segunda-feira, 16 de outubro de 2017

PREMONIÇÕES E OUTRAS SANHAS

O tempo cismado se pôs em versos, abelhudo nas premonições a virem, e por assim se deu que além dos percalços dos couros e das taquaras apaziguadas e entravadas entre si, sob as preces das cantatas e das prozas dolentes, Camiló, sertanejando seus sertões de Oitão dos Brocados, passou a se atrever, por ocasional socorro a um repentino imprevisto, a outras artimanhas de curador e vidente. Soberbo de curioso nas coisas endiabradas insolúveis e descabidas, começou o trançador a usar nos tateados de aprendiz e rezador de cantochões murmurados os mesmos dedos ágeis, definidos e embriagados de energias tantas, porosos de ternuras, calejados nas carências, afrontando com macias e afetuosas sedas nas horas justas os artelhos destros nas imbricações, para massagear os corpos maus sucedidos em quebradiços e ouvir as almas das agruras postas.
O acaso primeiro veio em queda de moça da roça afastada, chegando montada a Oitão e a besta alazã, sem sobreaviso, com buzina de caminhão cruzando caminho na boca da noite passarinhou seus desmerecimentos. A jovem não sustentou refugo picado do animal assustado, caiu frouxa na poeira seca com o ombro torcido visto. Estiraram, desmaiada, a menina da mula alazã sobre o balcão sujo da venda do Abigão. Camiló encostado na ponta da venda, dando conta do gole seu derramado, mais o baralho de truco para os desafios, foi amoldando aconchego de curioso e palpite, viu com olhos matreiros a desfeita mal amparada do ombro deslocado, apalpou os vazios dos cuidados carecidos. Acatou Camiló uma correia de couro ajustada aos provimentos deslocados, atraiu o músculo, a omoplata e a sanha deslocados para as corretas posturas, enquanto a desfalecida, no abandono do balcão, se desfazia de sentir, falar e dar de si notícia. Muito aprimorada nos intuitos a menina, desdisse do susto acordando, se remendou das vergonhas sobre o balcão, retornou dos seus aléns, ressabiou nos olhos dos em-tornados carecendo choro e carinho, mas curada das mazelas.
A doente sarou assumiu a mula de volta para casa e destacou como sendo a primeira providência amena, terapêutica, justa, de Camiló passando a se tornar trançador, doravante, também das almas e cismas. O trançador do Oitão, brioso de cerimoniais e ciências, foi empertigando nome ajustado e conhecido por cerrados e sertões de curador dos defeitos e adivinho das cismas. Da manobra curandeiras definiu Camiló à moça o uso de laço verde, esperança, amarrado no pescoço e deixá-lo cair brioso pelos seios mimosos por um quarto de destino e pendurar o braço do ombro magoado, emparelhando semana corrida inteira para assegurar das certezas de cura.   Tempo andou rompante como cascavel no cio, chegou maturado de conversas sobre benzeduras e outras estrofes, azucrinou sina e entre o sol se pôr e as estrelas ajustarem as coisas da noite mugindo, caiam nas mãos do trançador-benzilhão, curador das ânsias, as desditas não resolvidas. Quando nas casas das moças se altercavam desditas de desamparos de mulher querendo atear fogo no álcool embebido no próprio corpo, desforra de cafetão embriagado por corno tido, coronel salpicando concubina de rabo-de-tatu nas desfeitas do namoro pega, a solução no arruado era Camiló desenrolar do truco ou suspender da cachaça que castigava frouxa de bem querer e socorrer o destino.
As famas das benesses, das bênçãos, das curas cresceram nos volteados dos ventos contadores de casos e Camiló, nome benzeiro, se esparramou nos cerrados, nas  desfeitas, nas carências.                                                                                    
Ceflorence        04/10/17    email cflorence.amabrasil@uol.com.br   

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

DESPACHO E DESPEDIDA

                        Nunca entrara em bordel, o retirante a cata de seus futuros. Se pôs no desfecho das sanhas para aforar e coincidiu tratar de premências nas casas das damas por desfortunas das cismas. Mas diferente dos sonhados, desfez dos trejeitos e manias. Imaginava a maravilha dos pecados saborosos rodopiando pelas vagadas cadências dos andares flutuantes, enfeitando as paredes, tetos, imaginações, os abajures sombreados, fantasias. As portadoras das ternuras deixariam cair pelas coxas, pescoços, seios, nádegas, insinuações delicadas, sem preconceitos ou restrições, entrelaçando os cabelos soltos, ousados, esvoaçantes, perfumados. Roupas transparentes caindo cuidadosamente sobre as carnes palpitantes, voltadas para os céus e pedindo que os pecados lindos e os desejos azuis debruçassem sobre seus lábios para beijá-las infinitamente em orgasmos. Jamais poderia admitir tantas mesquinhezes, dispensáveis, que amulheradas putas tivessem corpos marcados de cicatrizes, pelancas soltas a serem escondidas e embora transitassem seminuas de roupas pobres e rasgadas, despertassem nenhuma preocupação dos olhados para não estorvarem as liberdades.
                        Indefiniam pelos corredores, quartos, a cata do único banheiro sujo, velho, para se acomodarem como gentes comuns nas urinadas e cagadas como procediam as fêmeas outras, tanto assim as cabras, as carentes das vidas. As andantes mulheres da zona pareciam assemelhadas à sua mãe, irmãs, vizinhas, gentadas pessoas indefesas, tristes, esperando o nada passar para não se assustarem. Fugazes e ingênuas dos cotidianos, sem aleluias ou estardalhaços, desmereceu Cadinho as senhoras prostitutas do sertão com muito dó, pois eram, por serem, tão constituídas de infelicidades idênticas.
                        Partiu, sobrou, sem dizer por que, uma réstia só de nada de água no Riacho da Perobinha, para nem arrastar sorte pela vida que viesse, enfezou Cadinho, sertanejo, retirante. Enfronhados desenfronhados fins, conflitos atiçados nas indiferenças e gritos dos prazeres. Adeus, oh deus dos infelizes e foi Cadinho subindo as escadas, para desaprender um pouco do choro, até esgueirar-se sem afobação pela porta do fundo do armazém do Abigão. O vendeiro retornara à depressão, sentado, enviesando os olhados para os despropósitos, mascando o palito de sempre, aconchegando um cafuné no papagaio mudo, esperando o nada entrar pela porta, em vez de Cadinho.
                        Resolvidas as teimas últimas com o vendeiro, adeus deu, mediu o sol começando a se esconder por trás da Forquilha, aprumou firme, calado, subida da serra que conhecia tão bem. Nunca atinara enfrentar o mesmo pó, caminho igual, sina repetida, pensando consigo no mais fundo, ele, por que a alma doía tanto? Atentou, foi atolando mágoa insolúvel, última, na sabedoria amarga pôr levar consigo um quase nada de pouco, além das roupas e farnéis, mais o desespero do punhado de fim sem volta e esperança, para oferecer às meninas irmãs que careciam partir sozinhas. Subiu sem mais assobiar como era do feitio. O curiango desceu de suas indiferenças, olhos muito marejados de tristezas e ansiedades, pousou no moirão das suas afeições e métodos, para avisar que o cavalo mandara recado para Cadinho chegar a tempo de ainda vê-lo vivo, se quisesse, embaixo da moita de bambu, lugar mesmo das conversas que estiveram tendo por último. Enfrentou as vistas das meninas especulando caladas das janelas pequenas, lembrou que era Cadinho, sertanejo, órfão de pai, sem mãe, arrimo das irmãs e não procedeu falar de si ou acreditar na realidade. Quem sabe? Parou por ai e nem cismou mais até enterrar o cavalo e despachar as meninas.

Ceflorence  26/09/17        email   cflorence.amabrsil@uol.com.br 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

CURIÓ-SANHAS-SAGAS.
            A seca veio no cabimento de impor retirada, saga de destino incerto carreando nas fugas as mágoas, pobrezas, arrastando as saudades para tentar barganhar com outras pioras a topar nas penadas a virem. O sertanejo Cadinho, criado nas fraldas da Forquilha, dessabia ir embora da serra. Ali caçara com o irmão o curió de estimação e antes de desandar carecia soltá-lo no ponto das artimanhas. Andejando com a gaiola arribada Cadinho, o curió foi apetecendo de voltar aos nascedouros. Afundou o retirante as vistas agradecidas no jacarandá velho, abrigo do azulão disfarçando seu ninho nos recatos do alto para escapar do gato ardiloso. O sabiá cantava igualmente suas melancolias da ponta do ingá, de onde acompanhava o vento trazendo notícias do tucano bicudo premeditando estripulias nos ovos aquecidos no choco pela juriti. Cadinho assentiu, no infinito da tristeza, que quando soltasse o passarinho voariam juntos seus passados e carinhos, sobrariam as melancolias, cismas por brotarem. Caminhou sentido do topo da serra, descabido das almas de gente comum achegar nas normalidades, o Espigão dos Carcarás, zona dos melindres e ribanceiras, terra devoluta, posse de ninguém, e por isto tomada no sangue e na raça, na imaginação, por direito e outorga, pelo irmão e ele. De onde o sol se acocorava na serra, espiava assombreado para não assustar o provérbio, deu Cadinho o bamboleio do cansaço, acocorado cismou. A catadura das coisas perdidas punham-se miúdos os lugarejos.
Dia limpo como estava, pela seca castigando, se anteparava pelas direitas clareadas, desviadas as atenções do Morro do Serrote, enviesado se desmedia até as lonjuras da Comarca de Axumuricá, permitindo nas meias distâncias separadas, muito por pouco nada, as corruptelas de Moncadas dos Alepros, arriba, um tostão a mais, depois da Várzea das Mandibas, caia o Curral dos Pousos, situados tiquiras outros fronteiriços, Cariapó dos Pecados, entremeado vindo da Capoeira das Antas e pendiam as vistas para os achegos de Bom Jesus dos Tropeiros. Lampejando os olhados, Cadinho, destacou saudades voltadas, muito pequeninhas de distinguir nos horizontais sumidos das atenções, enxergava os arruados outros que a seca despovoara, Coivara dos Lobisomens, distanciada de légua, se tanto, depois de atravessar o Grotão do Padre Velho vinha Vau das Mortes, aonde sucumbiam amiudadas vezes boiadeiros e aboiadas, arrojados, quando a vazante do rio enganava, engrossava matadora e destemida, quem desmerecia conhecimento sem cismas nas travessias do lugar das correntezas abundando. Não por desmerecimento apontou os olhos lacrimados para riba dos casarios pobrinhos, sapé adobados ou paus-a-pique, fundão de barrocas feias, caminhos ruins, nas nascentes do Jucurui, Capão dos Mulatos, Aparecidinha das Bordadeiras, até embocar nas ruelas da Gameleira do Redentor. Despovoando os restos das almas, retorcidas solidões, Cadinho manejou que conhecia aquilo tudo, assoberbado de gente, fartura e vida, a casco de cavalo e alegria.
Com estas prosas de solidão, o curió não entendeu, mas gratificou, porque o Sertanejo retirante abrira a portinhola da gaiola e se deram os adeuses cada um para seu infinito e alma?
Ceflorence      21/09/17        email   cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

SERTÕES E OUTRAS DESFORRAS DAS SECAS
Achegaram gemidos, mesmo no carreiro vindo, como codorninha no verão enfeitiçada de agouros da cascavel desabusada na captura, ano prometido de sinistros. E as sinas se inverteram, concordadas nas previsões dos sinistros se darem nos tempos marcados. Pôs-se da chuva começar a escassear nos roçados, desajustando por conta desesperança de fartura, que já era miúda e barganhou o restinho por minguados, ademais fome piscando vinha caolha olhando braba por trás dos cerrados. Da soleira da porta do sítio, Camiló Prouco, persignou-se voltado de frente para os cantos das juritis pousadas viçadas no graúdo do bacupari petulante, virou contra o vento para desmolhar, antes de, na sequência, sério e compenetrado, urinar aguado, mole, largo, com fé e candura, sobre os encarvoados rabiscados por Inhazinha, tisnados no chão na véspera, sua mulher de desforras, coitos e assanhados melindres acudidos na cama, mesa e fogão. Não se punha como desrespeitoso ou desventurado, como sabido, mas premido atendente de servidão e mandado obediente das ordens certas das crenças reverenciadas, amoldadas a prosperarem robustas, como se era sempre.
O calor gemia desforra, passarada provocada para refrescar nos revoados agitados e proveito dos ventos certos. O tempo se dava por ser e vinham proseados de desperdícios e falta de sustentos nas chuvas, abobados de serventia e reza, mas chapiscados de texturas e sabor, se o sol acordava o burburinho da bicharada ou a algazarra das revoadas obrigavam a claridade bocejar pelos esparramados dotes de belezura da Serra da Forquilha e destravar as atarefadas. Camiló Prouco, até as coisas tomarem outros rumos, enquanto desaquecia a ressaca da bebida forte da noite anterior, choramingava sinceridade disfarçada na beira da bica do córrego, aonde Inhazinha, a mulher, continuava a batida da roupa na tábua larga de peroba aproveitando restado se dando da aguada diminuindo, encolhendo de se ver sumir cada dia um tanto. Acordava lerdo de raciocínio mal lembrado, o trançador, jogador de truco, da hora de deixado as tramas, noite alta, as pingas, as mandingas e ajustara o jacá das tiras de couros aos costados para arribar serra acima já lua galopando. O curiango, olhos sisudos de curioso, pio mole, acompanhava as sinas das vinganças, dos malfadados, dos desdouros, dos sofrimentos achegados aos dedos e aos destinos que Camiló solveu pesado durante um dia todos de trabalhos a fazer. E os espíritos compadecidos e as almas sanadas dos assistidos por Camiló nas explicações das contas pendentes satisfeitas à mulher e entendiam-se nos direitos de agadanharem seus prosados para continuarem sentido seus dedos macios, suas falas cantadas, suas preces sentidas. Inhazinha ouvia o silêncio, ajuizava rancores, considerava mentiras repetidas de um sertão inteiro de solidão a dois, sentia o cheiro da tramoia encarapitada sobre o provável, que só falhava e deixava o marrequinho afundar na taboa a catadura de alguma ilusão passada no brilho do lambari desinibido, do mosquito zunidor, da varejeira azul, embernada de más intenções.
As águas foram aprendendo a refugar amarradas nos tempos e preparando os cerrados para receberem as secas desacomodando almas e esperanças.
Ceflorence    13/09/17     email   cflorence.amabrasil@uol.com.br   

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

LAVRADIOS DOS ANSEIOS E TRISTURAS.
Enquanto o desassombro revia seus comezinhos urdindo tramas para continuar o dilema de preparar infâmias outras, desatinos da vida para não desnortear do poente, a lua ainda no embalo do seu destino de ser para o será, ajustava providências para o sucateiro exausto achegar. E estas tantas providências nada mais foram do que separar as tarefas das caladas das safras entre o dia e a noite e, portanto, resolvido este impasse, os astros acompanharam Cadinho Prouco, descamisado, tisnar com carvão, ódio e respeito a linha das magias, aléns juramentados. Traçou caprichoso, Cadinho, ao pé do frontão enorme do mosteiro gótico, prestimoso na querência de agatanhar o céu, semicírculo sinuoso, místico, para proteção dos ventos, dos vivos, frios, mortos, da polícia, calor, da maldade, sacristão, da puta que o pariu. Ao encarvoejar abnegado o chão descarregava os encarnados dos desmandos, torpezas e das sanhas para fora dos seus domínios. Neste assim, com o simples carvão cravado, defendia-se Cadinho das agruras, doenças, das lutas. Era o que lhe cabia nas águas que bebeu das preces da mãe, sertanejados tempos, que trazia no sangue as oitivas dos orixás, dos deuses, das sabedorias e ordenou ela, nas despedidas finais, a Cadinho nunca dormir sem enfezar os chãos e as almas com os carvões consagrados.   
O debuxo atiçou fundo nas texturas e demarcadas ficaram nos grilhões os limites das posses encarvoadas. O aviso para os infinitos, para os vivos e para os falecidos era o nefasto-nefando, seu e só seu só do seu latifúndio de solidão, só, da sua loucura-sadia, só, da sua desesperança-esperança, do seu inferno-celeste, do receio-corajoso, do seu imponderável-previsível, só. Confirmara-se ali o espaço ilimitado grilado das fatias de rancor desprezadas, da fadiga agônica, domínio do intangível, do inalcançável. Os invasores das terras, dos aléns, dos sonhos, abstratos, das insanidades e das ânsias respeitavam e acatavam os frontais tisnados de Cadinho. O tempo e o espaço se dividiam entre a labuta dos arrastos sofridos das cargas intermináveis pelas ruas infernais e se findavam nas bocas das noites, depois de delineadas as divisas mágicas encarvoadas como posses suas, aos pés dos sinos divinos da igreja. Era a magia do nada na alucinação do vazio pelo poder do irreal, que se estabelecia, se instaurava, se tornava concreto, inabalável, tão só cinzelado pelo delírio e pelo imaginário do catador de dores e papelões descartados. Neste império os mortos afetuosos enlambuzavam suas solidões, os vivos fugiam ameaçados, as almas acalantavam afetuosas. Era por ali dos encarvoados encrustados a sete barrocas de sofrimentos que retornava ele aos seus Oitões, terra acarinhada e saudosa dos sertões ressecados, das catingas, da passarinhada, onde fora parido para a vida e de onde fugira abortara aos destinos das danações pelas secas.
E ajustou como domínio de fé indiscutível, descendo as ordenações das posses, perpendiculares dos benditos telhados abençoados desde as torres tristes da matriz, serpenteando chão frio e lambuzado da confiança no destino, apossado tudo ficou.
Ceflorence     04/09/17         email   cflorence.amabrasil@uol.com.br

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

VELÓRIOS-ATRACANÇAS-DESALMAS
Nos exato do tiro golpeando o peito, o trançador das benções, rezador dos couros, cantador dos improvisos, jogador de truco, meeiro das almas foi despachando a vida no intuito de livrar as dúvidas, se imiscuiu torto ao florido do maracujá assustado e atreveu a achar o caminho para beijar a morte. O morcego nem esperou a coruja para voar pelos cantos a procura do desespero. Camiló depositou o espírito na formosura da flor de maracujá, desanimou de proceder.
A flor mimosa do maracujá recebeu o último beijo, boca sangrando, Camiló esvaindo, arrepio de começo, desatino de fim. Subia da Várzea da Malita uma tristeza salobra por ordens das maritacas alvoroçando suas sintonias. Amealhou a flor chorando, machucada com o sangue pingado, compartilhando destino com a brisa soprada da capoeira pela seriema acabrunhando condolências. Tramando cortar caminho pela trilha da capela a flor se persignou nos ensejos dos respeitos, insinuando por dentro do cemitério. Derivou a graça nos atinos calados dos cantos pausados dos pintassilgos voejando entre as quiçaças e atendendo a tristura da morte, subiu serra longa, a flor, para notícia da triste sina chegar. Enquanto entumecia angústia envolvida no vento manso, mudo, a flor rodamoinhou a moita de bacuri e  espiou Inhazinha, mulher, enxaguando as roupas, ninando as tristezas, proseando, só sozinha, suas lamúrias, no córrego e se fez de silêncio aquietado até a coragem parir a vaza. Caminhou a flor pelo sítio nas pontas dos caules, assomou a meninada dormicando uns restos de noites.
Não afoitou o maracujá florido de achegar Inhazinha amargando prosa sozinha com as roupas, cantarolando ladainha de muxoxo no ribeirão, cismando previsões de desajustes sem a chegada, na véspera, de Camilo e trançados. Aguardou a flor, quietada de melindres, lacrimosa, amuada de silêncio, ajuizando cisma, encimando o pé da aroeira madrugando seu olhado sobre os vazios. Atinou as conversas de Inhazinha consigo mesma e mais deus, água correndo por baixo das roupas enxaguando. Bambeou a flor do maracujá, desabonada de promessas, pela picada miúda, arrodeando as taboas e desflora arroxeada de dessabores no pé da tábua de peroba molhada das roupas sovadas. Inhazinha nem destina, emudece, desestorva a angústia para saber que já sabia o recado correto do maldito feito pela flor portado, enroscando desgraças e carregadas do ranço forte de morte tida. Notícias recebidas, no rodopio do vento, seguem em passos de amaldiçoadas infelicidades a família em fila de índios calados na sequência das agonias. E seguiram a flor voltando mesmos passos da vinda convicta de suas prerrogativas de testemunha de sofrimento, os destinados a encontrarem Camiló ainda abeirando mesmo lugar onde atirado fora pela garrucha na Bica das Putas e gente muita acoitando o corpo desprovido de vida aguardando as soluções.
Misturou na fartura de gente de todos conhecidos amigos e sinceros respeitosos, em sendo Camiló, chorando povos se puseram para sofrer ausência por morte. Amizade debulhava no atento, cada afeto sempre acatado, sendo o velório atendido por boiadeiro comprador de trançados, puta carente de carinhos, massagens e premonitórios, jogador de truco, aparceirados nas refregas das jogatinas requentadas, criançada mole de sorriso farto embalada alegre nos cantos macios, nas estórias silvadas, nas delongas fantasiadas.
A roda se formou e a família acercou na precisão da carência. Fim de Camlió que Oitão desviu para sempre e saudosa por morte desmerecida.
Ceflorence – e-mail: cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

OITÕES DAS DESFORRAS E RETIRANTES
Atiçara sina amanhecendo de briga desaforada, Cadinho Prouco, pois palpitava carência, como do pai trouxera, a muito, dos rincões das saudades. E carregou consigo dos cerrados secos, vila arruada de poeiras rezingadas e encardidas, Oitão dos Brocados, de onde a desfortuna o arrancara sem remorso. Urinou Cadinho largado no sopé da torre da catedral tal qual se deu e o fez bem, como gostava, sobre os seus tisnados encarvoados de silêncios e tristuras. Cinzelara certo ali, noite anterior, emprenhado muito de amor e respeito às cativas preces, magias suas ajustadas aos aléns nos recados postos, como a mãe sumida lhe ensinara para nunca deixar de reverenciar orixá e deuses, atendendo cismas de cumprir promessa de sucateiro apenado às des-abençoadas mágoas tantas. Prontidão do rumo do catador fora desembocar raiando sol pelas incertezas de dia todo rasgado em tarefas incalculadas no garimpo das agruras por restados, mitigação de descartados, desaforos, devaneios, rejeitos dos vazios, desprezados, refugados e das sobras inúteis dos outros gentios sobre-sofrer ele na merda. O delírio arrotava azedo na cabeça perdida do catador. Assim se dava o troado encrustado da faina, labuta arrolada nas desditas e tramas de Cadinho se desentendendo consigo desde o sol intentar poente. Desatrelando dos manejos e desmandos, ora sendo, afinadas as contas da trabalheira, pouca monta sobrara, nadinha a bem prover, a noite chamou recanto de volta, depois de arrastar por uma jornada bruta inteira e cada despautério o carro, foi atinando achar seus refúgios e o carreteiro de sobrados juntou os catados pegos e volveu. Os ventos embalaram as sanhas e os pássaros enrolados carentes nas solidões se acercaram dos aninhos e pelo sim, depois das desforras, Cadinho afinou em propositados de assumir abrigo também. Corpo moído apontou demanda, alma prudente atendeu premente.
            Inteirado no vir das providências, o arrastador no tirante da carroça deu conta de seguir bem pelo meio do atiço do burburinho unhado do tráfego, carcomido, onde urdia demência, recalcava agrura, para então o torvelinho debulhar confusões como brotoejas nos rastejados dos carregos das caixas de papelões, latas, lamentos, velhos ferros, desforras, sobras várias, vazias garrafas, desaforos, pesando tudo uma servidão de penúrias. Angústia sobrava! Nas cismas o mundo reciclava matéria, espírito, deuses cuidassem. Arquejados, arrastados, pneus encruando, encastoados no ódio e nas pedras, no desassombro do destempero, fôlego encolhendo as vistas de carência de atiçar achego ao despontado final, puxado peso encarnado sobre os paralelepípedos cravando, amargos, Cadinho Prouco, gemido goela vasta, atazanava as rodas vadias, debochadas, para os ajutórios implorados às morosas no levante proposto da carga infame de pesada até restado aprumar. Restado fim, meta Praça da Catedral da Sé, dali então acenando já às cruzes dos campanários da igreja deslumbrando eternos. Cadinho alavancado, no limite tendo, desespero, tormenta, corpo inclinado teso nas pontas dos pés descalços enroscados à agonia, clamando aos bofes prontos para saltarem dos pulmões chiando, caminhava pouco, movia por vez um dedo de nada, se tanto fosse a dizer. O tempo se desfazia em amarguras sórdidas e nos derradeiros a boca arfava descompensando canalha.
Ceflorence     24/08/17       email     cflorence.amabrasil@uol.com.br