quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

CARREANDO AGRURAS
                Cadinho Pé Solado não conseguia ajustar pensados seus atoleimados dos desaforos adiante dos tropeços a cata de pisoteá-los, rasgando fundo, querência de esquecê-los por ali logo, pois. Mas as malditas ideias apartadas um nada a mais das pegadas, gemiam debochadas da estupidez sua. As danosas, injuriando, se refaziam de intrometidas nas desventuras como gostavam de ser a fome e a miséria. Ajuntavam-se as três condenadas e vinham corroendo abeiradas, subindo no carro moroso do sucateiro enrodilhado em devaneios e desmedindo esperanças. Cabeça filha de uma puta de deprimida, prestante só de catador de desdita. Fizera-se dia cedo na manhã que fora à luta Cadinho, pois palpitava carência e urinou largado no sopé da torre da catedral sobre os seus riscados encarvoados de silêncio e júbilo. Cinzelara na noite anterior as suas preces, magias ajustadas, recados aos aléns, atendendo cismas de cumprir reverências de sucateiro. Depois de dia sofrido ajustara retorno e o carro enroscado.  
                Do vácuo, saindo nisto de um canto rasgado do sofrimento, desviando dos inexplicáveis, saltitando altivo sobre o inesperado, Cadinho atentou emparelhar consigo Simião Cigano, anarquista, na desfeita, depois republicano-abolicionista, mas no proveito, vidente considerado efervescente nos premonitórios pelo catador para desarvorar penúrias. Assassinado ali, Cigano fora há cerca de quase século, naquela mesma Praça da Sé, pelos cascos ferrados da cavalaria militar rancorosa, tentando impedir manifestação favorável à república. O revolucionário passou a cirandar pelos pedaços e implicar jocoso com o dono do pastel ordinário e da garapa azeda, Seu Laudino, desfrutar da prosa azul de Merinha Cafetina, bordeleira, ouvir o canto choroso do cego Croágio Borta, na viola afinada em riachão, aciganar com o Dr. Artépio, religioso dominical, advogado da porta da cadeia e devoto da tradição, da propriedade e da sua concubina das sextas-feiras, cortês com o veado do padre, o Necauzinho Zola, e com o padre veado, Monsenhor Rócio, provocante dialético e irônico nas tertúlias com o libanês-cearense, o jornaleiro Bercati Palo Asmzim, comunista ferrenho, torcedor do Nova Ponte da segunda divisão e devoto de Oxum para os acalantos espirituais mais confiáveis nas desditas esportivas e nas autocriticas materialistas, subjetivas e inúteis do partidão. Mastigava o abolicionista, muito a gosto e atrevido, uma réstia verde de esperança, roubada do bicheiro, enorme de gordo, sentado à porta da Bodega do Catetá. Segurava o cigano petulante um violino sobre o ombro direito, pois em sendo canhoto de manejo carecia, e deixava cair pelo esquerdo uma camélia rosa, símbolo pelo qual lutara e fora esmagado à porta da matriz.  
Cada badalada dos carrilhões envolvia uma delicada sutileza azul, distinta, de ilusão dispersa em fantasias. Simião advertido, como sempre sim, colheu muito ciente e rápido, com ternura, penca graúda das disputadas fantasias ilusórias dos sonidos debulhados, lançados suaves pelas torres ao infinito, para manejá-las no bom proveito a ser. Assim sendo o momento justo, aliciou o cigano às sonoridades antes dos pássaros ladinos roubá-las, como em surdina o faziam sempre, escondendo-as em seus ninhos para apetrechos terem dos melhores tons dos tempos vindos e usá-las melodiosas nas regências apropriadas dos solfejos cadenciados e singelos das escalas musicais para os filhotes aprendizes. O gitano habilidoso, com as tonalidades diversas recolhidas dos sinos, lambuzou os eixos das rodas e enfeitiçando-as com o esplendor dos tinidos do violino atiçou as ganas do catador de agruras para desesperado arribar carro, tristezas e sucatas ao topo do destino da matriz aguardando-os.
Pássaros, carrilhões, aléns e santos os saudaram à Sé chegados e deixaram assim repousar deus e os tormentos antes que os demônios se fizessem ser atrozes.
Ceffloence     11/01/17              email    cflorence.amabrasil@uol.com.br

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

DESENCANTOS A CATA DE DISTÚRBIOS.
Pois, mais em tendo viola afinada em riachão, assovacada viola sofrida, arrastando-a Atérpio do Bogato, atiçado e desbrioso de seus segredos sem provérbios, apesar das maledicências repetidas de que era fanho e pigarento no solfejo, cantava mesmo na porta do mercado velho, ali, cantigas que debulhava das desenrustidas por debaixo do travesseiro, como madrinha Agaté das Angolas largava e, por sido sendo, gostava, carinhosa, de vê-lo parir inspiração e verter tristeza. Amaldiçoando, Artépio, a vela de deslumbrigar sina, acabando sobre o caixote servido de criado-mudo, acordou entesado de dividir o nada em sete versos de cruzilha e duas desfeitas salobras deixadas pelo demônio na Trageúva dos Catados. É assim que se fazem as agonias e outras solidões prozadas em São Salomão dos Retidos, arruado das faltas de porventuras, mas tudo no se-apresente e nos repiques de Artépio. A morte se hospeda por lá antes de desaguar mundo e descarnar desterrados. Pois bem saiba, o senhor!
Então ganhavam sanha os estropícios que nas madrugadas se engalfinhavam, segundo prevenia Frei Simião Barbucho, capuchinho abnegado quando fungava rapé na sacristia e amaldiçoava o sereno na boca de noite, tudo para desparelhar o confronto entre o roçado aberto nas quiçaças de Artépio e as sementeiras canalhas das assombrações vadias das almas sem rumo. O demo, antes que esqueça eu e deixe para trás, atazanando descompromisso, como de seu feitio e maledicências sempre, vinha mascado de artificiosos, desovando umas saraivadas pelo descaminho e sem destreza acertava uma no casco e as outras a ferradura saia do lugar. Nem sei por que lhe repito sempre, a vosmecê, homem de muita ciência e sabedoria, estas arengas indevidas, despropositadas, que fim não tem? As modas violadas tracejadas por Artépio contavam tudo muito carcomido de justezas, pois cantitava ele, no mercado, que a procissão das lavagens das almas transviadas se perdeu pelo Boqueirão dos Queimados e sobraram umas perengas de gente sem trilhado, que os bateduros do hospício levaram para usar na servidão de tentar desloucar. Se tal deu positivo de cura dos desabnegados, depois das sovas benignas, Artépio não deu de figurar no canto.
             Quem bem falou, mas não disse por que, foi Domato Entortado, que assim se deu alcunha depois que a onça no cio o estropiou destroçado em tiras no Espigão dos Assombrados e desperdiçou pedaços graúdos seus pelas quebradas e tabocas descendo. O restinho a onça mastigou e cuspiu, levou meia bunda, faltada, mais um terço de arruinado sovaco embaixo do pescoço servindo má-lê-má para gingar a cabeça entortada e dura. Os sobrados todos, de pouca serventia, desolhavam só por descuido. A mão canhota encurtou no restolho do ombro encolhido e assim carecia um solavanco de cotó de perna para alcançar a muleta. Mas imputou nas rezas, por milagre tido, e eriçou Domato dois paus de embira enforquilhados em cruz no lugar da desventura, tudo confronte ao cemitério onde lobisomem procria na lua cheia.  
Afirmo, destino este se deu cantado por Artépio, pois carecia Domato seguir magote de bezerro alongado, sumido no nunca mais; deus não viu, nem não campeou. Imagine doutor se a viola estivesse desafinada e o capuchinho não fungasse rapé. 

Ceflorence   21/12/16    email  cflorence.amabrasil@uol.com.br 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

PROVÉRBIOS E TESTEMUNHOS.

-Pois falo, pois! Digo até! Como se fosse sete palmos de corisco e praga dos infinitos, risco arriscado fundo, vindo do poente catingoso por muito desmamado, grosso, como cascavel no cio desconjura a bicha, do lado canhoto que o lobisomem desacanhava e por donde ele dissimula as pestes, a saudade, a porventura e outros catingados seus. Foi assim ali, lá, o acontecido, Doutor. Careço do atento de sua senhoria, doutor, por verdade e respeito, para não dizer que minto, pois o contado se deu nas horas dos desvalidos, a mando de um traquina qualquer, das putas filho, com certeza se diga. Arribou o acoitado no propositado de cumprir, por despeito, mandado de quem parira promessa de querer ver Farcato do Roncador amortado, morrido sem unção e só na certeza do tocaiado ficar defunto de bala e faca, ensanguentando. Fustigava tiro escapado de cartucheira, um arribando outro em riba, apontado do matador profissional na tocaia; tocaia sabida de não ter saída para Farcato, até mesmo ele, dito correto, ser de garra atazanado jagunço crispado, pois era.  
Acantonado no pé do Morro do Sumidouro, baixão da Capoeira dos Confins, ali onde o senhor doutor conhece e caça, me ouça por atenção, sem ver rastilho de escapar do tinhoso atirando, ruminou o entocado, Forcato, no sentido de esperar o sol se entestar em preguiça. E nem acendeu o pito, deu ele conta de ser, para o gabiroba atirador não entortar na desconfiança de medo ou covardia. Ah! Atente por favor. De um lado subia pedra, de morro um tanto acima, que nem deus unhava, sim, de tal digo, urubu tinha medo de despencar de lá. Do outro lado, mata de afogar corisco, ouriço andar de costa para não se enrascar nas urtigas, jacu criado não deitava conforto de ciscar. Pra banda do grotão não adiantava atiçar de embicar no rumo, pois pelos riscados do estouro da pólvora se esfumaçando, se via o intendo do pestilento, emboscado ali no coito, esperando o tempo ranger na sina de dividir Forcato em rasgados pedaços e as mais torpezas. Deus desandava de provérbio para não dar serventia à sorte, sem saber de antemão o lado de beijar o trilho reto. Quando deus não toma partido, vosmecê, escolado, sabe bem, a coisa é carrancuda, feia, carrasca.
Nem digo doutor, por dessaber, razão de voltar estas desardiduras, agora, que o meu tempo de velho carcomeu muito, desabusado de insistir viver sem saúde. Fiquei entravado e a coruja já estirou a arapuca de cangar gambá para me desparir da vida. Mas vi correto como a coisa se deu e provo pra terminar o testemunho. Farcato, quando se viu no oco do perdido, arrepiou de coisa ruim, assumiu de lobisomem, fedeu feito jaratataca de restingão, urinou na boca da garrucha, despiu das, de todo, roupas desnecessárias na fuzarca e fuzilou no sentido das demências. No quiproquó o vento dobrou mudança de rumo, a coivara deitou no varjão, a pedreira disse amém e o tiro calou. Aquilo virou um tormento de despropósitos desfigurados; o resto se deu. 
            Pra descerrar, Farcato eriçou de peixeira atiçada, garrucha baladeira chispando. Peludo de pelado saltou na quiçaça do acoitado mascando seu destino de fim. Deus desolhou o resto e eu nem vi se sumiu ou se se quedou Farcato. Pode crer doutor; se fez o que vi, doutor. O sol dormiu cedo, pois o medo me desmediu destampado. Foi!
Ceflorence      09/12/16   email    cflorene.amabrasil@uol.com.br

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

FLORES, COLIBRIS E FANTASIAS.
     Entre o infinito, refúgio dos delírios e repouso dos inexplicáveis, de onde a sina se arroja para enredar-se com a probabilidade e cada qual dos duendes, das amarguras ou dos loucos possa colher como for capaz e mais a contento, e o jardim de Abcarja, vidente das melancolias e das cores, exatamente onde as fantasias e os sonhos brotam, um beija-flor despojado de desejos depositou, ali, nesta confluência, ao menos duas de suas últimas lágrimas recolhidas entre as remanescentes das rimas e das poesias. A solidão abandonara as lágrimas colhidas pelo colibri antes de se maturar em angústia e esgarçar as incoerências dos destinos, das alegrias almejadas, das tristezas inevitáveis e dos amores ansiados. É assim que se fabricam as quimeras e este era o jardim do cuidadoso e apaixonado Abcarja, arguto profeta. Estendiam-se os canteiros como deus dispunha: o canteiro florido, colorido, das euforias entremeadas de graças ruivas e sutilezas singelas, o dos desejos, sombreados pelas felicidades em botões.  Na outra extremidade se confinavam, par a par, muito petulantes e agressivos, os canteiros da inveja acre, do ciúme sádico, do amor sensível e o da vaidade velhaca. O vento visitava o jardim de Abcarja, para se espalhar em seguida, ardiloso, pelo mundo e contar aos ansiosos as delícias das suas alegrias, cores, magias, mas não esquecendo, jamais, as agruras.
     Era pelo andarilhado livre, sorrisos desperdiçados à conta das alegrias, no jardim, entremeando canteiros e delírios, que os carentes das esperanças se deixavam a brincar soltos e livres, sentindo os perfumes dos sonhos recobertos de fantasias, provando os coloridos dos desejos apegados aos seus medos e fugindo eles das alamedas das tristezas; alguns intendendo pisoteá-las. Mas os porvires dos canteiros castigados se exibiam mais floridos depois de maltratados e judiados, como só os aléns sabem fazê-lo. E por assim sendo, tal se dava com os canteiros sortidos de esperanças ameaçadas de frustrações ou das amarguras contestadas; Abcarja colhia suas plantas para tecer os ornados dos buquês premonitórios, procurados pelos visitantes, vindos com as romarias distantes, intermináveis e chegando sempre a procura dos imprevistos, dos aléns e dos confins. Com as sacolas repletas das suas seguranças afetivas ou ilusões proscritas, retornavam aos seus aconchegos os peregrinos dos pressentimentos, carregados e satisfeitos graças aos buquês de verdades existenciais articulados caprichosamente por Abcarja.
     Ao anoitar, em seus amparados sossegos, os visitantes do jardim de Abcarja, escondidos pelas vigílias dos seus sonhos, espionam seus floridos destinos e os proíbem de murchar. Lembram os fiéis de Abcarja, que enquanto a madrugada se faz, o colibri se disfarça de magia azul e se alucina pelas imaginações do infinito.
     No retorno dos sonhos, lampejados de eternidade, sempre vem o beija-flor carregado com suas lágrimas, para nutrir os poetas e menestréis com as rimas e os delírios com que tecem seus versos e canções.
Ceflorence       03/12/16           email  cflrence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

SETE ANGÚSTIAS E DUAS CATÁSTROFES
Pelo que restou como sendo intermitentes lembranças de Antério Álaco Nunhóz, tudo se pautou após cruzar ele o extenso corredor chamuscado de azul, agredido nas bordas pelo tempo, permitindo-lhe, devaneado, acompanhar as andorinhas sobrevoarem sob os bolores do teto. Eram pelas indefinições conjugadas, aleatórias, dos bailados voos das andorinhas entrecruzando os manchados forros, que se desenhavam as claras previsões do seu próprio futuro, desvelado por Antério para si e para os companheiros do sanatório. Enquanto decifrava os volteios, sob os borrões, Antério sorria e saudava os vagados espíritos dos falecidos internos do hospício apegados ao local.  Nada havia no ambiente sem ser meticulosamente envolvido em signos, em símbolos, em hipóteses, que fugisse à acurada percepção de Antério. Quatro enfermeiros agitavam-se pelo corredor com suas bandejas de remédios e seringas a cata de compromissos, assistências ou fugidias escapadas às preguiças.    
Antério, camuflado, arrastando-se lento pela sombra para despistar o demônio, envolto em seu cobertor de lã crua, se inteirava das probabilidades futuras ao acompanhar, pelo corredor, os profissionais da enfermagem, cirandando entre os doentes nus, descalços, fitando o nada, ouvindo o infinito, se masturbando. Por serem os atendentes, um negro, dentes perfeitos, um obeso de meia idade, uma enfermeira nissei, loira, de óculos escuros, um homossexual extrovertido, envolvidos todos em socorrer os estáveis com afagos e os agitados com camisas de força, concluiu Antério, corretamente, não haver contradição das andorinhas revoarem do vitral central em direção à capela, respeitando sempre os signos do porvir, mas contra a luz. Tudo era tão claro na evolução das aves aproveitando a queda da brisa e a ascensão da constelação de Aires, grafada no imaginário de Antério. A reflexão das demências ou sanidades sobre os atores era literal: almas, andorinhas, enfermeiros, doentes, futuro, desejos, ansiedades, bolores, mudez refletiam destinos. Os aparentes paradoxos eram um livro aberto, uma homenagem ao óbvio, a ser lido. Tempo, silêncio, contemplação, fé; na capela Antério sussurrou a Caltégio Recil, que fugisse da fila de comunhão da esquerda, pois as hóstias ali oferecidas pelo sacristão, um estroina, e não pelo monsenhor, foram desconsagradas arbitrariamente, sob a alegação de que o cálice delas habitara o ofertório do beligerante São Jorge, ativista de candomblés.
Confirmara-se a exatidão dos fatos, pois o próprio Antério consultou seu pé esquerdo profundamente afetado emocionalmente e só aguardando as determinações do imponderável, que o mordiscava insistente sob a bainha do cobertor. Hértese Ábias, companheiro de quarto, confidenciou-lhe, de soslaio, que se a lagartixa eufórica o provocasse novamente seria deixada em jejum, lambuzada em angústia com ejaculação e a hipnotizaria para exibi-la às visitas dos parentes dos dementes. Antério considerou que a sanidade de Hértese estaria em fase bipolar. Habilidoso, com carinho, despregou Artério um triste reflexo da gota chuvada pendente sobre o vitral e beijou o mimo antes de entregá-lo a Hértese. Dissuadiu-o assim de gestos agressivos, pois haveria sempre o conflito existencial: morreria o dia em solfejo ou o pesadelo galoparia sobre os delírios? Signos das hipóteses ao cair da noite, solidão e destino.
Ceflorence     28/11/16    email          florence,amabrasil@uol.com.br

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

AZUIS, CONFLITOS, SONHOS.
Pode-se, do infinito e do além, atender o chamado ao Adhan, a sagrada prece dos devotos islâmicos ao Senhor Poderoso da criação, da morte, da vida. O canto lúgubre e sonoro dos Almuadens, acalentados nas solidões das altas almádenas, que os impuros depreciam suas imagens ao nominá-las de minaretes, reforça a imensidão do poder e da santidade de Alá. A hora é de fé, labuta e destino para a reverência e a genuflexão lavarem a alma e cremarem os pecados. Enquanto os pássaros volteiam pelos mesmos serpenteados do rio encantado destinado à purificação das virgens, nada melhor do que se envolver abismado pelas ruelas e becos, a cada passo dado, ao desviar dos tapetes cobertos de oferendas, ao léu, no mercado de Ranjihad, na Estípia Superior do Grantihá. Alá seja maior e proteja sempre os justos nestes destinos de amor faltante e angústias imprevistas, enquanto não os conclama ao juízo eterno. Exatamente com os indispensáveis cuidados tomados para os pisares cautelosos não molestarem as oferendas fartas expostas, circulam os transeuntes carentes à cata das escolhas das melhores fantasias e das mais delicadas imaginações.  
Cirandam despreocupados sem maiores atenções os curiosos, até se encantarem, estarrecidos, à frente da tenda de Lehann Bandiche ao verem, descambando, esparramados da porta até o mais íntimo interior, aconchegantes, mas desordenados, os melhores delírios e os sonhos mais sutis por ele roubados das deusas imagéticas. Meticuloso e tão logo as chuvas miúdas e alegres de verão terminem de brincar de enxaguar o infinito, Lehann se atiça competente para o sequestro dos sonhos novos e delírios saborosos, que as deusas, cautelosas, tecem no âmago das suas intimidades, com carinho, para alimentarem os menestréis e os poetas. Reclamam as Deusas-das-Cores entrelaçadas ao pé do arco-íris, serem sempre os melhores e mais caprichados sonhos e delírios, que o sagaz mercador, Lehann, lhes surrupia nas caladas das madrugadas, sem as recíprocas compensações de fantasias e, pior, sem remorso algum. Fantasias são as matérias primas, edulcoradas, revestidas de delírios para refazerem eternamente os devaneios imberbes.
Os sonhos e os delírios roubados por Lehann são disputados por seguidores abnegados e viajantes indômitos, após atravessarem desertos de insanidades e mares bravios de loucura. As virgens chegadas escolhem seus sonhos na tenda de Lehann para despirem seus véus diante dos príncipes idealizados em sonhos. Os moços descem de seus corcéis fantasiados para, ao luar, imaginarem ousadas bacanais com beldades acaloradas, nuas. Os idosos ouvem em silêncio e dos confins, os ritmos dos próprios desejos inconscientes, ao sincopado dos Almuadens, aguardando as promessas de garantirem lugares destacados, entre brumas doces, eternas e suaves, ao fantasiarem seus sonhos de além ao lado de Alá, todo poderoso.   
Madrugada: tão logo o silêncio se apodera das almas e todos adormecem, deusas e Lehann conchavam no recôndito das iluminuras, ao pé do arco-íris. As deusas se refazem, sorridentes, rastreando as virgens, os mancebos, os idosos e em surdina escambam os sonhos roubados, então sob os travesseiros, pelos pesadelos mais calhordas. Os almuadens lançam sobre as deusas e Lehann as benções calmas de Alá.
Ceflorence    22/11/16      email   cflorence,amabasil@uol.om.br

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

RENASCENÇA E ENTROPIA
            Muito nos primórdios, antes até do entrelaçamento das poesias e dos azuis brincarem de beijos ao gestarem utopias, quando as lágrimas se recolhiam e os sonhos desabrochavam, mesmo anteriores a criação do aqui e do agora, só se apresentava ao infinito e ao porvir a sólida imensidão do nada. Tanto que se deram os relatos, estes, transcorridos nos inícios dos quatro bilhões e meio de maturação, mensurados em anos de fantasias, os quais precederam o período posterior compilados em badaladas longas, mas decididas, já nos atuais eventos-luz. É fundamental registrar, portanto, que estes fatos lastreavam-se no abstrato, no imaterial, meticulosamente grafados só sobre o além e envoltos em brumas suaves, mas vazias. Nestes incontáveis etéreos bailavam ao sabor dos acasos indeterminados e sem qualquer rumo ou objetivo o conjunto de sete deusas, gestantes posteriormente do que se chamaria universo. Na contrapartida dos intangíveis, instigados de despautérios, tresandavam os seis demônios, articuladores do caos e da entropia. Foi assim que se consolidou, passados milênios, com estas matérias primas básicas, criação e caos, então manipuladas em conjunto pelas deusas e capetas, o incomensurável e eterno cosmo.
Nestes idos agitavam-se babeis de desentendimentos entre os demônios eriçados e as excitadas deusas, inebriados de nada, os quais, pura e simplesmente, perdiam-se pelos labirintos dos infinitos vazios. Pairavam em todos demoníacos endeusamentos angustiados pela indefinição do futuro. Confirmavam-se, portanto, as afirmações: a angústia, filha da liberdade, desandava entre as carências das opções sem saberem as divinas e os endemoninhados como fugirem das inércias pachorrentas. Habitavam aquelas deusas criadoras e os demônios caóticos imensos despovoados à esquerda do todo poderoso nada e este assistia indiferente alongar-se pela sua direita sem conta o vácuo perene. Neste inacabado conflitante porvir as alegrias e os motivos da vida como a ética, o ódio, a moral, o pecado, o amor, a inveja, o arrependimento, a preguiça, a luxúria, a saudade, o egoísmo, o gozo, a ânsia e as infinitas emoções, incontáveis, substâncias indispensáveis para fruir o existir, ficavam zunindo desocupadas, desvalidas e soltas em torno dos deuses e capetas ociosos.
Deusas e demônios, na solidão do nada, passaram a brincar de perseguir os desejos, os amores, os ciúmes, os gozos, as emoções e os sentimentos todos que fluíam pelos vazios. As sensações bolinadas e trocadas de mãos carentes foram acarinhando as deusas e excitando os demônios. E das bolinas trocadas se instigavam os afetos, lambuzavam-se os desejos, desapareciam as distâncias, lambiscavam-se os ciúmes, enalteciam-se os gozos: “censuras libertem-se” esgoelavam os infinitos a cata dos desejos. Delirante amanheceu o azul imenso da orgia retardatada e o provérbio conchavado ao infinito sorriu ao despedaçar o nada. Deusas eróticas, carentes, arreganhavam desejos úmidos excitados para receberem os caos diabólicos eriçados.
Deusas- demônios, gritos felinos, prantos, orgasmos: sorri deus, amassando o barro, com que lapida à sua imagem e semelhança, o homem, o amor, a inveja, a ódio. Cria, pois a vida, o cosmo, o sonho, o delírio e assiste o caos e o imponderável.         
Ceflorence    16/11/16      email    florene.amabrasil@uol.com.br