúvidas insinuadas nas beiradas transparentes da lua crescente. Ali nunca mariscou mentira da parceira mimosa, “lua, lua ilumine”. Consultou solidão, Adalpígio, com a vista dispersa ainda no cosmos e na porventura. Indeciso, sem premonitório, cuspiu de lado e se deu por indeterminado de procedência. Amealhou, de soslaio, tocaiado no portanto preferido, lado que conversava com o além, lambeu fé no desaforo do destino, devaneou confiança nos astros, beijou o crucifixo que a mulher lhe dera na quermesse de São Jerônimo, padroeiro de sua família e em nome de quem foi crismado muito fervoroso. Coçou os testículos com a canhota, por ser sexta feira das almas sem ventura, assobiou um minueto improvisado em ré menor e, quando ameaçou postura de comandar vir carta, achou melhor prudência de pedir tempo para urinar e, no incisivo de destravar solução, saiu. No pé do maracujá, bonito, desaguou longo, como carecia o imaginário e a atenção. O maracujá, amigo de muitas luas, aquiesceu da demanda, derrubou manhoso sobre o ombro de Adalpigio a última flor desabrochada, roxa, brincando de ir se branqueando nas pontas. Era a vaza que Adalpígio esperava. Mordeu firme o cabo do maracujá, flor, riu deboche, boca travada na oferta. O fado assentara destino, sem torneios ou dúvidas, poderia mandar derrubar a derradeira carta, os deuses o lambiam. Caiu exatamente a certa, o naipe perfeito, a rainha antevista por Adalpígio e necessária para emparelhar com a cigana dos sonhos, das virgens, dos amores. Zulvira, condizente com a madrugada se fazendo, gritou solução de fim, de cansaço, de repouso. Adalpígio olhou primeiro o Capitão, impecável, no ódio, em seu uniforme da guarda nacional, de gala. Depois amadrinhou as vistas para a prenda com a gratidão da lua, das estrelas, do maracujá, da flor, dos imponderáveis, que nunca o abandonaram. O Capitão, impecável, pediu licença, respeitoso, à Zulvira, tirou a pistola da cinta e desferiu dois tiros no peito do adversário. Calmo e solene o Capitão, impecável, manifestou-se categórico: “Você ganha no baralho, na rinha, na carreira, mas esta cigana, virgem, você não deflorará, filho da puta”. A flor de maracujá, caída dos lábios de Adalpígio, agarrou-lhe um pedaço da alma, debruçou-se sobre o desespero, pediu licença ao vento, que subia chorando pelas margens do Tapajoára, e nele velejou destino da sua angústia florida rumo ao desconhecido. Os cães começam a uivar.
Ceflorence     01/05/16       email  cflorence.amabrasil@uol.com.br

sexta-feira, 6 de maio de 2016

SACRALIZAÇÃO DO NADA
            Entre o antes e o depois existe um robusto nada. Sem dúvida alimentam-se teorias discordantes, embora poucas, as quais, em respeito às atenções que merecem, levaremos em consideração nos pontos chaves e mais críticos no momento correto. Registro, entretanto, por oportuno, neste nada de instante que já passou, portanto virou mais um histórico nada, que tentarei fazê-lo, rapidamente, antes que o desconfiado vigia do sanatório, que sempre me olha de soslaio tão logo tomo papel e lápis, venha atrapalhar e destrua este raciocínio brilhante e objetivo em curso. Isto prevenirá que a esquizofrenia galopante neste nada de liberdade nadifique mais este saudável nada em processo construtivo.
O intervalo que separa o passado e o futuro é exatamente proporcional ao espaço entre as infinitas divisões de inúmeros desejos livres e ejaculados na esperança de se reverterem em realidades e as perenes frustrações esvanecendo em nadas nos segundos seguintes. Se isto não é carregado de um dos mais tradicionais e respeitáveis nada que conhecemos, realmente necessitamos de uma revisão analítica sobre nossos valores, se não morais, no mínimo psicológicos. Este enorme vazio que o nada ocupa na existência é tratado de forma inversamente proporcional à importância que mereceria. Em total apoio ao nada, há proposta de compacta frente de luta para a sua louvação, com sede, CNPJ, sem fins lucrativos e participativos cerimoniais de oblação. Há inscrições abertas para o generoso dízimo, embora nada respeitável.
O agora, segundo estudiosos, é um desfigurado melancólico nada entre o que acabou e o que vai acontecer. Ou este agora já foi ou ainda não é. Novamente é o substancioso nada ocupando o seu merecido espaço. Não podemos deixar criar crise existencial sobre a eminência do nada. A trincheira de defesa nadiana tem de ser inexpugnável. Um dos mais reconhecidos pensadores contemporâneos, colocou, com sabor, de forma arguta, que quando se encontra alguém ou algo, após longa busca sobre os vários nadas, é exatamente sobre a imensidão destes nadas que o fato resplandece. Se não houvessem os nadas contrapondo os seres, os existentes que nos afetam, os acasos se atropelariam em caos. O espaço concreto entre o sim e o não é este nosso indispensável nada. O maestro e o compositor, se não harmonizassem sobre indispensáveis pausas, ou seja, os nadas sonoros, não fariam melodias, mas ruídos. Esmiucemos, ao imprevisto dos ventos, que espojam livres dos vazios distantes até os nadas infinitos, para garimparmos novos saborosos nadas do cotidiano.
A saudade é exatamente o nada muito vazio que, por mais que o poeta enfeite corrói manso como bica seca sem nadica de água, na porta fechada da casa deixada sem nada pela mulher querida, depois da caminhada longa pela imensidão do nada. É o nada em solidão. E a danada da angústia é de novo a mesma filha caçula do nadinha, amamentada de tristeza nos ocos faltados ou faltantes, sem acalantos, com as fantasias estilhaçadas nos desvãos dos inexplicáveis nadas. Não fale do desejo, nadão de nada, morando a beira da nostalgia, que se estabelece com nada de cerimônia, casa, comida e roupa lavada. Não diz adeus e inverna junto com a ansiedade traiçoeira, calhorda, amarga como nada, engole o azul e o desespero do nada se acomoda como chinelos velhos assombrando pelas escadas rangendo com os nadas arrastados pelos degraus.    
Longe de entrar em discussões acadêmicas, mas tendo de recorrer a posições concretas, devemos considerar que de certa forma o nada já foi manipulado por hábeis herdeiros dos sofistas. O que é o pecado senão o nada da virtude. É parente de parede de meia das conclusões finais sobre ética e humanismo entre judeus e palestinos ortodoxos, isto é, nada. A discórdia é o nada explicito do ódio, é o nada de amor, é o nada do senso, é a demência evidente. Este quiproquó enaltece o fanatismo em nome do nada, explodem-se bombas reais abrindo-se enormes nadas em saudações à morte. A exuberância do nada, o nada mais radical e compacto é a morte. A morte sintetiza o nada absoluto, simultaneamente é arrogância, esplendor e solução.  Paradoxo das feridas abertas para os nadas.
Chega de lamentações, nada de lamúrias. Vamos ao nada objetivo, construtivo e forte. Ao nada em botão porque ainda é nada de flor e que é nada ainda porque ainda será quando for. Entre tantos nadas, proponho brinde ao nada antes que este enfermeiro louco, nada afável, do sanatório, me coloque a camisa de força e me deixe sem nada de opção.
Ceflorence                 email  cflorence.amabrasil@uol.com.br

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Criação Em Ré Sustenido

Iniciando, é fundamental registrar que os competentes Astrólogos e Teólogos, da Sociedade dos Abandonados por Todos os Santos, Congregação Sectária das Irmanadas Confrarias dos Astronautas Aposentados, dos Presos de Segurança Máxima e das Carpideiras Sinceras, em Concílio recente e memorável, deixaram vazar relíquias antropológicas, sobre a tradicional civilização de Tremom, na região de Bercatium, onde se desenvolveu a cultura Hespônsica, dos primeiros bípedes, semi aculturados,  ainda relativamente primitivos, de uma etnia atávica já consciente e que, apesar do uso do fogo, caminhavam na diagonal, em função do estrabismo hereditário e da intensa e única dieta baseada em caranguejos e outros crustáceos. Jamais se elucidou se eram estrábicos por caminharem na diagonal, atrás dos caranguejos, ou se só se alimentavam dos mesmos pelo estrabismo. Em seu rude primitivismo, jamais utilizaram os indispensáveis e modernos conhecimentos da hipocrisia, do engodo e da malícia.

Não há qualquer dúvida, no entanto, de que no dia azul marinho, do mês da parca semeadura, do ano da fome forte e das disputas infindáveis, introduziu-se o código de Artépios, descendente  de Kartona, Deusa criadora do universo, o qual, depois de um reinado conturbado, mas duradouro, foi enterrado embalsamado entre lírios de conduta duvidosa e ao sabor de seitas cabalísticas, na ala norte dos adoradores de Sermisium. A  nós devotos, é fundamental saber que acompanharam o soberano, os cantos, as profecias e as poesias premonitórias Creônicas para  traçarem  os destinos dos recém nascidos, Semi Deuses, Átora, Atora  e Atorá.

Estes predestinados, ao receberem seus polos de destino, caminharam envoltos em mansos vendavais de alegria, rumaram suaves, com remos competentes e braços fortes, em direções desconhecidas e muitas vezes  contraditórias, mas embalados por valores e afagos puros e cantos brandos.
Chegaram ao limite do consciente ameno, apoderaram-se de volume suficiente de estrutura compatível com o disponibilizado, dentro das suas ambições e metas, para dividirem, com os criadores de paradoxos, os  ensinamentos da euforia cerimoniosa e dos pontos extremos da dúvida.
Podemos com esta rápida varredura sobre o histórico, atestar que as premonições se confirmariam textualmente. A realidade traçada para o futuro obscuro, que as vezes irreverentes pecadores ousam destruir, seguiriam rigorosamente as métricas inflexíveis das rimas dos astros e as fantasias descritas nos cerimoniais fúnebres.
Eliminando habilmente as incoerências, os Semi Deuses constataram que haviam restado, após milênios, somente três crenças, seguidas pelos canalhas, pelos caolhos e pelos calhordas, e porque não dizê-lo, pelos demais, a saber: a psicanálise, idolatrada pelos discípulos das interrogações insolúveis e permanentes, o materialismo histórico, adorado pelos criadores dos projetos inviáveis e, por último, o mercado, endeusado pelos futurólogos e justificadores dos erros pretéritos.
As demais seitas, até tradicionais, passaram a atuar mais em áreas da prestidigitação, da magia, e com muita eficiência nas finanças.
Cumprindo os mandamentos proféticos, Átora, Atora e Atorá, encontraram-se, pelos caminhos da fortuna, exatamente no lugar em que O Todo Poderoso, extasiou-se ao infinito, dando o melhor de si e caprichando no fino acabamento daquilo que acabara de concluir com muito amor. Comovido com a beleza da natureza que criara, chorou de alegria, derramando ali uma única e afetiva lágrima a qual se transformou no perene Carioca, rio idealizado e fantasiado por ele, com ternura.
Assim, a Trindade, ungida pelo destino de criar uma só e abençoada liturgia, prepara, com afeto, o porvir, respeitando rigorosamente as cerimônias proféticas que lhes foram determinadas.
Para tanto, procuraram, cuidadosamente, uma carinhosa fé, enredaram-na nos ombros firmes e aconchegantes de um credo insinuante, após uma noite em que não faltara luxúria e amor a ambos, e os dispuseram, embevecidos e sonolentos, entre quatro velas tagarelas, duas garrafas de pinga oferecidas, um risonho galo de briga preto, valente, e uma inibida pomba branca, virgem. Destaque-se, por derradeiro, neste ofertório mágico, uma encabulada farofa, entre dengosa e tímida, com as persistentes insistências dos afagos de um mambembe vira-lata, agnóstico, intisicado, mordiscando suas intimidades.
E mais, na encruzilhada entre o Beco dos Velhacos e a subida do morro, assistiu a tudo, um cacoete bêbado, maltrapilho, olhando ainda de soslaio, à jusante, a natureza esplendorosa da Baia da Guanabara, deleitada com a delicadeza da sonoridade de um berimbau gingado, de um reco-reco honesto, de um cavaco competente e um tamborim risonho.
E deste sincretismo singular, sob as benções do cacoete, a ternura do coro de instrumentos e o amor da trilogia profética, viu-se nascer e criar, com muita veneração, os Santos Irmãos Siameses, orgulho da união, da pureza e dos sonhos, o Carnaval e o Futebol. Mas, infelizmente, a brisa da previdência ou da imprevidência, assoprou leve o registro desta cerimônia que se perdeu, no sempre, para ninguém mais chorar sem alegria.

Ceflorence – e-mail cflorence.amabrasil@com.br

segunda-feira, 25 de abril de 2016

GÊNESIS
O tempo foi criado em quatro deleites e após dois intervalos, o azul, primeiro, em seguida o sutil. Deleites: graça, absurdo, compaixão e paciência. Coube ao poeta, dois entreatos, a métrica, meia taça de vinho e o til. O azul, encabulado, sumiu. Por inacabado, houve interposição à métrica e parte foi repartida por simples regência. Para sanar, dividiu-se o absurdo entre cantigas; uma lenta, três prosaicas e duas amenas. Na dúvida, a compaixão se desfez em metonímia e ausência. Paciência, nada é perfeito, retrucou o poeta, apenas. Tomaram-no por imbecil, ficou sem o vinho, o intervalo e o til. Imbecil, repetiu o azul e, por deboche, sorriu.
Gênesis do poeta, do tempo, do absurdo e da compaixão do arrependimento, na falta de outras estrofes melhores, menores.
            O espaço, lançado entre aspas, elaborado na solidão, é fundamental à gênesis. O filósofo, alheio aos fatos, considera homem, deus, criação, lapsos dos inconscientes. Caso não houvesse aspas, neste contexto, o eterno retorno ao nada repetiria Fênix. Por isto, por tédio, as formas, as alternativas, os enfáticos, se deram cientes. Firmamento, tempo, espaço, relatividade, abstrato perdido e por ai o norte perdeu-se. Pensamento, consciência, fuga, trajeto, anseio, esperança, são atiçados ao léu. Ao poeta basta rima, ao filósofo falta sonho, o homem, na dúvida, antropofagia-se, aos demais, a sorte se deu. O espaço só é quando o homem o vê.  
            Gênesis do espaço, do firmamento, do filósofo, da criação e do trajeto, por descuido, talvez, por absurdo e horas perdidas, pedidas.
            O cavalo inventou o homem para ser domesticado, invejado e exaltado. O homem inventou o medo, o risco, o provérbio e o galope. Nas tardes de sol ou noites de solidão, o homem ordenou o galope para excitar a libido. Foram articuladas as tristezas para serem contrapostas às cores e aos pardais. Sextas feiras os sacramentos eram oferecidos aos jovens, aos banguelas e aos imorais. Vitupério e ambrosia seriam objetos de escárnio, não fossem palavras de sons elegantes, suaves, dissonantes. Poderiam ser oferecidas aos dissidentes, psicopatas e amantes.
            Gênesis: do cavalo, do vitupério, da elegância, da preguiça e, pela incompetência, ausência, de se encontrar cores mais atrativas, ativas.

            A luxúria e o lúdico foram ordenados profissões de fé, indispensáveis, nas cerimônias papais medievas antes das canonizações. Segundo Malaquias, ordenador da gênesis da terapia ocupacional, a forma correta de alterar a mediocridade do convencional e inverter o processo, é simples: bastaria enobrecer as diáfanas da luxúria e do lúdico.  O sul se nortearia, o parto faleceria, a morte renasceria e o infinito acabaria. Sustenta-se que a oferta do prazer não é privilégio dos deuses, dos eleitos e dos abonados. A cultura Impéria, dos Calamitas, alongava a puberdade dos escolhidos para se alimentarem de luxúria, ao limite, e se fartarem no lúdico, no excesso. Os Calamitas foram extintos em rituais macabros oferecidos aos deuses dos absurdos. Suas almas se encarnaram em pedaços de esperanças, fragmentos de compaixão, retalhos de independência e mínimas derrotas de fracasso. Como minorias, parciais, subsistem de ilusões e restos distorcidos de contraditórios sinais.              
            Gênesis da luxúria, do lúdico, das minorias e dos contrafeitos. Havia entre os párias sexuais os mais conformados, até o momento da exaltação aos direitos iguais. Ninguém mais aceitou a porventura como consolação, após as divulgações das utopias, metáforas pobres e frias.
            No último sermão da morte, argumento indiscutível, foi memorado que a vida é o curto espaço entre o susto inconsciente e o indesejável consciente. A cigarra brinca de crisálida sete anos, refestelada no pedaço de inocência que lhe cabe. Ali, após a solidão encapsulada, quando sonha viver e cantar, expele a alma em sete dias corridos para o além, afável.  O talvez, independente da cigarra, foi inventado para quando o assunto começa a faltar. Joga-se meia dúzia de desconexos, um perfil de azul em retrospecto, exibe-se a taça simbólica do amor, do sangue, do vinho. Divide-se o pão em partes iguais, menores, e sem precipitação, com delicados disfarces, propõe-se um ponto sutil, final, carinho.
            Gênesis do encerramento, do motivo, da incompetência. A cigarra, circunstancial, entrou em cena, após sete especulações, sete anos, sete tristezas, uma só cantata e a afinada fuga, sem mágoa.
Ceflorence    10/04/16        email    cflorence.amabrasil@uol.com.br 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

REFLUXOS
Pela pequena fresta da janela, uma réstia suave de luz invadiu o quarto em desordem, encostou-se ao ouvido de Marzilinha, avisou-a que Rútilo se fora. De imediato, o feixe claro beijou-a, afetivo, nos seios descobertos e deitou-se de bruços para ouvir a solidão. Ela inverteu sua posição na cama, abraçou o travesseiro, rememorou, dormitando preguiça, a noite gratificante com o namorado, após chegarem apaixonados e excitados da boate. Deu-se cinco minutos mais de pasmaceira antes de iniciar o dia, provavelmente a ser atribulado. Finalizado o espaço inapelável para os compromissos inadiáveis que teria, restou sentar-se na cama, vagueando os pés a cata dos chinelos.
Só levantada, no entanto, se deu conta do fato, ao sentir o pé esquerdo menor, algo assim como uns dois centímetros, do que o direito. Os ombros, todavia, continuavam, aparentemente, nas mesmas posições relativas. A primeira reação foi olhar para os chinelos e verificar as suas espessuras, mas confirmou, preocupada, permanecerem como sempre. Em seguida observou, cuidadosamente, o chão, a cata de uma falha, absurda se constatada, e certificou contrariada da normalidade das lajotas cinza, escolhidas com carinho na reforma, para combinarem com a cama e os armários embutidos, suavemente tendendo ao azulado. Ratificou-se a situação esperada, não havia no porcelanato qualquer deslize ou anormalidade. Cuidadosa, claudicando, claramente acabrunhada, entrou no banheiro enquanto apalpava todas as demais partes do corpo, pesquisando alternativas outras, eventuais, de mudanças inusitadas.
            Frente ao espelho, nua, a primeira reação natural foi olhar os pés paralelos, aproximados, e confirmar que efetivamente estavam diferentes, embora as pernas continuassem torneadas, lindas e iguais. Ansiosa, subiu meticulosamente os olhos pelo corpo refletido, contornando as linhas dos quadris atraentes e deslumbrou o ventre exato e perfeito desenhando, com sensualidade, as saliências das próprias formas. Contraiu as nádegas firmes, roliças, adequadas e proporcionais à sua altura, para testar eventual dor, capacidade de movimentos ou impedimentos. Normais todos, até então, os órgãos esculpindo sua silhueta, que vaidosamente a agradara sempre. Respirou fundo, acabrunhada, indecisa. Traçou o mapa das orientações que teria de programar para apoio futuro. Surgiu Rútilo, a primeira lembrança lógica e afetiva. No entanto, ao mesmo tempo em que considerou carecer demais sua atenção, pairou a angústia e a vaidade de exibir-se transmudada, sem saber o limite. Hipóteses sucederam-se.
Antes de definir-se, optou levantar as vistas até os seios roliços e verificou, consolada, estarem enfeitando o busto que sempre exibira com merecida e invejável petulância. O pescoço, sem qualquer marca de tempo, de sofrimento ou tensão, deslizava, sutil como sonho, para gratificar a junção com que a natureza unira seu corpo ao rosto exótico e incomum, mas acima de tudo, atraente. Encerrando o autoexame, ao se detalhar sobre a face, Marzílinha apavorou-se, pois os dois centímetros, faltantes no pé, se acrescentaram à orelha esquerda, que maior, sem alternativa, pendera com fisionomia de descompasso. Involuntariamente à Marzilinha, o ouvido movia-se, em gesto afetuoso, acenando fixo para as lágrimas que começavam a correr dos seus olhos angustiados. Tentou apalpar sobre o espelho a orelha alongada, mas notou que o braço esquerdo encurtara e sobre ele e a mão direita nascera uma membrana escura, coberta com algumas penugens escamadas, emendando os dedos como os dos marrecos do laguinho da infância.
O pavor lambeu as lágrimas, subiu sobre o descontrole de Marilzinha, atacou-a com beiços encarnados e a deixou fora de si. Alucinada, inconsciente, voltou ao espelho e vê, deslumbrada, a orelha normalizar-se à medida que as pernas se enquadravam, as penugens regrediam e as películas sumiam. O reflexo reflexivo do espelho passa a comandar. Tão logo se conscientiza, se tranquiliza, as metamorfoses, explodem arrogantes em Marilzinha. Desesperada, inconsciente, o pavor reassume, paradoxalmente as magias se retraem e o corpo enlouquecido se refaz normal.  Ágeis, as metamorfoses se recolhem ou implodem.
Pelas paredes do banheiro Marilzinha assiste, extenuada, sua orelha autônoma tentar devolver à perna seu excesso de porte. O espelho conciliador procurava anistiar o conflito do consciente com o inconsciente e estabilizar, no ódio, o corpo inconstante. Marilzinha estimula a loucura para devorar a metamorfose. No jardim, a incoerência ouve o beija-flor despedir-se da crisálida ao preferir brincar de borboleta despreocupada.
Ceflorence     04/04/16    email cflorence.amabrasil@uol.com.br

sexta-feira, 8 de abril de 2016

DESPAUTÉRIO EM SOLILÓQUIO
            A cada passo alçava dúvida.  Cada dúvida deslocava com absoluta convicção, de um infinito camuflado de tonalidades alternadas de azuis, para oferecer gotas de demência, que eu escolhia a vontade, embora elas se recusassem a atender-me, educadamente. Assim se iniciou o despautério em solilóquio, atividade gratificante para entronizar o absurdo afetivo no diálogo que mantenho comigo e, limitar e definir, claramente, à distância, a semelhança e ou fusão entre emoções, raciocínio e princípios. Não é processo de caráter teológico, sinfônico, político, racista ou sexual, nem ligado exclusivamente a traços espirituais, acadêmicos ou mágicos. Caso sincronizado até as últimas consequências, sem censuras paralelas, atravessaria com elegância a agradável linha da incoerência, sintetizaria modelos matemáticos utilizáveis em premonições, que raramente se confirmariam, mas poderiam ser muito gratificantes se servidas com vinho tinto ou espumante em reuniões sigilosas. Militantes conservadores e revolucionários consideraram a atividade processo regressivo, reacionário ou fundamentalista, razão de eu passar a evitar tomar posições nestas alternativas em jejum, após as comunhões pascais e em voos de longa distância.  
Com estes pontos claros, cabe esclarecer que o primeiro movimento, físico ou intelectual, ainda não escolhido até então, colocava em cheque se o sentimento seria de saudade ou poderia conter uma dose razoável de vingança. Se vingança, seria por inveja ou por ciúmes? Se ciúmes, deveria considerar se teria agido por frustração ou possessão? Se possessivo, a natureza do objeto amado ou de adoração ficaria circunscrito a alternativas de fuga psicológica ou esquecimento proposital.  Mas o contorno dos verbos não se matematizaram dentro das minhas incógnitas e as intersecções dos paradoxos brincaram de demência perguntando: mas, no mesmo contexto, se o ciúme possessivo nascesse cândido como o silêncio do amor, gerando a suavidade da saudade? Nestas circunstâncias as abstrações se reverteriam e seria justificável o desejo límpido da vingança? Plasmei debruçado sobre a incógnita e utilizei uma sinfonia dodecafônica sem saber absolutamente do que se tratava, para que serviria e se poderia trocar, em tempo, dois absurdos descartáveis por um desejo ainda não confirmado. A psiquiatra perguntou como me sentia, antes de beijar-lhe o auto ego frontal. Passamos a não nos entender apesar da afabilidade cínica. Exatamente neste ponto não sabia se o sentimento de cuspir sobre a alucinada psiquiatra seria racional ou se prevaleceria o sentimento da alucinada médica de cuspir em mim? Como os fatores eram equidistantes não houve parábola a ser aproveitada e prometemos nos reencontrar em datas indefinidas ou alternadas.   
Frente ao fato concreto poderia tentar ser sincero, se esta abstração emocional tem algum elemento de realidade existencial ou optar por um gesto simulado, oportuno e prático nos momentos de tensão ou, por último, ao encerrar, soerguer um supercílio com soberba convencional, quando não se atina com as respostas intimas. As externas são óbvias, basta estender uma concreta carreira de nada sobre um fundo de indefinido, que a solução se posterga enquanto se capta um disparate charmoso, decorativo e inútil. Maturei nesta linha, com a tranquilidade conformada que não chegaria a nada, mas, por indispensável, no caso, questionando se os demônios que me beijam ao dormir seriam os mesmos que, carinhosos, tocam os clarins quando definem que a preguiça deva ser interrompida? Porque demônios? São mais irreverentes, mais achegados à sinceridade, calados por natureza e difíceis de serem interpretados. Com estes valores claros, duas colônias demoníacas contraditórias, parti de forma concreta para empreender diálogo permanente com trechos, traços mentais em movimento, entre o meu sentimento e o meu raciocínio. Intui que são duas abstrações distintas, quando não opostas. Tem sido tarefa gratificante, embora, na maioria das vezes, intermináveis e vãs.
Ao encerramento elegante e circunspecto cabível, poderia formatar a tese com objetos esparsos sobre o subjetivo, a taça de vinho, o talmude ou até o espelho convexo para realçar o orgasmo. Mas optei pela tartaruga lésbica a fim de definir as partes menos claras do conflito. A noite beijou o dia, doparam-me com o sentimento de que não raciocinava. Estilhaçou-se meu consciente. Atribuíram despautério ao meu solilóquio.
Cefloence  28/03/16        email  cflorence.amabrasil@uol.com.br