quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

TORVELINHOS DAS AGUADAS SUMIDAS
Padre Rocco, a mesma ternura, fé, paciência, desde que chegou à Amuraicá, da Itália, há quarenta anos, abre a porta da igreja, antes de começar a missa das seis. Angustiado pergunta ao Senhor, olhando para o horizonte, quanto mais teria de implorar para as chuvas choverem. Registra cinco corridos messes sem águas. O cachorro do cego Damião estica a guia avisando-o dos demais chegados à praça, lambe a mão do sanfoneiro e solto corre para acarinhar a cabra do esquelético Zé Cigano.
Zico da Sorte abre a portinhola do realejo para desafogar o periquito e espalha o som da fortuna para anunciar-se. O destino, que coordena tudo e todos, assume o comando. Desnorteia Zé Cigano, carente de informação e a cata do seu não saber por que e aonde, pela praça aberta. Ordena, o destino, que cego e cachorro sigam para a rua da zona, aonde as tristes mulheres alegres aguardam carinhos. Zico da Sorte se alonga nos desconhecidos para que o periquito destine o destino de cada.
Zé Cigano, manquitolando, e cabrita, perambulam pela praça campeando o mágico. Enfim, uma trilha organizada de saúvas despenca em um olheiro. O cigano se acocora. Sentiu calmo o cosmos lhe envolver, risonho e afetuoso, pelos ombros magros, obrigando-o a expulsar qualquer pensamento alienado. Em cerimoniosas procissões, inclusive com oferendas, durante dois dias e duas noites, a cidade vê aquele cigano mudo, acocorado, conversar com as formigas e seus infinitos.
Padre Rocco crescia nos sermões e afoito saia, em seguida, sem rumo ou porquê, depois das missas, em romaria, distribuindo bênçãos carregadas de perdões e esperanças. Zico da Sorte não deixou de prever o futuro de ninguém, pagasse ou não. Na madrugada do terceiro dia, a igreja abrindo, o sanfoneiro e Zico do Realejo chegaram à praça no instante que Zé Cigano, em transe total, ordenava que a última formiga se recolhesse e o destino no céu trovejasse assim que Padre Rocco consagrasse a hóstia. Uma enorme lágrima celeste chove sobre o braço de Zé Cigano, fazendo-o desmaiar. Com carinho, Damião e Zico o acomodam no banco da igreja enquanto a cabra subia ao altar para dar conta, respeitosamente, da última das pétalas das rosas. O mundo começou a molhar alegre e para sempre. A água limpava poeiras e almas. 
Padre Rocco, só amor, o destino mandou, fez o sinal da cruz e sentou-se no banco velando carinhoso o cigano desmaiado.
Ceflorence     06/12/17      email    cflorence.amabrasil@uol.com.br
CADÊNCIAS EM SUPERLATIVOS E OUTRAS ANUÊNCIAS.

Não paira dúvida, no entanto, de que no dia azul marinho, do mês da parca semeadura, do ano da fome farta e, portanto das disputas infindáveis, introduziu-se o código de Artépios, descendente de Kartona, rainha filha do criador do universo, a qual, depois de um reinado conturbado, mas duradouro, foi enterrada embalsamada entre lírios de conduta duvidosa e ao sabor de seitas cabalísticas, na ala norte do templo para adorações a Sermisium. A nós devotos é fundamental saber que acompanharam a soberana os cantos, as profecias e as poesias premonitórias Creônicas para traçarem os destinos dos recém-nascidos, semideuses, Átora, Atora e Atorá.

A realidade traçada para o futuro obscuro, que às vezes irreverentes incréus ousam destruir, foi que as seitas seguiram rigorosamente as métricas inflexíveis das rimas dos astros e as fantasias descritas nos cerimoniais fúnebres. Eliminando assim habilmente as incoerências, os semideuses constataram que havia restado, após milênios, somente três crenças, seguidas pelos canalhas, pelos caolhos e pelos calhordas: a psicanálise, com suas interrogações insolúveis e permanentes, o materialismo histórico, adorado pelos criadores dos projetos inviáveis e, por último, o mercado, endeusado pelos futurólogos e justificadores dos erros pretéritos. As demais seitas, até tradicionais, passaram a atuar mais em áreas da prestidigitação de magias, desencarnações dos demônios e, com eficiência, junto às finanças e aos dizimos.
Cumprindo os mandamentos proféticos, Átora, Atora e Atorá, encontraram-se, pelos caminhos da fortuna, exatamente no lugar em que O Todo Poderoso, extasiou-se ao infinito, dando o melhor de si e caprichando no fino acabamento daquilo que acabara de concluir com muito amor. Comovido com a beleza da natureza que criara, chorou de alegria, derramando ali uma única e afetiva lágrima a qual se transformou no perene Carioca, rio idealizado e fantasiado por ele, com ternura. Assim, a trindade, ungida pelo destino de criar uma só e abençoada liturgia, preparou, com afeto, o porvir, respeitando rigorosamente as cerimônias proféticas que lhes foram determinadas.
Para tanto, procurara, cuidadosamente, uma carinhosa fé, enredaram-na nos ombros firmes e aconchegantes de um batuque insinuante, após uma noite em que não faltara luxúria e amor, os dispuseram, fé e batuque, embevecidos e sonolentos, entre quatro velas tagarelas, duas garrafas de pinga exuberante, um risonho galo de briga preto com pescoço pelado, valente, e uma inibida pomba branca, virgem. Destaque-se, por derradeiro, neste ofertório mágico, uma encabulada farofa, entre dengosa e tímida, com as persistentes insistências dos afagos de um mambembe vira-lata, agnóstico, intisicado, mordiscando suas intimidades. E mais, na encruzilhada entre o Beco dos Velhacos e a subida do morro, assistiu a tudo, um cacoete bêbado, maltrapilho, olhando ainda de soslaio, à jusante, a natureza esplendorosa da Baia da Guanabara, deleitada com a delicadeza da sonoridade de um berimbau gingado, o reco-reco honesto, mais o cavaco competente, sem deixar o tamborim risonho separado.
E deste sincretismo singular, sob as benções do cacoete, a ternura do coro de instrumentos e o amor da trilogia profética, viu-se nascer e criar, com muita veneração, os Santos Irmãos Siameses, orgulho da união, da pureza e dos sonhos, o Carnaval e o Futebol. Mas, infelizmente, a brisa da previdência ou da imprevidência, assoprou leve o registro desta cerimônia que se perdeu, no repique do sempre, para ninguém mais chorar sem alegria.

Ceflorence –     30/11/17       e-mail cflorence.amabrasil@uol.com.br
CAMBALACHOS ENTRE ENSAIOS DEVANEIOS

Dia de preguiça, adjacências, engalane-se você acordando, desensarilhe a pressa, abandone-a entre objetos inúteis, feriado trabalhista, dispense a angústia, pendure sua preocupação entre o azul e o provérbio. Achegaram-se espaços interessantes para fomento dos sonhos, desejos, pois os carinhos se abriram com a aurora. Silenciou-se a fobia para não despertar o repouso da melancolia. As fantasias invadiram tranquilas recompondo com estilhaços de amor, carícia e canto, porquanto, não ainda havia encanto para desperdiçar, portanto. Ensaios não movem a vida e nem a porventura fará qualquer diferença no que estou escrevendo. Saímos empatados. Não diga que não avisei.
O destino mareava surpresas de ventos leves, floridos, suficiente para aproar nas marés cheias, como só e acontecer, com os caprichos despojados e os desejos tranquilos. Sobre uma revoada extraordinária bordada de prazeres, distribui-se, aleatoriamente, de forma harmônica, carinho, aconchego e pétalas de saudade, para que cada um, sem afobação, se servisse dos pequenos, mas mais do que suficientes bocados. Doces apetitosos pecados venais eram fartamente servidos, entremeados de candura e recheados de esperança. Os capitais, também pecados, é verdade, muito mais saborosos e disputados, por escassos, foram oferecidos parcimoniosamente, recobertos dos inconscientes mais censurados, luxurias entremeadas. Ensolarado dia, pois a gula engravidou. Esperavam-se sorrisos antes dos carinhos espalharem encantos, para assim os colibris brincarem em dodecafônicas harmonias, regidas pelo eufórico eunuco coxo.
A perfeição das reminiscências abrindo-se em cores indiferenciadas provocavam êxtases, ousadas ternuras, distribuindo anseios inibidos, ainda desconhecidos. Nem sequer fora permitido desperdiçar esperanças acalentadas no regaço gostoso, mesmo que bem sucedido sobre os sonetos ingênuos ou as rimas alegres. Muito menos se propunham ejaculações precoces, pois eventuais movimentos, inesperados, desafinariam o ritmo, a cadência e até mesmo o tilintar suave das delicadas pontas de insanidades que estavam sendo amadurecidas para, recolhidas, serem úteis no preparo do desequilíbrio temporal. Em sintonia com o prazer e o orgasmo, atiravam-se ágeis e graciosos deslizes azuis,  minúsculos, brincando da mais pura imaginação, para abrirem-se no infinito inacabado. O poente jogou um último delicado e respeitoso beijo para a aurora, declarando, com graça, que os sonhos estendidos, para comporem os sonetos, deveriam ser aromatizados meticulosamente sem métrica ou preconceitos.
Sete euforias e um orixá se organizaram em duplas de encantos, ensimesmados de reminiscências, imemoriais versos, embalos suaves, carinhos macios. Tudo para ser recolhido no lugar combinado, sem retrocesso ou emendas. A volta era somente função de um subjetivo conceito sobre a necessidade do tempo, coisas dos deuses e dementes, pois poderiam não ter acontecido. Sabor de alegria não tem norte nem sabor, por abstratas metáforas, intempestivas, leves pensamentos dispensáveis, tristezas descartáveis. Havia uma manhã começando a parir-se em bemois. Cada um recolhia seu quinhão para meditar mais tarde com pequena dose de porvir. Mesmo assim, forma estranha de encerrar sonhos, conclui-se. Verbos, em galas e fanfarras, gritaram amém, palhaços e trapezistas, nós todos sobrevivendo de ilusões, com nossos apegos, tambores ou poesias, indiferentes às melancolias mordiscando nossas angústias, rastejamos pelas ruas tristes, formas perdidas, restando-nos pisar ao léu, a cata e sanha, procura do eu!
            E por serem crianças as noites das nossas ignorâncias, intocáveis, sem pautas para desabrocharem melhores destinos em amanhãs ou ternuras, restando, se couber, a pergunta presa no ar, nosso ar, ar de dementes: quem sobreviverá sem opressão para alimentar o impossível, a paranoia, o infinito, paradoxos da vida? Avisei para não caminhar na trilha, mas, se o fez, transcenda, não cabe lamentar. Assunhaiê dos orixás.


Ceflorence – 22/11/17  e-mail cflorence.amabrasil@uol.com.br
ORAÇÃO DOS DESENCANTOS E OUTRAS CISMAS
 Quem por desavença, destino ou praga se dá, mesmo porfiando descuido ou desajeito e se assenta para peneirar o azul do provérbio, assim destilar mentira, verá depositados nos escaninhos da vida peneirada um borralho grosso de demência, do lado que a sorte é mais calhorda e do outro um ranço de solidão. Abeirado ao retido notará, desfibrando, o cheiro acre de enxofre azedo, fermentado em chumaço graúdo de despautério. Neste proceder, meticuloso para não desandar, a sutileza bela do nada se enfeita de ser, mas só depois de manipulada pelo destino. Fica separada assim, no centro desta bateia cósmica uma catinga apodrecida, inexplicável, condimentada pelos demônios vomitando probabilidades e inesperados sem aviso antecipado na ardência da sobra de ilusão ou estrelas. Loucos e desvairados. Mas para não dizer que a sina se alienou na desgraça, só, ficam caídas no canto esquerdo, também, os pedaços mais graúdos de angústia, que o senhor aproveita para lambuzar as almas que o enganaram ou das outras que ele ludibriou nas encruzilhadas das tabocas. Por derradeiro, as solidões se aglomeram em pedaços maiores e enroscam na joeira.
Assim se grafa o evangelho dos descalabros para desvelo das ameaças e outras torpezas. Segundo os alistamentos dos alucinados e imbecis, há os que acreditam em deus, embora nem sempre deus nos próprios fie. Também se contam entre os tarjados, múltiplos em série por não serem poucos, os que de mais ardilosos se assanham nas tramoias e sorrelfas para catimbarem divinas dádivas, em santos nomes, e nunca pagam assumidas contas. Jamais esquecer os mentirosos ao senhor voltados, que os há desmesurados, no entanto não são, com certeza, os mesmos que deus escarnece. Destrava-se entre alguns os pios ou trêfegos pedintes de dízimos, adereços, relíquias, indulgências, profecias, promessas, esperanças, falcatruas. Estalam estes ligeiros aos céus infindáveis, como se portavam os sarracenos, os olhos sebentos de ardis mesquinhos, pastores oportunistas de melodramáticas curas e promessas no jamais obtidas, refazem os gestos intrincados, amiúde, as contas com os aléns, por se adornarem de lídimos depositários provisórios dos tributos aliciados em divinos nomes e os esbanjam muito por conta, até deus vir no encalço para justo reclamo da sua parte. Então, ah! Adeus a deus. Andais, oh deus.
Há ainda, nem mais retardos nos propósitos, mas nem também os mais afoitos, pois são notados tanto entre os justos como entre os vendilhões, alguns mais descuidados e do senhor darem por falta ou conta só no caminho da morte, amém. É o quanto basta por ora, meu bom amigo para começar a desfolhar o futuro, os imprevistos e as destrezas outras a serem manipuladas no correto espaço entre a vida e o eterno. Tenha bom tempo e chame quando for.
Fechadas as sanhas, os ventos pediram aos badalos da catedral que abrissem seus silêncios para os infinitos poderem repousar nas pazes das inverdades e das falcatruas.
Ceflorence    16/11/17    email   cflorence.amabrasi@uol.com.br  

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

ALOPRANDO SOLIDÃO
E de muito silêncio guardado no sovaco carinhoso da perobinha de cima, a corruíra desafogou preguiça, no canto chorado, para desengatilhar o sol. Manhoso sol de mal humorado, bocejando querência de não nascer de vez, e por tudo, meio assim no desabrido e na des-serventia dos inusitados. Pois de muito antigo como se dizia, sol carecia de sempre nascer, atoleimado e vadioso, do mesmo lado que corria o brio imponente do vento castigado da Várzea dos Lobisomens. E vinha ele, sol, exibido de petulante, antes de se tornar poesia, sabendo carecer subir, encostadinho, pelo pé da trilha da Serra dos Leprosos, por onde deus tapava os ouvidos para não ouvir os lamentos, quando por ali cortava caminho, descalço, sozinho, acabrunhado e no campeio do nada. E por ser ele, às vezes empacava de não sorrir de pronto no verde, que a mata enfeitava e nem negava, mas na retranca escondia, conversando o sol, desviado de destinos, com os pedregulhos orvalhados escondidos na neblina E se atrasava papeando com as macegas carinhosas, com as juritis risonhas e com os infinitos abobados que sabiam só campear os deuses safados, as musas difíceis e as tropelias das solidões que as almas não explicavam; sol e deus eram de assim mesmo ali, não careciam de portantos e nem davam conta de satisfação prestar a ninguém.
  Ainda sequer não era já noitão dos fechados, mas embora, talvez, quem saberia pontuar se correto poderia afirmar, pois o curiango ainda nem se desfizera da teimosia de desencantar da beirada, da beirada da prainha do riacho sabedor como ele só de saltitar as pedras que águas da Cascatinha da Inhãnhá beijava. Foi neste ali, quando Sepião dos Afonsos aportou no curral para desandar de fazer dia e cabrestear cavalo. E de lá ouviu gemido manso-triste, assofrido de vingativo, descendo escabroso, vindo chegando estupefato e enrugado de mal cheiroso de ver, quieto de ruidoso por silencioso de escutar, meio de apavorado de fazer medo, ateimosado, muito de prontidão e arribado nos desconfiados. Quem pariu o ganido dos Leprosos vindo, por diabo enxertado fora por certo. Sabia saber de longe, Sepião, que depois da Várzea dos Lobisomens, subia des-facetada de empinada a Serra dos Leprosos, amanho das almas descambadas, desarvoradas. O cachorro enroscou na perna, o potro resfolegou sentido e postura, o escuro assoprou carência, tudo acalentou desassombro.
No fazendo, esquecidos, tempos idos, Sepião deu conta, por prosa de velhos e falas veladas, que no pé da serra, na Serra dos Leprosos, acomodava, há muito, um lazareto, que as ruínas das taipas ainda restavam. Por sendo valhacouto de desproporcionais tristezas, doença ruim de sabido, fome carregada e desgraça, se deram de desespero os leprosos de fugir do leprosário, em bandos sem rumos e destinos. Os avizinhados da Várzea dos Lobisomens, muito abnegados de religiões e promessas, atearam fogo de morro acima no encalço de salvar as almas e separa-las dos corpos estraçalhados dos lazarentos fugidos, que até hoje, nas madrugadas, reclamam suas penúrias. Sepião afastou o cachorro das pernas, arribou o lombilho no potro, acomodou o infinito na solidão e destravou o ouvido, como deus, para não abusar da desgraça. O sol pariu destino, calou as almas e rumou sertão.
Ceflorence              email  cflorence.amabrasil@uol.com.br      

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

ENTERRO DE CAMILÓ

Camiló nascera em Oitão dos Brocados, filho de gente sertanejada ali chegada há mais de duzentos anos. Se fizera trançados de couros por heranças de conhecimentos e destrezas, jogador de truco referenciado e por último acolhedor de dores e almas pelos tombos de peões de burros xucros, mulher da vida apanhada de cafetão e outras desditas. Por ordens das desfeitas fora assassinado por conta das suas habilidades e carinhos incompreendidos. Seguiram-se as exéquias como se deram e das quais damos nossas vistas.    
O cortejo fechou a rua principal, seguiu o instinto da flor de maracujá, que ele carregou quando atirado, caminhava lento tudo no embalo do caixão, para não acordar a poeira e assumiu o caminho fronteiro da Capela de Santa Eulábia, aderida ao Cemitério da Saudade. A igrejinha deu providências de atender o corpo de Camiló sem cobranças de passados e nem promessas de futuros. Saíram todos, gente por gente triste enfileirando, muito entretida nas ordens das melancolias respeitosas, para enterrarem o corpo, abonarem a alma e guardarem a saudade. Lágrimas passivas ouvindo a passarada entretida em seus atrevimentos. Na porta da venda do Mutalé Maneta, como ali pendia de visada direta ao cemitério, e trilha do trançador era rotina sabida, Camiló se agitou na rede deixando a flor cair na porta como mereciam as insinuações, para serem apaziguados os passos com a derradeira cachaça.
Minhoco deu muita razão ao cadáver em respeito às mesuras da flor pendida que mereciam ajustados sentimentos ao passarem gentes tantas em reverências funerárias por ali e cabia mais do que merecido aquele trago de despedida na venda que assistira o trucador por inesquecíveis. Conversas trançadas, tramoias ditas, afetos foram colhidos nas lágrimas do Mutalé antes dos definitivos. O povo assumiu resguardo, instigou Camiló saudar as dependências do Mutalé Maneta em memória ao passado e em abono a partida. Hora chegou correta com o cortejo ao portão do cemitério, povo machucado de tristeza adentrando ruelas de corredores estreitos, sinuosos, confusos entre os túmulos velhos saudando vizinho novo. Uma vala, sem muitas querências de vaidades, aberta esperando a encomenda, para finar em seguida nos atijolados de adobes pobres por merecimentos se ajustara e cruz postada na cabeceira.
Cadinho, filho do falecido, plantou a cruz de cedro na virada para o por do sol e na sôfrega da despedida da vida, intuito de Camiló poder acompanhar o passeio do astro durante o dia todo, como sempre fizera nas beiradas das ruelas, cantochando mesmices enquanto tramava couros, adivinhava sortes e enaltecia com os mesmos dedos as tristezas alegres de sempre nas assistências aos sofridos, às moças das vidas, aos peões das fraturas, às crianças dos sonhos. Era a imensidão de Camiló e seus conflitos.
O cedro poderia brotar em árvore de respeito e porte, como é das temperanças dos cedros e contar muitos anos depois as proezas dos dedos do Camiló Prouco, o homem mais habilidoso de Oitão e outros sertões por onde as suas venturas se desacomodavam nas invejas e nas carências das tramas, prosas, prendas e solidões das felicidades sofridas.
Cada um se deu por jogar um restolho de mão cheia de desesperança para a terra dizer adeus e o amém recolher o fim.

Ceflorence   19/10/17     email    cflorence.amabrasil@uol.com.br  

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ESPAÇOS EM AZUL E OUTRAS CISMAS
Confirmadas foram em diretas linhas dos oxalás, por destino e paixão dos astros, que careceria cautela em cada brisa, para chegar disfarçada, renascendo diariamente na várzea espraiada de onde o Tomuaiacá, rio das magias e contos vindos dos sertões e das matas dos mistérios, desaguando na Baia de Acarampó, enfurnava agraciado. Antes da brisa se preparar para subir à cidade alta, enrolava-se faceira nas areias, refrescava nas águas das vertentes das marés mansas, brincava maneira em abertas rodas de capoeiras, artimanhas coloridas das gingadas negaças, rabos-de-arraia, meias-luas, benções, molengas desfeitas, generosas pausas, atiçava o berimbau em sustenidos às divindades, mas nos respeitos aos imponderáveis.
Vestida assim de silêncio e dogma, só então a brisa encravava pelas escadas do frontão, rumo à matriz soberba, se persignava com a canhota, apesar das contrafeitas das insinuações, enfezava nas diligências, arrebanhava a imaginação para conferir se não faltava nada para o dia começar a enlouquecer, suavemente, como era carente para os povos e gentios. Nos conformes adequados, como rezavam os pescadores, achegados cansados em suas jangadas embandeiradas, a madrugada só se desfazia depois destas querências cismadas dos ventos e das brisas, trazidos por eles dos aléns das quebradeiras das ondas, oferecendo as graças dos netunos e das iemanjás.
Nisto, as providências descarregadas nas praias, acatavam, derradeiras, as ordenanças dos sinos mascateando suas delicadezas e encantos nas cismas de alongarem as tarefas pelo cotidiano. Por ser de prudência merecida, as estrelas foram se acomodando em apropriadas solidões depois de brincarem de pirilampos com as escuridões, fartadas da noite, exaustas dos bailados e movimentos nas abundâncias dos firmamentos. Entrecortadas se deram as providências como as manias se faziam para repetirem as cismas das igualdades. Dia comum só se daria se os feitiços desacomodassem de suas preguiças para jogarem destinos e gentes a cata de suas providências.
A catedral refazia as badaladas remarcando os quartos, as meias e as inteiradas horas, para os fieis se aprontarem para as orações, mentiras, confissões, fingimentos, comunhões, invocando e provocando os santos das devoções preferidas, na falta de outros cinismos. Tempos mimosos, sol já assumindo seus desacordos e calores. Coisas miúdas de vendas nas ofertas e negócios, ervas curandeiras atravancadas nas calçadas quebradas, prostitutas a negociar mixes, travestis empolgados, enveredavam pelo átrio para completarem o dia. Ônibus, carros, pedestres, circulando a cata de destinos. 
O chafariz, como era de sua magnitude italiana, festividade, se empolgou sobre o passeio, desafogou de suas bordas rebuscadas em rococós e barrocos adventos, desatrelou do patíbulo os melhores anjos e querubins bailando entremeados em seus afrescos para ensinarem risonhos suas manias aguadas aos curiosos e aos pássaros carentes de nostalgias e sonhos. O dia se fez em demências saudáveis e cores ruidosas.
Ceflorence       10/10/17         email   cflorence.amabrasil@uol.com.br