quarta-feira, 15 de março de 2017

DOZE DIAS E UM TESTAMENTO.
            Eram insistentemente azuis as escalas em sustenidos das colcheias poéticas, marcadamente singelas e alegres, das últimas gotas de solidão que consegui ouvir à distância procurando afagos entre duas metáforas de fantasias adequadas. Enquanto tal, as nove luas insinuantes sobradas no regaço da noite dançavam nuas do lado esquerdo da esperança sem preocupações maiores de serem vigiadas pelos aléns ou importunadas pelos alcoviteiros. Meditei, pois no acato às tradições, os tempos se deram a passar e contar, metódicos, por Calendário Juliano e as simbologias se definiram pelos signos de Júpiter, como carecem as liturgias esotéricas medievas. Após madrugada de inação e segredo, há cerca de semana e meia, se tanto memoro, foi-me dado liberdade de decidir sobre os derradeiros desejos a se verterem e plasmarem no final de minha atual existência. Aviso liminar postado traçava pontos claros para locupletar-me em doze dias de festins espirituais ou carnais, dispondo de sete alternâncias livres de preferências a serem usufruídas no intervalo, para despedir-me da alma então, pois o corpo seria desprovido da vida mundana em função dos prazos esgotados. Tal se daria, pois material deteriorado não reciclável pelo uso abusivo não aconselhava nova revisão sem alto custo existencial e risco permanente de desgaste.
Coisas do obsoletismo, discrepâncias sem atenuantes, em sendo a atual encarnação precipitada, total falta de assistência constante e uso indevido, ousado e periódico de produto orgânico deteriorável. A alma já desafinara em fá menor bemol, mas isto seria superado, se o prazo alongasse por outras tentativas de entrosamento. Voltando a tese principal, o recado chegou por uma simpática curva helicoidal, embora de postura heterodoxa, portando sintoma caustico e exagerado de insinuações precipitadas, constante do processo um forte ranço de pretensiosa filosofia fenomenológica. Sendo a filosofia suportada por duas petulantes e exibidas incongruências metafísicas, a mais robusta ligada à escola sadomasoquista, a mais delicada com forte tendência e peso de influência maquiavélica. Com estas iniciais esclarecidas, concluo, em sintonia com os desfechos ocorridos, os dados para minhas exéquias e as lembranças a levar nos derradeiros momentos como relevantes.
 As sete bolinhas de gude vieram sorridentes do baú dos sumidos, aberto na memória, e me gratificaram renascidas no subconsciente juvenil emboladas nas ternuras e nas precipitações das ejaculações precoces. O papagaio de papel que enroscou no varal da vizinha amealhou a recordação da calcinha dela portada, delicada, enquanto me devolvia o mimo, sorrindo, sobre o muro. Depois da bolada na gaióla, o curió morto, que escondi do meu pai e ele pensou que fugira, pipilou alegre na minha janela. A garrafa vazia do primeiro porre arrastou-me à ressaca desta madrugada. Pendurei no tempo ido, do baú saindo embolorado, o remorso, o medo e a vergonha de acercar de Melinha, paixão platônica, enquanto ela enfeitava o primeiro banco da classe com suas tranças sensuais. Por derradeiro e entre os sete salvados que acalanto alçar e levar na despedida, jamais poderia esquecer as pencas maduras de mentiras nobres e trigueiras, que me foram tão úteis e resolveram tanto meus problemas.            
Ceflorence       09/03/17         email  cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 9 de março de 2017

AMENIDADES FUNERÁRIAS E OUTROS ENTÕES.
            Repetiu se, o desconhecido ensimesmado estrategicamente, postura altiva, imponente, caminhava não impondo pressa excessiva, ao contrário, postava extremo comedimento nos passos às circunstâncias, voltejou as exéquias andejas no cemitério, enquanto argúcia e promessas se debulhavam em rezas. Escolhia sua posição preferida, afastada, o estranho, mas sem excesso, do velório e dos participantes. Deste ponto, o misterioso, mantinha atitude respeitosa, introspectiva, de onde analisava os acontecimentos e gesticulava condolências distantes e precavidas. Segurava cigarro apagado entronizado em petulante piteira de marfim. Gestos soberbos, seus, dignificavam o falecido e os aléns. Confabulava com a piteira, o estranho, sobre o abstrato, entediado das metáforas funerárias exibidas eufóricas ao som do silêncio. Desculpou-se com o olhar divagado ao afastar-se, arredio, da Capela do Bom Fim, para não trocar deslumbre de sorriso ou saudação com participantes outros achegados.
O ritual correto do velório na Capela do Bom Fim é amainar o silêncio pela ordem inversa das tristezas e das agonias. Fala primeiro o carregador das coroas, para perguntar aonde colocam as mesmas. Depois, os menos achegados ao falecido embalam a sequência das cerimônias começando pelas mentiras mais aceitáveis, em seguida distribuem anedotas de níveis medíocres, convidam para o café das descontrações e por último se despedem rapidamente por compromissos inúteis. O estranho elegante, piteira sofisticada, visita o imponderável, o silêncio e a tristeza dos outros túmulos. Pelos meandros das sepulturas tristes se divulga a dúvida eterna do que vai acontecer, do porque aconteceu e para quem aconteceu nos lidos jazigos das placas chorosas. A morte é a única garantia após o descuido enganar o destino e deixar o inexplicável nascer. Somente o singular da piteira, acompanha os jogos do destino da cerimônia permanente que é desfazer-se da morte. Enquanto o infinito se disfarçava de paisagem, a piteira manejava as fantasias, pedindo à revoada dos pássaros que enlevassem a alma recém-desencarnada aos desatinos desconhecidos ou outras amenidades. Os caminhos floriram enquanto uma garoa fina chorava nostalgia. Deus definiu seus preferidos anjos para repicarem os tambores e os querubins mais competentes para anunciarem nos flautins que uma alma nova chegaria ao inferno e não mais estaria cometendo pecados nos varejos vizinhos às hordas celestiais.
No Bom Fim, cemitério, ele, piteira e misericórdia, em trindade surrealista, aonde foram dizer adeus, ninguém entendeu tal, pois não havia e nem poderia haver a menor ideia de que o elegante inusitado das invocações era a inconsciência do falecido, fantasmagórica, compartilhando, em corpo e espírito, se as suas fantasias mortuárias estariam se realizando em exéquias sidas.        
Ceflorence    05/07/15      email  cflorence.amabrasil@com.br

segunda-feira, 6 de março de 2017

MANTURÁS DOS MARTINS PESCADORES.
            Foi entre sete rodamoinhos de lágrimas cruas, que Jacofar Marteiro fugido se deu depois dos sete anos de rapa pés e guerra na Erótia do Leste, se preparou para aportar na ilha dos Manturás dos Martins Pescadores, uma das sete, dos sete mares do Entólio. Em função estratégica privilegiada da boca da baia, instalou-se ali fortaleza com sete dezenas de canhões, de sete pelotões de sete soldados, suportados por sete estrebarias de sete cavalos. Foram edificadas sete capelas de sete padroeiros. Os sete carrilhões das capelas saudavam diferentes eventos, com sete timbres de sonoridade. Desembarcou Jacobar, consigo, os poucos sobrados da guerra: suas sete bruacas de couro de sete cores alternativas, sete pistolas, sete punhais de cabo de marfim e as sete epístolas dos sete missais. Do Cais dos Inválidos começou a subir em sete dias até o forte das Sete Agonias, um pouco pelas sete trilhas estreitas e outro tanto pelos sete penhascos que margeavam os sete acessos. Discernia as sete capelas o aguardando pelos sete timbres, identificados até por sete léguas, por cada um dos sete carrilhões.
O guarda-mor, que era surdo há sete anos, intimara o sétimo batalhão, encarregado da encenação sonora das sete capelas da Ilha, que junto aos toques dos carrilhões se hasteassem sete bandeiras com as cores dos padroeiros. O carrilhão da Capela de Nosso Senhor do Bom Tempo, em lá bemol agitava aos céus a sua flamula esverdeada, com cruz grená inclinada, despedindo-se dos marinheiros, dos passageiros e dos mergulhões rumando para os imponderáveis. A alegria, em ré maior, do carrilhão da Capela de Nossa Senhora do Bom Parto, chamava as gaivotas brancas, desocupadas de nostalgia sobre o rochedo da ilha, para bicarem trigueiras os infinitos do horizonte, pois a cor-de-rosa hasteada saudava a chegada de mais um recém-nascido. Os cavalos eram alimentados no forte ao eriçar-se bandeira chumbo na Capela de São Francisco de Assis, protetor dos animais, acompanhada das badaladas em sol do carrilhão e os animais ouviam antecipados o som melódico da forragem chegando às sete.
Os pescadores das sete praias da baia jamais se faziam às velas em suas sete jangadas aos sete mares, sem ouvirem durante as sete léguas os carrilhões da Capela de São Pedro, afinados em sétimas de mi, com a bandeira azul. Findadas as jornadas, o chamado carinhoso do timbre do carrilhão da Capela, em mi, era o guia seguro dos pescadores, para trazerem às sete praias as saudades. Em si natural, o carrilhão da Capela de Santo Antônio, santo casamenteiro, jogava manso o vermelho da sua bandeira às brisas, para encontrar-se com o poente das sete pedindo aos namorados apaixonados, que se lambuzassem de amor para povoarem as sete terras do Senhor.
O almirante, depois de sete dias da difícil subida à fortaleza, que o acolheria por sete anos no comando, persignou-se sete vezes, deixou cair sete lágrimas de gratidão e prometeu sob o som das sete notas musicais, dos sete carrilhões, que mandaria enforcar durante sete dias, sete prisioneiros de sete diferentes nacionalidades, sempre as sete da manhã, para marcar os seus sete últimos desejos.
 Ceflorence  21/02/17    email  cflorence.amabrasil@uol.com.br  

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

AMARGO CANTO E OUTRAS PROSAS
             A coruja mastigava silêncio e assuntava infinito sem consultar partitura. E dali, do silêncio, amargou a olhuda ave, prestadora de muita atenção em tudo ocorrido nos contornos, dúvida se veria ainda Macaininha, puta de serventia e profissão, em Jenicoára, montada desde os treze por bicho xucro, sair com vida até a madrugada. Deu-se por vencida, Macaininha, e abriu, por derradeiro, as pernas estropiadas nas rameirices, nas camas sujas e nas cafuas velhas, para cuspir, pela boca calada da buceta, Tiôco, Teocrácio dos Boratos e virou sendo o Tiôco da Puta Morta, pois a mãe se foi ao além assim que ouviu o choro do filho. Uma vala rasa deu conta de recebê-la antes de  deus e o diabo disputarem sua alma sofrida e mal informada das destrezas das maldades ou dos regalos das bonanças. Coisas dos filósofos e teocráticos que as miudezas não afortunam.
Quem deu conta do parto, da parida e da partida foi afamada benzedeira, Regala dos Atados, que não recusava curar mal olhado, destravo de parto de jumenta atravessada, praga de lobisomem caçando rodamoinho em noite de lua cheia ou de mulher da vida enfezada de cafetão. Ali, no que Macaininha parou de gemer, o escuro, a mando da coruja cega, espionou Regala tirar, das suas bruacas corroídas, duas talagarças de amarrar demônio e corno bravo e as esfregou na fuligem do forro para dar melhor grude e enrolar Tiôco.
Atirou ali, a título de batismo, dois cuspes na cara do recém-nascido para que ele desanimasse do gemido e aprendesse a não matar a mãe que o pariu antes de pagar a parteira dos provimentos. Sem travados, caiu Regala no rastro do curiango que se amoitava na cruz na porta da capela de taipa caindo. Mesmo no escuro, ela enxergava o canto seco do curiango propondo destino, nos voos quebrados. Curiango contornou um roçado piquira de milho ruim abeirado de um pasto ralado. Ali, no repente, uns cavalos refugaram assustados e resfolegaram tropel de estouro para endireitar pelo riacho, clamando um pouco de madrugada. Quem deu por conta de ouvir de longe a madrugada rompendo solidão foi a seriema do sopé da serra da catinga dos Desarvorados, chamando o companheiro para pedirem aos destinos que mandassem as chuvas faltadas há mais de verão e uns pedaços
Juntou à procissão salvadora do recém-nascido, da puta da mãe morta, a coruja a chamuscar cismados do curiango e acomodaram espertos no beiral do rancho do Mulato Cobra. Regala entrou pisando as advertências nas pontas dos pés e encontrou jacá forrado de maconha, taipa do fogão fartada. Mulato era provedor dos rios abaixo das fartas abastanças das ervas muito carentes  e apreciada em acordos ajustados com o delegado de polícia, o sacristão da matriz e o deputado eleito pela comarca.   
Deus, àquela hora já desperto, deu por ajustado e satisfeito que nascera na zona, de parto triste e terminal, mas fora bem recebido na choça do Mulato da Maconha, Tiôco da Puta Morta, da Coruja Cega, do Curiango da Capela, da Parteira e da Maconha Afetiva. Benção, Senhor.
Ceflorence      16/02/17         email clorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

TAPAJOARA DOS BOQUEIRÕES

            Da taipa do fogão de lenha pitando palheiro de corda do fumo brando e preguiçoso, tão pronto o silêncio ordenou, Vô Aiutinha chamou tempo das enchentes, sabendo ela dos muitos idos, pois memorava ainda menina com pouco mais passados dos colos e de desleitar e para desfazer tristuras de penitência das águas que não vinham nos cerrados há mais de dois verões atiçou de emprenhar saudades. E ladainhou ela na meiguice o que lembrava e por dito falou manso:
-Sabia e sabia de tal qual, o tempo destemperado, mercês das pragas desaforadas dos desacordos entre deus e o adágio, segundo o evangelho de satanás, que o mundo se derretia em voçorocas graúdas, a lama se perdia nas enxurradas grossas, carreadas para o Tapajoára, cortador rio dos cerrados, dos encantos, dos poemas e das saudades. E se fazia sertão chorando só de aguadas para além dos absurdos e das vistas. O vento intendia, ouriçado, de desmanchar o intuito dos passarinhos cantarem para des-brincarem de silêncio. Do jeito dos andados, até o mar, na foz da boca do Tabajoára, viraria brejão dos infinitos, para atolar veleiro, saracura, inveja e carroça, segundo Jatobinho Pescador, quando lançava a rede certeira e ela engastalhava nas quiçaças.
E na fartura d¹água tanta não remediava pedir provimentos aos aléns, acender vela, medir encarrilhada dúzia e tostões de rezas preventivas, das repetidas por Bisavó Geninha Romão Lonvardo, benéficas preces serviçais e cumpridoras nas tarefas de estancar corisco eriçado. Menos progredia proveitoso atiçar sal grosso na taipa do braseiro, enrolado em melão seco de são-joão, bento na certeza da fé cumprida, desde Ramos, pendurado para resguardo das intempéries no fumeiro e amarrado por embira de taboa da Lagoinha do Pererê para esfumaçar exu gonzo, nas ajudas de des-chuvar, como definia carinhosa e beata Babá Miombá do Apucaré.
Insolúvel de ajustar, o chão apodrecia sem sustento de parar em pé quem destemia andarilhar calçado nas bibocas encharcadas. Só dedão graúdo encravado, curto, no sovaco do barro, aprumava postura. Assim mesmo no palmilhado de jaboti curioso e cuidado de cobra no cio. No tormento, se punham os povos, única querência de atiçar fora das casas, por compra de muita carência faltada, comida, pinga, fumo, farmácia do Tio Zefato, reza na capela, se promessa vencida, ou pagar pensão da manteúda na zona, antes que a moça viesse buscar, de sobejo e nos inconvenientes, em lugares indevidos. Maritaca, contavam os que ouviam, gralhava grave, baixo, roco, de constipado.  E sabia tanta água, que Clotário Romão desaturdia entre amaldiçoar o tempo ou pedir ajuda aos santos já desacorçoados de tantos préstimos.
Acabrunhava perdão, tudo, e corria enxurrada no ponto justo de esconder atrás do silêncio o canto da seriema campeando o parceiro na capoeira; triste encanto, seriema e canto, se sumiam no infinito; “oh-deus acuda”, mas nem isto se dava do amparar tempestades. Mas como tudo na vida o tempo debruçou, catingou nos frontais dos pés das serras e a seca desceu do infinito montada no sovaco da jumenta morta na falta d’água e o povo que reclamava dos mofos das umidades das enchentes, virou a amaldiçoar a poeira brava, que enroscava até nas preguiças e nem deus assoprava mandamento de livrar.
Vó Aiutinha apagou o empalhado, para fumar o restado na madrugada, cuspiu o pigarro cremoso e deu sobreaviso da benção para ajustar no silêncio.   

Ceflorence 08/02/17          email cfloence.amabrasi.@uol.com.brl

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

RIO ABAIXO E OUTRAS TRISTURAS
Encorajado, só agora, arrisco escarafunchar medroso passados e tristezas. Ao me dar perdido pisoteio devaneios, como os dos potros embolados que me entusiasmam espelhando fantasias, brincando de solidões e demências ao achegarem às beiras das aguadas fartas do Puntiarã. Por agora repiso minhas ânsias carentes de ousadias. Ousadias jamais emprenhadas, mas fantasiadas, de escrever-te ilusões minhas, o que sentia e, por bem pôr-me, do que ainda sinto. Isto tudo para o vagueio de campear nos telhados velhos e nas paredes escorridas de mofos e decadências do sobrado de onde nunca fugi. Deles, emparedados telhados, abrir-me só agora a ti. Estes desacertos se dão, ao perseguir os desenhos dos bolores grafando, fundo, as saudades e melancolias, do sobrado nosso, nosso da infância juvenil.
Nunca compartilhei, inibição e acanho, digo agora, meus desejos e sonhos por ti, mas, por assim sendo alertado, soube por Leta, minha irmã, também tua prima, que voltarás a Assunhãe e ao sobrado, após sumires por tantos. Naquilo e naquele, aonde e quando o Puntiarã dobra e encobre, te carreando em desfeita a mim, quedado ali eu calei, arrastando junto tua ternura e minha paixão, e o trem sumiu. Abro só agora os desejos para conheceres que na plataforma fria ficamos, abanando mãos e sonhos vazios, a angústia soberba, acossando meus pedaços e o cipoal de desespero. Intuo que tu sabias, sem quereres saber, que tal se dava assim tanto, pois nem olhastes para o adeus e para as duas lágrimas, mas disfarçou fugindo, ou fingindo, tuas vistas à garça pescando melancolias sobre o Puntiarã; e o trem se indo foi. Camondinho, tropeiro, resmungava: “o carnegão difícil de romper é a mentira que contamos só a nós”.
O passado, o presente e o futuro são meras ilusões embaralhando devaneios. Tanto sim, que ainda tropico hoje nas mesmas tábuas velhas, rachadas, perseguindo tuas sombras e ouvindo teus sorrisos, sobre as salas e os corredores do sobrado. Não estarei aqui na tua chegada: o trem carregou meu limite de angústia e tristeza em tua partida. No entanto, o passado estará inteiro no presente quando o futuro próximo te trouxer. Os três momentos te envolverão de melancolia ao te saudar. Verás Leta debulhar pela casa, desde o alpendre até o seu quarto, as pétalas das camélias colhidas do vaso grande, pois acreditou sempre que o Dominho, seu noivo assassinado na zona, há muito, voltará pisando macio as flores para estilhaçar a tristeza que a tomou desde então. No sobrado, o tédio se apascenta galhardo. Escondemos do Vato a garrafa de pinga atrás da bilha d’água e fingimos que ele não sabe e ele disfarça não beber. Coisas do sobrado, dos espíritos mentirosos e que nos sabem bem. A alma de Vó Tiúca estará à janela esperando o Vô voltar do além; não te assustes. A maritaca chocou, como todos os anos, no forro e a brisa beijará, de novo, o infinito e o azul.     
 A ousadia, depois que irrompeu de manhã pelo sobrado, pela minha angústia e pelos meus arrojos, se acovardou de sobejo, subiu pelas paredes encardidas e me espiona do forro carunchado. Eu, dissabores, como sempre soube fazer, caminharei agora, choroso, às margens do rio. Ali continuarei mentindo-me acovardado, depois rasgarei estes rabiscos lamuriosos, lançá-los-ei sobre as águas mansas do Puntiarã e fantasiarei que te chegarão pelos remansos das ilusões e acasos dos sonhos. Beijos.
Ceflorence         email   cflorence.amabrasil@uol.com.br

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

ALEGORIAS EM TRISTURAS E MADRUGADAS.
Apesar das pragas e das maledicências, os conflitos se impuseram invertidos dos previstos, mas exatamente por estes desconformes e nas premências corretas, carecidos de serem grafados sobre as desavenças ou as premonições suspeitas, nem os sustentos das crendices se ativeram esclarecidos, portanto se pariram adjuntos e outras prerrogativas nos embalos. Nas desventuras, por assim, sem solução acordadas, as rusgas sempre rebrotavam daquelas iguais altercações impossíveis de se entenderem, nunca findas, antes de primeiro se explicarem muito claramente as parábolas ou os danos. Amanhecendo, seguiram os acontecidos mais bem ajustados e explicados para que não pairassem dúvidas ou deméritos aonde os encapetados cínicos arrastando suas marcas desde os aléns não deixariam, por atávicas desvirtuações, de engastalharem até os cafundós das demências suas mãos encardidas e propósitos sórdidos. Na forra dos palpites não se atinava mais se haveria razão de recontar, mesmo até porque os preceitos e os provérbios não foram vistos com os mesmo olhos por todos nos sufocos das discórdias entre os garridos enfeitiçados, que lambiam os sovacos do demônio e os outros demais desprovidos de alento, que de deus assuavam cínicos as remelas fingindo arrependimento.
Achegada a hora e a noite morrendo por recato aos eternos, caberia começar a madrugada depois das sete derradeiras estrelas chorarem, acabrunhadas, encantoadas em seus silêncios e por conta das rotinas partirem sem arrependimentos ou rastros mantidos antes do sol ameaçar espioná-las por trás das torres indiferentes da matriz beijadas pelos ventos e pelas desventuras. Corriqueiras e desventuradas ventanias bordadeiras das vidas, das discórdias e das intrigas tramavam as insídias a se assanharem para o que viesse na trilha do sol. E nem se atinava nos preceitos, até por carência sabida de falta de generosidades, arriscar as bateias no garimpo nas biscas das loucuras ou dos inexplicáveis, começando tudo sempre igual e sem intimativas postas como todos os dias eram. Os carrilhões atenderam recados engraçando embalos coloridos para compartilharem aos fiéis seus achegos aos serviços em tempo justo dos portais da catedral abertos, pois nos pêndulos das artimanhas entre o fim da noite e parir do dia, as providências estimulariam os aninhos das putas e dos proxenetas des-abnegarem escaldados das agruras.
Antes das luzes serem recolhidas, a garoa choramingou nos ombros das mágoas, os pecados convertidos se persignaram frente aos vitrais abençoados da matriz e os desatinos procuraram suas solidões para se protegerem. Tudo isto se pôs em brios para a madrugada se fazer ativa apesar dos contraditórios. E por justo dos caminhos as torpezas foram se escondendo entre os dentes da boca da noite fechando e o ranço do trafego agitando a tristeza de cada desgraçado portando suas desavenças com os destinos, destinos que só os deuses e os demônios saberiam como os traçar.
Por solidão, o sol se apegou à rotina e todo mundo obedeceu aos desmandos.
Ceflorence    23/01/17       email   cflorence.amabrasil@uol.com.br